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ENSINAR A ALMA A PENSAR

  • Carlos A. Buckmann
  • 8 de nov. de 2025
  • 3 min de leitura

ENSINAR A ALMA A PENSAR

            Há dias, folheando um antigo caderno de aulas do ensino médio, deparei-me com uma ausência que me doeu mais do que qualquer erro: a filosofia.

            Não estava ali, ou, quando estava, era um fantasma: matéria marginalizada, reduzida a datas, nomes e definições, como se o pensamento fosse um museu de peças mortas. Pior ainda: em muitas escolas, sequer aparecia.

            E nas universidades? Sobrevive em guetos acadêmicos, enquanto os futuros engenheiros, administradores, médicos, isto é, os construtores do mundo, saem delas sem jamais terem sido convidados a perguntar: “para quê? por quem? com que sentido?

            Nesse vácuo formativo, surge a urgência, e a dificuldade, de ensinar a psicofilosofia. Não é uma disciplina reconhecida pelos ministérios da educação; não tem vestibular, nem grade curricular oficial. É, por ora, uma ciência sem status, uma prática sem diploma. Mas será que o essencial precisa de carimbo para existir? Afinal, não foi assim também com a filosofia nos tempos de Sócrates? Ele não ensinava em salas fechadas, mas nas praças, nos mercados, nos encontros casuais, onde a vida acontecia.

            A psicologia contemporânea já aponta para essa lacuna formativa.

            Daniel Goleman, ao defender a inteligência emocional, mostrou que saber lidar com as próprias emoções, com os conflitos internos e interpessoais, é tão crucial quanto dominar fórmulas matemáticas.

            Já Carl Rogers insistia que a educação deveria formar “pessoas plenamente funcionais”, capazes de pensar por si mesmas, de sentir com autenticidade, de agir com responsabilidade.

            Do lado da psiquiatria, figuras como Franco Basaglia e, mais recentemente, o movimento da psiquiatria democrática, denunciam que a exclusão do sujeito de seu próprio processo de cura, e de formação, é uma forma de violência simbólica.

             E se a escola não for um lugar onde o sujeito possa se encontrar, onde poderá?

            A filosofia moderna, por sua vez, nunca deixou de insistir na educação como prática de liberdade. Paulo Freire, nosso mestre brasileiro, via o ensino não como depósito de informações, mas como diálogo entre sujeitos conscientes. Para ele, “ninguém educa ninguém, ninguém se educa sozinho”.

            Já Hannah Arendt alertava que a função da escola é introduzir os jovens ao mundo, não para reproduzi-lo, mas para poder transformá-lo.

            E Foucault, em seus últimos cursos no Collège de France, resgatou a ideia antiga de que a filosofia é um modo de vida, não um mero discurso. Ensinar filosofia, portanto, não é ensinar o que pensaram os outros, mas ensinar a pensar por si, e a cuidar de si.

            É nesse cruzamento que a psicofilosofia encontra seu lugar, não como mais uma matéria a ser encaixada no currículo, mas como uma prática transversal de formação humana.

            Ela pode viver nas rodas de conversa nas escolas, onde alunos são convidados a refletir sobre justiça, medo, desejo, solidão, não como conceitos abstratos, mas como experiências vividas.

            Pode habitar as universidades nos intervalos entre as aulas técnicas, nos grupos de estudo que se reúnem para perguntar: “o que é viver bem? como agir com ética em tempos de crise?” Pode florescer em praças públicas, bibliotecas comunitárias, centros culturais, onde qualquer pessoa, independentemente de título, possa se sentar e, com outras, cuidar da alma através do pensamento compartilhado.

            A psicofilosofia não precisa de reconhecimento institucional para existir, precisa de coragem para ser praticada. Ela se alimenta de perguntas, não de respostas; de encontros, não de hierarquias; de cuidado, não de controle. E é justamente por isso que é tão necessária hoje: num mundo de algoritmos que decidem por nós, de ansiedades coletivas, de identidades fragmentadas, precisamos reaprender a ser humanos, não apenas competentes, mas sensíveis; não apenas produtivos, mas significativos.

            Deixo aqui um convite e um desafio: que professores se tornem facilitadores de pensamento; que alunos sejam vistos como sujeitos em busca de sentido; que cidadãos se reúnam não só para reclamar do mundo, mas para refletir juntos sobre como habitá-lo com mais humanidade.

            A psicofilosofia não será ensinada por decreto, será vivida por escolha. E cada vez que alguém fizer uma pergunta profunda, escutar com atenção, ou simplesmente se permitir duvidar com coragem, estará, sem saber, ensinando-a.

            Não esperemos que o sistema mude para começarmos a formar almas.

            Comecemos a formá-las, aqui, agora, com as mãos sujas de realidade e o coração aberto à sabedoria que só nasce quando pensamos juntos.

            Afinal, educar não é preparar para o mundo como ele é, mas para o mundo como ele poderia ser.

            E esse mundo começa em cada encontro onde a alma é convidada a pensar, e a cuidar de si mesma.

 
 
 

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