top of page

ENTRE A SERENIDADE E O PRAZER

  • Carlos A. Buckmann
  • 3 de nov. de 2025
  • 3 min de leitura

ENTRE A SERENIDADE E O PRAZER

Raízes Antigas para uma Psicofilosofia Viva 

            Muitos os veem como opostos: o estoico, impassível diante da dor, senhor de si na adversidade; o epicurista, buscando o prazer tranquilo, evitando o sofrimento como quem evita o fogo.

            Mas, ao contemplá-los com olhos menos apressados, descubro que ambos caminham em direção ao mesmo horizonte, a eudaimonia, a vida plena.

            O estoicismo não nega o prazer; recusa apenas o prazer que escraviza.  O epicurismo não festeja o hedonismo vulgar; cultiva o prazer que nasce da amizade, da simplicidade e da ausência de perturbação ataraxia.

            Ambos, à sua maneira, propõem uma “ética da liberdade interior” diante de um mundo caótico. Concordam na essência: a felicidade não está nas coisas, mas na maneira como habitamos a alma.

            A psicologia contemporânea, especialmente nas vertentes cognitivo-comportamentais, bebe diretamente dessas fontes antigas.

            Albert Ellis, fundador da Terapia Racional Emotiva, admitia que sua abordagem era “estoicismo disfarçado de psicoterapia”: nossos sofrimentos não vêm dos fatos, mas das crenças irracionais que construímos sobre eles, eco claro da máxima de Epicteto: “Não são as coisas que perturbam os homens, mas as opiniões que têm delas.” 

            Já a psiquiatria, em sua busca por estratégias de resiliência, reconhece no ideal estoico uma ferramenta poderosa contra a ansiedade e o desespero. E, de outro lado, terapeutas humanistas e existenciais, como Irvin Yalom, aproximam-se do epicurismo ao valorizar a presença, a conexão afetiva e a aceitação da finitude como caminhos para uma vida autêntica.

            Ambas as escolas, assim, não são relíquias do passado, mas mapas vivos para navegar o sofrimento moderno.

            A filosofia moderna, por sua vez, revisitou essas tradições com olhar crítico e criativo.

            Nietzsche, embora feroz crítico do estoicismo por considerá-lo “fuga da vida”, admirava sua coragem diante do absurdo e, paradoxalmente, compartilhava com Epicuro o ideal de uma vida leve, desapegada das ilusões morais.

            Foucault, em seus últimos cursos no Collège de France, dedicou-se à “estética da existência” grega, mostrando como tanto estoicos quanto epicuristas viam a filosofia não como teoria, mas como “prática de si”, um cuidado cotidiano com a alma.

            E Martha Nussbaum, em sua ética das emoções, defende que o estoicismo, quando bem compreendido, não suprime as paixões, mas as educa; enquanto o epicurismo, longe de ser fuga, é um convite à atenção plena ao presente.

            É nesse solo fértil, onde a razão se encontra com o afeto, a disciplina com a alegria, que a psicofilosofia ergue sua prática. Ela não escolhe entre estoicismo e epicurismo; tece-os. Do estoicismo, toma a clareza diante do incontrolável, a serenidade ética, a coragem de assumir a responsabilidade pelo próprio julgamento. Do epicurismo, recebe a valorização do vínculo, do prazer simples, da convivência como remédio contra a angústia existencial. Assim, a psicofilosofia não ensina a reprimir a dor, nem a buscar prazer a qualquer custo. Ensina a discernir: o que depende de mim? O que merece minha atenção? Com quem posso compartilhar esta jornada?

            É aqui que a criação em grupo, o coral, o teatro comunitário, a roda de poesia, se revela como expressão viva dessa síntese.

            No coral, exercitamos a harmonia estoica: cada voz se submete ao todo, não por renúncia, mas por escolha ética de pertencimento. Ao mesmo tempo, experimentamos o prazer epicurista da presença compartilhada, do riso após o ensaio, do abraço silencioso. No teatro, enfrentamos nossos medos com a coragem do sábio, mas também celebramos a carne, a emoção, a fragilidade, como Epicuro celebrava a amizade como o maior bem. Na roda de poesia, cultivamos a ataraxia da escuta atenta e o prazer íntimo de sermos ouvidos, não julgados, apenas recebidos.

            Numa era de ansiedade generalizada, de individualismo tóxico e de esvaziamento espiritual, a psicofilosofia oferece algo radicalmente simples: “uma vida pensada e sentida em comunidade”. Não promete felicidade fácil, mas liberdade possível. Não vende prazer, mas ensina a reconhecê-lo onde ele floresce de verdade, na simplicidade, na verdade, no encontro.

            Por isso, você que oscila entre o endurecimento e a fuga, não precisa escolher entre ser forte ou ser sensível. A sabedoria está na dança entre os dois. 

            Seja estoico na tempestade, mas epicurista no abrigo que você constrói com outros.  Porque a cura não está na solidão do controle, nem na dispersão do prazer vazio. 

            Está no meio: na serenidade que acolhe, no prazer que conecta, na filosofia que se faz carne em coros, palcos e rodas de verso. 

            Viva com razão. Viva com afeto. Viva com os outros. 

            Assim, como os antigos sonharam, torne sua vida uma obra de arte ética não perfeita, mas inteiramente sua.

 
 
 

Comentários


CONTATO

Porto Alegre, RS 

​​

Tel: (51) 9 9259-6364

Skype: betobuckmann​

betobuckmann@yahoo.com.br

Nós recebemos a sua mensagem, aguarde contato.

  • LinkedIn - Círculo Branco
  • Facebook - Círculo Branco
  • Instagram - White Circle
  • YouTube - Círculo Branco

© 2023 por Hugin. Criado orgulhosamente com Wix.com

bottom of page