EPITÁFIO AO ÚLTIMO CAMPONÊS DO PODER.
- Carlos A. Buckmann
- 15 de mai. de 2025
- 4 min de leitura

Epitáfio ao O Último Camponês do Poder
“Aqui jaz um homem que nada teve, senão a coragem de viver com o essencial e lutar por tudo que é justo.”
Quando a morte, essa senhora de passos miúdos, me estendeu a mão, não foi com temor que a aceitei. Antes, com a serenidade de quem há muito fez as pazes com o tempo, o silêncio e a solidão. Talvez, porque vivi como poucos ousaram viver: entre o barro das prisões e os salões palacianos, sempre com os pés descalços da vaidade e o coração entalhado pela esperança dos humildes.
Meu nome é José Alberto Mujica Cordano — mas o mundo, e com certo carinho, me chamou de Pepe. Se me perguntam quem fui, digo que fui um trabalhador da terra, guerrilheiro de um sonho, e, por fim, um presidente em botas de borracha. Sou Mujica, e a terra que um dia me acolheu em vida agora me recebe em seu silêncio. Não trouxe comigo propriedades, nem contas recheadas, pois nunca vi na matéria o verdadeiro sentido da existência. Fui guerrilheiro, preso, torturado, e, ainda assim, jamais abandonei a esperança de um mundo mais justo.
Não nasci para o conforto das almofadas políticas. Entrei na história pelas mãos da luta, como um dos fundadores do Movimento de Libertação Nacional — os Tupamaros. Jovens, obstinados, desejávamos um Uruguai justo, onde o pão e o teto não fossem privilégios, mas direitos elementares. Armamos ideais, não por amor à guerra, mas por não suportar a injustiça. E a vida, sempre irônica, nos pagou com a prisão — longos catorze anos de clausura, sete deles em isolamento.
Foi ali, entre paredes úmidas e o silêncio que grita, que aprendi a conversar com as formigas e a medir o valor do sol em centímetros de luz. "Se não podes ser feliz com poucas coisas, tampouco o serás com muitas", dizia eu, muito antes de saber que um dia governaria um país.
Quando me devolveram à liberdade, não guardei rancores — os mortos do ódio não cultivam futuro. O tempo me devolveu ao mundo, e o mundo me devolveu à política. Fui eleito deputado, depois senador, e, em 2010, ocupei o mais alto cargo da nação: Presidente. Um título que nunca se assentou direito nos ombros gastos do velho camponês que sempre fui.
Dizia-se que minha prática era “comunista”, que meu desprendimento do material refletia um ideário utópico. Mas eu apenas acreditava no valor da partilha, na dignidade que advém de uma sociedade equitativa. Assim, meu salário presidencial jamais foi meu: distribuí-o entre causas humanitárias, pois era o mínimo que podia fazer por aqueles que confiavam em mim.
Mas não mudei. Recusei os luxos do palácio de Suárez y Reyes e segui habitando minha chácara, rodeado de margaridas, livros e minha companheira de vida, Lucía. Do salário de presidente, doei quase 90% para causas sociais. Não por heroísmo, mas por coerência. “Sou mais pobre do que os pobres, porque sou um homem que vive com pouco e precisa de pouco para viver.” Essa era minha filosofia, uma espécie de comunismo de alma: dar a si o bastante e aos outros, o que lhes é justo.
Minha presidência não foi de feitos grandiloquentes, mas de gestos humanos. Legalizamos a maconha, aprovamos o casamento igualitário e olhamos nos olhos dos esquecidos. Disse, certa vez: “O poder não muda as pessoas, apenas revela quem elas realmente são.” E ali, entre microfones e chefes de Estado, eu seguia sendo apenas Pepe, o velho teimoso de bombacha e mate. A vida me ensinou que a coerência entre o discurso e a prática é fundamental. Por isso, sempre procurei viver de acordo com os meus princípios, sem me deixar corromper pelo poder ou pela ambição. A simplicidade, a honestidade e a solidariedade foram os pilares da minha jornada. "A vida é curta, mas a memória é longa", dizia eu. E espero que a minha história sirva de inspiração para as futuras gerações, mostrando que é possível construir um mundo mais humano e fraterno.
Vivi como falei, e falei como vivi. “Não sou pobre, sou sóbrio. Levo uma vida simples, com pouco peso.” Essas palavras atravessaram oceanos e, por um breve momento, o mundo voltou os olhos para aquele pequeno país e seu presidente de fusca azul.
A terra me chama, e eu me entrego a ela com a serenidade de quem cumpriu a sua missão. Que as flores continuem a desabrochar, e que a luta por um mundo melhor jamais cesse. Hoje, escrevo estas linhas como quem encerra uma colheita. Talvez não tenha mudado o mundo. Mas tentei. Tentei com honestidade, ternura e uma imensa fé no ser humano. Minha biografia cabe num galpão: uma revolução, uma prisão, uma presidência e um jardim.
Se algum jovem, um dia, ao ler sobre mim, escolher o caminho da dignidade em vez do aplauso fácil, já terei vencido.
Aqui termino. Com os pés na terra, o coração leve e a certeza de que a política, quando sincera, ainda pode ser um ato de amor.




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