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ENTRE O TUDO E O NADA

  • Carlos A. Buckmann
  • 1 de jul. de 2025
  • 3 min de leitura

ENTRE TUDO E NADA

            Os tempos atuais, com suas nuvens digitais e manchetes em tempo real, parecem ter se rendido à febre da radicalização. Já não se discute com a intenção de compreender, mas com o apetite de vencer. As redes, que deveriam ser pontes, tornaram-se trincheiras. Os argumentos, cada vez mais escassos, cedem lugar aos slogans, às certezas prontas e às indignações fabricadas. A sociedade contemporânea se vê presa num espetáculo de extremos, onde toda dúvida é vista como fraqueza e toda ponderação como traição.

            Nesse teatro de verdades absolutas, a política global se contorce entre gritos e silêncios. De um lado, o Ocidente tenta salvar suas democracias cambaleantes, fragilizadas por populismos que se alimentam do medo e da ignorância. De outro, regimes autoritários alguns disfarçados de repúblicas, consolidam-se sob a égide da força, do controle da informação e da repressão à diversidade de pensamento. A guerra, antes anunciada em comunicados solenes, hoje explode em vídeos curtos e mapas interativos. Os conflitos no Oriente Médio, o retorno das tensões na Europa Oriental, os autoritarismos crescentes na Ásia, tudo nos lembra que os homens ainda não aprenderam a lição fundamental: o poder sem justiça é apenas uma forma refinada de servidão.

            É nesse cenário que ressurge, como um facho de lucidez, o pensamento de Charles-Louis de Secondat, o barão de Montesquieu, filósofo iluminista francês nascido em 1689. Em sua obra-prima, O Espírito das Leis, ele traça com elegância e rigor a anatomia dos regimes políticos, e nos presenteia com uma frase que carrega, em sua concisão, uma verdade devastadora:

“Os homens são todos iguais no governo republicano; são iguais no governo despótico; no primeiro, porque são tudo; no segundo, porque não são nada.”

            Que sentença! Nela está contida toda a tragédia e a esperança da humanidade. No regime republicano, aquele no qual a soberania reside no povo, cada cidadão carrega, ao menos em teoria, o peso e a dignidade do Estado. Somos iguais porque compartilhamos responsabilidades, direitos e deveres. No despotismo, contudo, a igualdade é uma caricatura amarga: todos são igualmente irrelevantes diante do arbítrio de um só.

            Montesquieu não estava só. Alexis de Tocqueville, ao estudar a democracia americana, advertiu que a igualdade sem liberdade poderia gerar uma nova forma de tirania, suave, mas sufocante. Hannah Arendt, por sua vez, via no totalitarismo a negação radical da política enquanto espaço do plural e do humano. E até mesmo George Orwell, com sua pena afiada, nos mostrou que a opressão moderna pode vir travestida de vigilância e slogan.

            Hoje, enquanto bombas caem e tratados são rasgados, é necessário mais do que nunca refletir sobre o tipo de igualdade que buscamos. Ser tudo ou não ser nada, eis a questão política essencial. A diferença entre a república e o despotismo não é uma abstração acadêmica, mas uma linha tênue entre a cidadania e a servidão, entre a vida e a sobrevivência.

            Enquanto isso, líderes despóticos posam em cúpulas diplomáticas, regimes ditatoriais elegem-se com 90% dos votos e democracias morrem aplaudidas por seus próprios eleitores. O paradoxo moderno é que a tirania já não chega de botas, mas de terno, com promessas patrióticas e algoritmos de manipulação emocional.                    Num mundo onde muitos preferem a segurança da obediência à inquietude da liberdade, talvez o maior perigo não seja o despotismo dos governantes, mas o servilismo voluntário dos governados. Porque, no fim, a pior forma de escravidão é aquela que se abraça de livre e espontânea vontade.

Beto Buckmann

Crônicas entre ideias e pólvora

 

 
 
 

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