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ENTRE A FÉ E A RAZÃO.

  • Carlos A. Buckmann
  • 1 de out. de 2025
  • 3 min de leitura

ENTRE A FÉ E A RAZÃO

A Crônica de um País em Suspenso

            Costumo caminhar pelas madrugadas com mais ideias que passos. Há um silêncio no mundo adormecido que me permite ouvir os ruídos da alma, e, às vezes, nesse escuro, ouço um sussurro inquietante: “A fé é a ausência total da razão.” Dita assim, com suas sílabas duras e definitivas, a frase provoca como uma bofetada metafísica. Mas será ela verdadeira?

            Sou um homem de dúvidas mais que de certezas. E aprendi, com os grandes mestres do pensamento, que entre fé e razão não há necessariamente antagonismo, mas uma tensão, uma ponte, talvez mal construída, entre dois mundos: o da esperança e o da lógica. Tomás de Aquino tentou resolver esse dilema ao afirmar que fé e razão, embora distintas, provêm da mesma fonte divina e, portanto, não se contradizem. Blaise Pascal, por outro lado, reconhecia o vazio racional diante do infinito e propunha o salto da fé. Já Nietzsche, em tom cortante, acusava a fé de ser uma forma de resignação, um consolo dos fracos diante do absurdo da existência.

            E aqui estamos nós, no Brasil do século XXI, onde a tensão entre fé e razão não é apenas um dilema filosófico, mas uma tragédia cotidiana.

            A frase “a fé é a ausência total da razão” me ressoa como diagnóstico, não como sentença. Ela ecoa no campo devastado da ignorância nacional, onde a fé, muitas vezes cega, infantil e manipulada, substitui o pensamento crítico. Não me refiro à fé transcendente, aquela que transcende a razão sem negá-la, mas à fé do desespero, da submissão, da recitação automática de frases feitas, memorizadas em cultos ou vídeos de TikTok, mas jamais compreendidas. É a fé que floresce no deserto do saber, onde a razão jamais brotou.

            Como chegamos a esse ponto?

            Vivemos num país onde a escolarização caminha aos tropeços e, mesmo quando caminha, não educa. Temos uma população majoritariamente composta por analfabetos funcionais, pessoas que até decifram letras, mas não compreendem ideias. Não leem. E se leem, não interpretam. Escrevem, mas com dificuldade. Argumentam, mas sem coerência. E, pior, julgam-se informadas porque dominam as gírias digitais e navegam pelas redes sociais com dedos ágeis e mentes vazias.

            A geração Z, essa que se alfabetizou nos emojis, digitalizou-se antes de ler Machado, ouviu influencers antes de ouvir os clássicos, aprendeu a postar antes de pensar. E não culpo os jovens. Culpá-los seria tão absurdo quanto culpar a semente pela terra árida. Falhamos na base. A escola pública tornou-se depósito de corpos e a escola privada, em muitos casos, vitrine de vaidades. Ambas falharam em formar cidadãos pensantes.

            E é nesse vácuo que surgem os predadores.

            A ignorância sempre foi a matéria-prima dos tiranos. Políticos inescrupulosos, e eles são legiões, aprenderam a manipular a fé popular como instrumento de dominação. Prometem milagres, falam em nome de Deus, invocam valores de “família” enquanto saqueiam os cofres públicos e perpetuam a miséria que os alimenta. O povo, abandonado pela razão, agarra-se à fé como náufrago a um galho. E ali permanece, em transe, aplaudindo o algoz.

            Platão já alertava, em A República, que uma sociedade que despreza a educação está condenada a ser governada pelos piores. Kant, séculos depois, definiu o esclarecimento como a saída do homem de sua menoridade autoimposta, da preguiça e da covardia que o impedem de pensar por si mesmo. Mais recentemente, Paulo Freire nos ensinou que a educação verdadeira não é a transmissão de conteúdo, mas a libertação da consciência. Mas quem quer libertar consciências quando é mais lucrativo dominá-las?

            Estamos, pois, num ciclo vicioso: a ignorância alimenta a fé cega; a fé cega sustenta o poder corrupto; o poder corrupto destrói a razão. E a razão, enfraquecida, não encontra mais voz nem espaço para iluminar o debate público.

            Por isso insisto em escrever. Talvez seja inútil. Talvez seja o último ofício de um idealista em extinção. Mas escrevo porque acredito que ainda há quem pense, quem leia, quem sinta a náusea diante dessa manipulação grotesca da fé. E talvez, com sorte, com coragem e persistência, possamos reconstruir a ponte entre fé e razão. Que a fé nos dê coragem e a razão, lucidez. Que não sejam rivais, mas aliadas na reconstrução de um país que aprenda, enfim, a pensar.

Beto BuckmannCrônicas entre ideias e pólvora

 

 
 
 

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