ENCONTROS ÉTICOS
- Carlos A. Buckmann
- 23 de jul. de 2025
- 3 min de leitura

ENCONTROS ÉTICOS
Hoje, o Café estava impregnado por um perfume de folhas secas e pensamento puro. A luz incidia sobre a mesa do canto como se o próprio mundo iluminasse o debate. Aristóteles já estava acomodado, girando o cálice como quem pondera sobre a justa medida. Kant entrou, pontual como o tempo que carrega, trajando seu rigor moral na lapela.
ARISTÓTELES, com ares de quem está sempre fazendo cálculos e com voz serena, falou olhando Kant de frente:
"Meu caro Kant, a virtude só pode brotar do hábito. Na Ética a Nicômaco, defendi que agimos bem por repetição, cultivando o equilíbrio entre extremos. O homem justo se forma pelo agir justo, e não por conceitos abstratos."
KANT olhos fixos na xícara fumegante, fugindo do olhar penetrante de Aristóteles, mas sem pestanejar, respondeu:
"Respeito a experiência, mas ela jamais poderá fundar a moral. Na Fundamentação da Metafísica dos Costumes, explico que a ação ética deve brotar de um dever racional. O imperativo categórico exige que se aja de tal forma que a máxima possa se tornar universal."
ARISTÓTELES, apontando suavemente para o ambiente ao redor:
"E o que dizer da phronesis, a sabedoria prática que se aplica na singularidade das circunstâncias? O justo não se mede por fórmulas, mas pelo julgamento do sábio."
KANT, com sua postura prussiana e metódica, ajustando seus punhos com precisão:
"A moral, para ser válida, deve prescindir das contingências. Na Crítica da Razão Prática, mostro que a liberdade reside na autonomia da razão. Agir por inclinação é ceder ao acaso."
ARISTÓTELES, refletindo sobre seus antigos preceitos gregos, numa travessia de séculos e éticas, retrucou:
"Mas não seria a amizade, como exploro na Ética Eudêmia, também uma expressão ética? Ser virtuoso é também saber se relacionar. Como a razão pura lida com o afeto?"
KANT, na mais pura crítica da razão, ponderou:
"Afetos não são fundamento da moral, mas são suas consequências. A virtude não reside em querer bem, mas em fazer o bem por dever. A Metafísica da Moral é clara: o respeito à humanidade em cada indivíduo é o que nos torna éticos."
O ambiente pulsava com camadas filosóficas. Copos vazios eram testemunhas da complexidade humana. O café parecia suspenso no tempo, onde cada palavra pesava como ouro.
ARISTÓTELES, valculando cada palavra,acrescentou:
"Então, talvez nossas éticas coexistam: uma pela razão, outra pelo caráter. Ambas buscam a eudaimonia, você por dever, eu por virtude."
KANT, com um meio-sorriso que contraria a severidade:
"E se ambos buscarmos o bem, nossa diferença é apenas o caminho. Isso, talvez, seja a dignidade do debate.
A conversa se desenrolava como uma peça de cordas: ora harmônica, ora tensa. Aristóteles falava com o calor de quem acredita na observação da alma em ação; Kant, com a frieza cartesiana de quem mira a perfeição racional. E mesmo discordando, havia entre eles uma reverência mútua, como mestres que jogam xadrez com as peças da humanidade.
Eles discutiram a virtude da amizade, a justiça como equilíbrio, e o dever como expressão de liberdade. O café ressoava com ideias densas, como se cada palavra estivesse sendo decantada junto ao vinho servido.
Quando o sol se recolheu por entre as janelas e o aroma de especiarias invadiu o ambiente, acompanhei os dois até a saída. Kant ajeitou o casaco como quem veste o dever. Aristóteles olhou para os livros como quem saudava velhos amigos.
Antes de apagar as luzes, escrevi no guardanapo, como faço após encontros memoráveis:
"A ética é a respiração da alma: ora ritmada pelo costume, ora contida pelo dever. Mas sempre humana."
"Entre hábitos e deveres, a ética serve-se quente. O humano não é apenas o que age, mas o que escolhe por que agir."




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