ENTRE O UNO E A GEOMETRIA DE DEUS
- Carlos A. Buckmann
- 14 de jul. de 2025
- 3 min de leitura

ENTRE O UNO E A GEOMETRIA DE DEUS.
Uma conversa entre místicos e matemáticos, no silêncio da alma
Acordei hoje com o silêncio diferente. Não era ausência de som, era presença de algo. Algo que não se diz, mas se pressente. Algo sem forma, sem rosto, sem tempo. Um Uno, talvez. Não o carro da Fiat, mas o de Plotino (205-270 d.C).
Levantei-me devagar, como quem pisa entre mundos. Fui até a estante, puxei dois livros que raramente se encostam: as Enéadas de Plotino e a Ética de Spinoza. Coloquei um de frente para o outro, como dois sábios antigos prestes a dialogar, um com túnica, outro com compasso.
Me sentei entre eles. E foi então que começou essa crônica.
Plotino me fala primeiro. Sua voz não é uma voz. É um silêncio que atrai, uma ausência que pulsa. Ele me fala do Uno: o princípio absoluto, anterior a tudo, até mesmo ao ser. O Uno não é algo que se conhece, mas algo que se é, quando tudo o que não é cessa. Não se ama o Uno, desaparece-se nele. A alma, purificada da dispersão do mundo, mergulha no Uno como quem volta ao ventre do que nunca saiu.
Eu, cronista, escuto como quem escuta uma música que não tem som, apenas vibração. Entendo sem entender. Sinto.
Mas então Spinoza abre sua obra com um estalo cartesiano. “Deus sive Natura”, ele diz. Deus, ou seja, a Natureza. Não há transcendência, tudo está em Deus, e Deus está em tudo. Não há queda, nem retorno. Não há mística, há ordem, necessidade e razão.
Spinoza não propõe êxtase, propõe compreensão. Seu Deus não exige adoração, mas conhecimento. Como um teorema eterno, ele está ali, esperando ser demonstrado.
Plotino ouve e suspira. Não em desacordo, mas como quem reconhece uma rota diferente para o mesmo cume. Diz: “É verdade, há ordem. Mas ela nasce da plenitude do Uno. Toda multiplicidade é emanação.” Spinoza responde: “Não há emanação, há identidade. Pensamento e extensão são atributos do mesmo ser.” E eu, no meio, penso: são dois mapas de um mesmo mistério.
No fundo, ambos querem salvar a alma do caos, cada um à sua maneira.
Plotino quer levá-la de volta: subir degraus do sensível ao inteligível, até dissolver-se no Uno. Spinoza quer levá-la à frente: conhecer suas paixões, domá-las pela razão, alcançar a liberdade não por fuga, mas por clareza.
Um fala da união com o Absoluto; o outro da liberdade por necessidade. Um é vertical, contemplativo; o outro é horizontal, dedutivo.Mas ambos exigem o mesmo da alma: transformação.
Às vezes penso que o Uno de Plotino é o silêncio anterior ao Big Bang. E que o Deus de Spinoza é o código-fonte do universo, escrito em linguagem matemática.
E talvez, só talvez, sejam a mesma coisa: o fundo do fundo de tudo, um escondido na luz mística, o outro exposto na luz da razão.
Levanto-me da cadeira. Fecho os livros. Sinto que estive entre mundos. Entre vozes que não gritam, mas ecoam.
Antes de sair para a rua, deixo os dois sobre a mesa.Como velhos amigos que, embora discordem dos caminhos, sorriem ao saber que caminham na mesma direção.
Confesso: às vezes me sinto como um pobre sapateiro metafísico, tentando costurar o Uno e o Deus com linha de prosa e sola de silêncio. Mas sigo. Porque se a alma pode ser redimida tanto pelo êxtase quanto pela equação... então vale a pena continuar escrevendo.
Mesmo que o Uno não leia.Mesmo que Deus não corrija.
Beto Buckmann
Crônicas entre ideias e pólvora.




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