ENTRE TOPADAS E PARADAS
- Carlos A. Buckmann
- 14 de mai. de 2025
- 4 min de leitura

ENTRE TOPADAS E PARADAS
Há manhãs em que a vida nos arremessa um tropeço sem aviso prévio, como se o destino, travestido de criança arteira, colocasse uma pedrinha no nosso caminho apenas para observar o nosso tombo. E a verdade é que, nesses momentos, o impacto do inesperado nos faz duvidar de nossa rota, de nosso passo, e até mesmo de nossas escolhas. O coração se acelera, a mente ensaia desesperos e, por um breve instante, somos convidados a desistir. Como um raio em céu sereno, a adversidade se manifesta, lançando uma sombra inesperada sobre a placidez de nossa jornada. O impacto inicial ressoa como um choque, um instante de perplexidade que nos confronta com a fragilidade de nossas certezas. Quem nunca, diante de um obstáculo súbito, sentiu-se tentado a desistir ou lamentar sua sorte? Mas é justamente nesse momento que se revela o verdadeiro espírito da jornada.
Nesse turbilhão de incertezas, ecoa a voz de Robert Nesta Marley, o profeta jamaicano do reggae, cuja música transcendeu fronteiras e cuja sabedoria se imortalizou em sentenças lapidares. Nascido em Nine Mile, Jamaica, em 1945, Marley ascendeu de origens humildes para se tornar um ícone global, um arauto da paz, do amor e da resistência através de sua arte. Sua filosofia de vida, destilada em canções e declarações, frequentemente exortava à perseverança diante dos obstáculos.
Foi numa dessas manhãs de tropeço que me recordei de uma frase do sempre solar Bob Marley: “A vida é para quem topa qualquer parada. Não para quem para em qualquer topada.” Confesso que sorri com o trocadilho involuntário entre “parada” e “topada”, que mais parece verso de samba do que filosofia de vida. Mas não se engane. Há mais sabedoria aí do que parece à primeira vista.
De um lado, vislumbramos aqueles que se amedrontam e recuam diante do menor revés, permitindo que tropeços ocasionais se transformem em barreiras intransponíveis. Do outro, emergem os audaciosos, os que encaram os desafios como meros desvios de rota, aprendizados valiosos que os impulsionam adiante com renovado vigor. A vida, na perspectiva “marleyana”, não se curva aos hesitantes, mas se oferece aos que possuem a ousadia de prosseguir, independentemente das pedras que surjam no caminho.
A frase de Marley, carrega a centelha da resiliência. Topar qualquer parada não é ser inconsequente ou temerário; é ser valente. É estar disposto a encarar o que vier, sem deixar que os tropeços minem o ímpeto da jornada. Já parar em qualquer topada é desistir ao primeiro sinal de dificuldade, é permitir que a pedra no caminho se transforme em muralha intransponível.
No âmbito pessoal, essa filosofia nos convida a cultivar uma postura de antifragilidade. As “topadas” – sejam elas desilusões amorosas, perdas financeiras ou reveses de saúde – são inevitáveis. A diferença reside em nossa capacidade de absorver o golpe, aprender com a experiência e nos reerguer com mais força. A resiliência, portanto, é a pedra angular dessa visão de mundo. É a faculdade de retornar ao nosso estado original após sermos submetidos a pressões e desafios, saindo, por vezes, ainda mais robustos.
Na intrincada teia das relações sociais, a máxima de Marley ressoa com igual pertinência. Indivíduos que se paralisam frente às críticas ou aos desentendimentos interpessoais tendem a isolar-se e a perder oportunidades de crescimento e de enriquecimento mútuo. Em contrapartida, aqueles que “topam qualquer parada” no sentido de enfrentar os conflitos com diálogo e abertura, buscando soluções conjuntas, fortalecem seus laços e constroem comunidades mais coesas e resilientes.
No competitivo universo dos negócios, a filosofia em apreço revela-se um diferencial crucial para o sucesso. A história está repleta de empreendedores que enfrentaram falências, rejeições e inúmeros obstáculos antes de alcançarem o triunfo. Thomas Edison, por exemplo, perseverou em suas tentativas de inventar a lâmpada incandescente, apesar de inúmeras falhas. Walt Disney foi demitido de um jornal por falta de criatividade e viu seu primeiro estúdio falir antes de construir um império de entretenimento. Essas figuras emblemáticas personificam o espírito de “topar qualquer parada”, transformando tropeços em trampolins para o sucesso.
Resiliência é a chave que separa aqueles que simplesmente existem daqueles que verdadeiramente vivem. Não se trata apenas de suportar as dificuldades, mas de encará-las como desafios necessários para o crescimento. Cada obstáculo é um convite à superação, uma oportunidade de provar a si mesmo que a jornada vale a pena. A resiliência, inerente a essa filosofia, manifesta-se na capacidade de inovar diante da adversidade, de aprender com os erros e de manter a visão mesmo quando o caminho se torna árduo. Empresas que sucumbem ao primeiro obstáculo raramente perduram. Aquelas que cultivam a resiliência em sua cultura organizacional, incentivando a experimentação e a aprendizagem contínua, tendem a prosperar em ambientes complexos e voláteis.
Em derradeira análise, a sabedoria de Bob Marley nos incita a abraçar a jornada da vida com coragem e determinação. As “topadas” são inevitáveis, mas a decisão de parar ou de seguir em frente reside unicamente em nós. E como diria um certo pensador com um toque de humor: a vida pode nos dar limões, mas só os resilientes conseguem transformá-los em “CAIPIRINHA” – Um brinde aos que topam qualquer parada. - SAÚDE!




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