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ESCREVER PARA NÃO EXPLODIR

  • Carlos A. Buckmann
  • 11 de nov. de 2025
  • 3 min de leitura

ESCREVER PARA NÃO EXPLODIR

            Lembrei-me, hoje, de um cartum da Mafalda.

            Ela, com seu olhar de criança que já vê o absurdo do mundo, recebe um conselho: “Quando estiver com raiva de alguém, escreva uma carta. Depois, queime-a.” E Mafalda, com aquela inocência que corta como lâmina, pergunta: “E o que faço com as cartas?”

            Na piada, há sabedoria. Porque, na verdade, o gesto não é escrever para alguém, é escrever para si mesmo. Não é despejar veneno no outro, mas aliviar a alma do próprio veneno. E, sim: queime as cartas. Não as pessoas.

            Vivemos numa era em que tudo é dito, e dito em público. Um desabafo vira post; uma mágoa, story; uma ofensa, tweet. A escrita, que um dia foi íntima, meditativa, quase sagrada, tornou-se performance. E, nessa corrida para ser visto, perdemos o mais essencial: o direito de não enviar. O direito de falar sem ser ouvido, de gritar sem eco, de chorar sem audiência.

            Escrever uma carta que nunca será lida por olhos alheios, ou rabiscar num diário o que não cabe em nenhuma rede social, é um ato de descompressão existencial. É permitir que a alma respire.

            Freud já sabia disso quando falava da catarse: a purgação emocional como caminho para o equilíbrio.

            Jung via no diário um espelho do inconsciente, um lugar onde sombras podiam ser nomeadas, e, ao serem nomeadas, deixavam de nos dominar.

            Já James Pennebaker, psicólogo contemporâneo, demonstrou em estudos que escrever sobre emoções profundas, mesmo que por apenas vinte minutos, por alguns dias, reduz o estresse, fortalece o sistema imunológico e traz clareza mental. Não é magia: é “presença escrita”. 

            A filosofia moderna também reconhece esse poder.

            Foucault, ao estudar os antigos, descobriu que a escrita de si era uma prática espiritual, um modo de cuidar da alma.

            “Escrever é um exercício de si sobre si”, dizia. Montaigne, ao criar os “Ensaios”, não pretendia ensinar o mundo, mas entender a si mesmo: “Se eu me comunico com alguém, é comigo mesmo.” 

            E Nietzsche, em seus cadernos póstumos, escrevia pensamentos fragmentados, às vezes furiosos, às vezes líricos, não para publicar, mas para sobreviver. A escrita era seu remédio contra a loucura, sua âncora na tempestade.

            É nesse solo fértil que a psicofilosofia planta suas sementes. Para ela, escrever não é apenas expressar, é transformar. A carta não enviada é um ritual de autocompaixão. O diário, um templo privado onde o “eu se encontra” consigo mesmo sem máscaras.

            A psicofilosofia propõe exercícios simples, mas profundos: escreva uma carta a quem te feriu, e não envie; escreva uma carta ao seu eu futuro, e guarde; escreva uma carta ao medo, e depois queime-a, como fazia Mafalda (ainda que sem entender, ela já praticava filosofia).

            Essa prática é urgente hoje.

            Num mundo de reações imediatas, de julgamentos em segundos, de identidades construídas para o olhar alheio, a escrita íntima é um ato de resistência. É dizer: “não preciso que o mundo me veja para existi”. É recuperar o silêncio como espaço de cura.

            Pegue um papel.

            Escreva.

            Não para postar, não para provar, não para punir.

            Escreva para libertar.

            Liberte-se da pressão de ter que ser coerente, gentil, produtivo, feliz o tempo todo.

            Liberte-se da ilusão de que tudo deve ser compartilhado.

            E, se quiser, queime. Não por destruição, mas por purificação.

            As cinzas não apagam a dor, mas mostram que você teve coragem de enfrentá-la sozinho, com tinta e verdade.

            Porque, no fim, a cura muitas vezes não vem de ser ouvido pelo mundo, mas de finalmente ouvir a si mesmo.

            Às vezes, basta uma folha em branco para que a alma encontre seu caminho de volta.

 
 
 

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