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ENTRE O SOFRIMENTO ANTIGO E A CURA CONTEMPORÂNEA

  • Carlos A. Buckmann
  • 5 de nov. de 2025
  • 3 min de leitura

ENTRE O SOFRIMENTO ANTIGO E A CURA CONTEMPORÂNEA

            Ao caminhar pelas ruas movimentadas desta cidade que parece correr mais rápido do que o pensamento consegue acompanhar, fui mentalizando uma palavra que carrego como um talismã silencioso: “PSICOFILOSOFIA”.

            Não é um termo consagrado nos manuais, ainda não, ao menos, mas é uma necessidade urgente do nosso tempo.

            Como todo bom filósofo (ou quase), começo pela etimologia, essa arte de escavar as raízes das palavras para descobrir o que elas escondem.

            “Psico”, do grego “psychḗ” alma, sopro, essência viva; “philos”, amor; “sophía”, sabedoria. Assim, psicofilosofia seria, literalmente, o amor à sabedoria da alma. Não apenas o conhecimento técnico sobre a mente, mas o cuidado amoroso com o que nos torna humanos: nossos desejos, medos, contradições, anseios por sentido. 

            Na Grécia antiga, não havia psicólogos nem psiquiatras, havia filósofos. Sócrates, com sua maiêutica, não buscava impor verdades, mas ajudar o outro a parir seu próprio entendimento. Epicuro ensinava que a felicidade era possível mediante a moderação dos desejos e a amizade. Os cínicos, como Diógenes, desafiavam as convenções para expor a hipocrisia da alma social. E os estoicos, Sêneca, Epicteto, Marco Aurélio, viam na filosofia um “ars vivendi”, uma arte de viver com serenidade diante da dor, da perda, da incerteza. Para eles, pensar era curar.

            Com o tempo, a alma foi sendo dividida.

            A psicologia nasceu como filha da filosofia, mas logo se vestiu com os trajes da ciência empírica.

            Freud, ao trazer o inconsciente para o centro do palco, fez da mente um território a ser explorado, e, em certa medida, medicalizado.

            Jung, mais poético, resgatou os mitos e os arquétipos, aproximando-se novamente da sabedoria ancestral.

            Já a psiquiatria, por sua vez, assumiu o papel de tratar os transtornos mentais com medicamentos e diagnósticos, muitas vezes reduzindo a alma a um conjunto de neurotransmissores desregulados. Não que isso seja errado, longe disso. Em muitos casos, é salva-vidas. Mas algo se perdeu no caminho: a dimensão existencial do sofrimento.

            A psicologia cuida da mente como processo; a psiquiatria, da mente como órgão doente. Ambas são necessárias, mas insuficientes quando isoladas. Pois o ser humano não é apenas um cérebro que funciona ou deixa de funcionar. Ele é um ser que pergunta: “Por que estou aqui? O que vale a pena? Como viver com dignidade?”

            Entra aqui a psicofilosofia, essa ciência híbrida que ainda se forma, como um rio que nasce da confluência de duas nascentes antigas. Ela não substitui a psicologia nem a psiquiatria; dialoga com ambas. Usa os instrumentos da razão filosófica para iluminar os labirintos da alma, enquanto acolhe os avanços clínicos da mente. Inspirada em Viktor Frankl, que viu no “logos”, no sentido, a cura mais profunda, a psicofilosofia pergunta: “O que seu sofrimento está tentando lhe dizer?” 

            Vivemos uma epidemia de ansiedade, solidão e vazio existencial. Temos mais conexões digitais e menos encontros reais; mais informação e menos sabedoria.

            A psicofilosofia surge como um antídoto suave, mas firme: ela nos convida a pensar com a alma, não apenas sobre ela. A refletir não só sobre como nos sentimos, mas porque nos sentimos assim, e o que isso revela sobre nossos valores, nossas escolhas, nosso lugar no mundo.

            Não se trata de voltar ao passado, mas de resgatar o que nele era essencial. A filosofia não era um luxo intelectual para os gregos; era um modo de cura. E talvez seja hora de reconhecer que, em pleno século XXI, ainda precisamos de mestres que nos ajudem a viver, não apenas a sobreviver.

            Encerro esta crônica com um chamado: não tema pensar. Não tema sentir. E, sobretudo, não tema unir os dois. A psicofilosofia não tem respostas prontas, mas oferece perguntas que libertam. E, às vezes, basta uma pergunta bem-feita para transformar uma vida. 

            Que possamos, então, amar a sabedoria da alma, não como espectadores, mas como protagonistas de nossa própria cura.

 
 
 

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