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ENTENDER PARA VER

  • Carlos A. Buckmann
  • 18 de nov. de 2025
  • 3 min de leitura

ENTENDER PARA VER

            Voltamos, mais uma vez, ao mesmo abismo disfarçado de cotidiano: a cegueira psíquica.      

            Não aquela que apaga a luz dos olhos, mas a que obscurece o entendimento. Estamos cercados de imagens, dados, rostos, vozes e, mesmo assim, não vemos. Porque, como escreveu Goethe com precisão quase profética:

            “Só vemos o que entendemos, e o que não entendemos deixamos de ver.” 

            Essa frase não é uma observação poética, é um diagnóstico existencial. Vivemos em tempos de hiperexposição visual, mas de profunda cegueira cognitiva e emocional. Ignoramos o sofrimento alheio porque não compreendemos sua linguagem; negligenciamos nossos próprios sintomas porque não os reconhecemos como chamados; repetimos erros porque não os interpretamos como lições. E, pior: julgamos o que não entendemos, transformando o desconhecido em ameaça.

            Essa recusa em entender, ou incapacidade de fazê-lo, gera feridas profundas na alma coletiva.

            A ansiedade floresce quando o mundo se torna ininteligível; a depressão se instala quando a vida perde sentido por falta de compreensão; a alienação social cresce quando não reconhecemos no outro nada além de um estranho.

            Psicólogos como Jean Piaget já mostraram que o entendimento não é passivo, é uma construção ativa do sujeito diante do real. Quando essa construção falha, o sujeito se fecha.

            Já a psiquiatria contemporânea observa que muitos transtornos, especialmente os ligados ao trauma e à dissociação, envolvem uma ruptura entre percepção e significado: o corpo sente, mas a mente não entende, e o que não é integrado vira sintoma.

            A psicologia humanista, com Carl Rogers, insiste que a empatia, a capacidade de compreender o mundo do outro a partir de seu próprio quadro de referência, é condição para qualquer relação autêntica. Sem entender, não há encontro.

            Do lado da psiquiatria, Irvin Yalom afirma que o sofrimento humano muitas vezes nasce não da dor em si, mas da “falta de narrativa” para ela. Quando não entendemos nossa dor, ela nos domina. Quando a compreendemos, mesmo que parcialmente, começamos a nos libertar.

            A filosofia moderna, por sua vez, nunca deixou de explorar essa ligação entre ver e entender.

            Merleau-Ponty afirmava que a percepção não é recepção passiva, mas intencionalidade: vemos aquilo que nosso corpo e nossa história nos preparam para ver.

            Hannah Arendt via na incapacidade de pensar, isto é, de compreender, a raiz da banalidade do mal: Eichmann não era um monstro; era um homem que não entendia o que fazia.

            E Foucault mostrou como os regimes de verdade de cada época determinam o que é visível e o que é invisível, não por acaso, mas por estrutura de poder e conhecimento. Ver, portanto, nunca é inocente. É sempre um ato interpretativo.

            Nesse entrelaçamento entre clínica sensível e crítica filosófica, é que a psicofilosofia encontra seu lugar. Para ela, “entender para ver” não é um exercício intelectual, mas uma prática ética de cuidado.

            A psicofilosofia propõe exercícios de desautomatização do olhar: parar diante do que nos incomoda e perguntar: “O que não estou entendendo aqui?”

            Escutar o outro sem pressa de responder. Revisitar memórias dolorosas não para julgá-las, mas para compreendê-las. Usa o diálogo socrático, a escrita reflexiva e a fenomenologia da experiência para ampliar o campo do entendível e, assim, do visível.

Vivemos marcados pela polarização, pela superficialidade das redes e pela ansiedade da informação sem sabedoria. Então, essa prática é urgente.

            A psicofilosofia nos lembra que a verdadeira visão não depende da acuidade dos olhos, mas da profundidade do entendimento. E que, muitas vezes, o que mais precisamos não é mais luz, mas mais linguagem, para nomear, integrar, transformar.

            Não se contente em ver. Procure entender. Pergunte. Duvide das primeiras impressões. Deixe-se confundir pelo real.

            Porque só quando entendemos, mesmo que parcialmente, é que começamos a ver de verdade. 

O mundo não está escondido. Está à espera de olhos que saibam ler. E, como Goethe sabia, ler não é decifrar letras, é compreender almas. 

            Então, entenda. 

            E, ao entender, você verá, não apenas o que está diante de você, 

mas o que sempre esteve ali, esperando por sua atenção.

            E isso vale para pessoas e negócios.

 
 
 

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