EMPRESAS QUIXOTESCAS
- Carlos A. Buckmann
- 9 de mar. de 2020
- 2 min de leitura

Envolvido com um bocado de serviços, meu tempo foi curto para poder ir a uma livraria em busca de algum título novo para minhas leituras diárias. Em face disso, busquei na minha biblioteca algo para reler e me deparei com a obra de Miguel de Cervantes Saavedra, Dom Quixote de La Mancha, cuja última leitura eu havia feito nos tempos do Curso de Letras.
Atualmente, o envolvimento com minha profissão me faz trazer para os negócios toda a informação que se apresenta, nova ou velha, para uma análise ou comparação de situações do dia a dia.
O primeiro volume de Dom Quixote, contendo 52 Capítulos, publicada no ano de 1605 (Cervantes só publicou o segundo volume dez anos depois, em 1615), na tradução que tenho do Conde de Azevedo e do Visconde de Castilho, conserva o linguajar rebuscado dos fidalgos da época, por isso uma leitura que leva muitos a desistirem nos primeiros capítulos, parando na primeira batalha quixotesca contra um moinho de vento, o que leva ao público que não leu a obra, pensar que toda sua história se baseia em lutar contra moinhos de vento.
Ledo engano. Os infortúnios de nosso tresloucado cavaleiro se desenrolam em combates e derrotas contra imaginários inimigos, por todos os 52 capítulos, desgraça após desgraça.
Mas tudo isso é apenas romance que eu recomendo como uma boa e divertida leitura. O que me traz a este ensaio, é a relação que vejo com algumas pequenas lojas, com seus proprietários (empresários) numa continuada luta com derrotas consecutivas contra inimigos imaginários e outros nem tanto.
Suas lojas com mobiliários antigos, prateleiras de vidro que contam histórias de insucessos, me fazem lembrar Dom Quixote, com sua armadura amassada e mal posta sobre os ombros, com sua lança improvisada feita de um galho comprido e eles, como este, partem para o combate diário e a cada derrota, justificam na força de inimigos imaginários.
Alguns, na tentativa de melhor se sair, contratam um novo gerente e, como Quixote, à guisa de escudeiro, lhe prometem o domínio de uma ilha a ser conquistada. No entanto, a sua amada Dulcinéia, bela dama criada por seus sonhos, no caso de nosso empresário, a sua loja, é mera ficção, pois continua aquele lugar deprimente e ultrapassado.
Nossos heroicos e tristes figuras, vez por outra em face de uma rara negociação imprevista, readquirem algum fôlego, como Quixote ao encontrar a bela pastora Marcela, mas que ao tentar segui-la a perdem em meio ao imenso bosque de empresas modernas e bem estruturadas. O encontro com Marcela é um acaso raro que dá a nosso herói e nosso empresário, apenas o unguento para reconfortar suas feridas.
O que quero dizer com todas essas comparações, é que é preciso se situar no tempo, saber que velhas armaduras, velhas lojas, já não servem mais para a luta diária, não com inimigos imaginários, mas com concorrentes modernos e atualizados.
O mundo muda muito rapidamente, as armas se renovam, a concorrência é ferrenha e, quando menos espera, você pode se deparar com imenso “moinho de vento”, concorrente, instalado a seu lado.
Sua amada Dulcinéia del Tomboso (sua loja sonhada) só existe na sua imaginação. Ou muda ou... leia Dom Quixote para saber o fim.
Pense nisso
e bons negócios pra nós.




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