ESPERANÇA: UMA CRÔNICA AGOSTINIANA
- Carlos A. Buckmann
- 22 de abr. de 2025
- 3 min de leitura

ESPERANÇA: UMA CRÔNICA AGOSTINIANA
Ah, a esperança! Essa tênue chama que reside no íntimo do ser, muitas vezes confundida com a mera expectativa passiva de um futuro melhor. Ledo engano! Santo Agostinho, com a perspicácia que lhe era peculiar, desvela a verdadeira natureza da esperança, apresentando-a como genitora de duas filhas vigorosas e imprescindíveis: a indignação e a coragem. - “A esperança tem duas belas e queridas filhas: a INDIGNAÇÃO e a CORAGEM; a INDIGNAÇÃO para recusar as coisas como estão aí; e CORAGEM para mudá-las.” - Permitam-me, pois, nesta reflexão matutina, debruçar-me sobre essa tríade conceitual, que chega até nós através dos séculos.
A esperança desprovida dessas duas filhas torna-se um anseio frouxo, uma quimera inerte. É como um veleiro de mastros imponentes, mas sem velas para capturar o vento da transformação. Sem a indignação a nos impulsionar contra as arestas do presente, contentamo-nos com a inércia, aceitando o status quo como um fado inexorável. É no desconforto da alma, na percepção aguda da dissonância entre o ideal e o real, que germina a semente da mudança.
Ora, observemos a trajetória de indivíduos que, movidos por uma profunda insatisfação, ousaram remodelar seus próprios destinos. Indignar-se é o primeiro grito da alma inquieta. É recusar, como Tolstoi recusou a convenção de uma aristocracia que carecia de substância. Como ele, percebi que a indignação é a semente onde germina a necessidade de mudança; sua ausência é uma rendição ao imobilismo. Pensemos em Malala Yousafzai, cuja indignação diante da opressão à educação feminina no Paquistão acendeu uma coragem inabalável, transformando-a em um símbolo global de resistência e esperança. Sua voz, ecoando a fúria justa contra a injustiça, impulsionou ações e despertou consciências ao redor do mundo. Para além dos exemplos já citados, podemos brevemente mencionar figuras históricas que encarnaram essa união entre indignação e coragem em prol de mudanças sociais mais amplas. Pensemos em Mahatma Gandhi, cuja indignação com o colonialismo britânico e a injustiça social o levou a liderar um movimento de resistência pacífica que transformou a Índia. Ou em Rosa Parks, cujo ato de indignação contra a segregação racial em um ônibus desencadeou um movimento pelos direitos civis nos Estados Unidos.
Mas é preciso distinguir entre a indignação destrutiva, que se manifesta em raiva cega e ressentimento paralisante, e a indignação construtiva, aquela que, filtrada pela razão e pela empatia, se transmuta em um motor para a ação positiva. A indignação agostiniana não é um mero destempero emocional, mas sim um juízo moral que clama por reparação.
No âmbito empresarial, vislumbramos exemplos notáveis de como a indignação com modelos preestabelecidos pode gerar inovações disruptivas. Steve Jobs, porventura, não se indignou com a complexidade e a falta de elegância dos computadores da época? Essa insatisfação visceral o impeliu a conceber máquinas intuitivas e belas, revolucionando a indústria tecnológica. Não posso deixar de mencionar Anita Roddick, fundadora da The Body Shop. Sua indignação contra práticas corporativas abusivas levou-a a um modelo que respeitava tanto o trabalhador quanto o meio ambiente. Com coragem, ela ousou nadar contra o fluxo, provando que ética e sucesso não são antônimos.
Embora tenhamos citado exemplos de indivíduos e empresas, precisamos, mesmo que brevemente, entender o processo intrínseco da mudança impulsionada pela indignação e coragem. Envolve a identificação clara do problema, a visualização de uma alternativa desejável e, crucialmente, a disposição para enfrentar os obstáculos e as resistências inerentes a qualquer transformação significativa. Até aqui focamos na esperança individual e em suas filhas. Podermos brevemente expandir a perspectiva para a esperança coletiva, constatando como a indignação e a coragem compartilhadas catalisam transformações em comunidades, sociedades e até mesmo em escala global. A luta contra as mudanças climáticas, por exemplo, emerge de uma crescente indignação com a degradação ambiental e exige uma coragem coletiva para implementar soluções sustentáveis.
A sabedoria de Agostinho ressoa em outros pensadores que compreenderam a dinâmica entre a insatisfação e a ação. Nietzsche, em sua crítica à moralidade passiva, exorta à transvaloração dos valores, um ato que inevitavelmente pressupõe uma indignação com as normas vigentes. Jean-Paul Sartre, com sua filosofia existencialista, enfatiza a responsabilidade individual diante do mundo, um chamado implícito à indignação frente à inautenticidade e à inação.
A coragem para alterar o que nos aflige é, portanto, irmã siamesa da indignação. Quanto mais profunda a repulsa pelo que é, mais forte se torna o ímpeto para construir o que deveria ser. É uma equação visceral: a intensidade da indignação alimenta a ousadia da ação. Sem essa energia propulsora, a esperança definha, tornando-se um mero suspiro melancólico.
Permitam-me uma digressão leve: Imaginemos a esperança sem suas filhas como um sujeito à espera do elevador, impaciente, mas sem apertar o botão. A indignação seria o dedo firme que finalmente aciona a chamada, e a coragem, o passo decidido ao adentrar a cabine rumo a novos andares. Afinal, de que adianta sonhar com o topo se não ousamos subir?




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