EDUCAÇÃO, EDUCAÇÃO, EDUCAÇÃO
- Carlos A. Buckmann
- 7 de jul. de 2025
- 5 min de leitura

EDUCAÇÃO, EDUCAÇÃO E EDUCAÇÃO
Se há uma marca que distingue os povos que florescem dos que fenecem, essa marca é o cuidado com a educação. A história das civilizações não se escreve apenas com espadas e tratados, mas sobretudo com lápis, cadernos e mestres. Quando a Grécia antiga cunhou o ideal da Paidéia, ela não falava apenas de formar bons cidadãos, mas de moldar o espírito humano na razão, na estética e na ética. Sócrates, que jamais escreveu uma linha, ensinava nas praças com perguntas que perfuravam as certezas como lâminas finas de pensamento.
Séculos depois, o Iluminismo retomou essa tocha acesa. Rousseau, em Emílio, insistia que o homem nasce bom, mas é a educação que o faz cidadão. Kant, em suas meditações, clamava que a educação é o caminho para a autonomia, aquele misterioso ponto onde o homem deixa de ser um autômato da tradição e passa a guiar-se pela razão. Herder e Pestalozzi ergueram pedagogias que viam a criança como um projeto de humanidade em construção.
E não é mera filosofia. É estatística, é planejamento, é geopolítica. O Japão, após a hecatombe da Segunda Guerra Mundial, estava em ruínas , literalmente, física e moralmente. O que fez? Investiu em professores. Em menos de uma geração, tornou-se potência tecnológica. Os “Tigres Asiáticos”, Coreia do Sul, Taiwan, Singapura e Hong Kong, seguiram a mesma cartilha: educação básica universal, formação docente rigorosa, meritocracia escolar e planejamento de longo prazo. Hoje, a Coreia do Sul exibe mais de 96% de escolarização na faixa de 25 a 34 anos; o Japão, 85%; Singapura, 89%. Enquanto isso, países europeus como Finlândia, Dinamarca e Alemanha mantêm índices similares ou superiores, todos sustentados por um projeto de nação centrado na sala de aula.
E foi nesse mesmo espírito que, em 1996, Tony Blair, então primeiro-ministro da Inglaterra, ao ser inquirido sobre as prioridades de seu governo trabalhista, respondeu com a ênfase de quem carrega o futuro nos ombros: “Educação, educação e educação.” Não foi retórica. Foi programa de governo. Ele sabia que, sem escolas sólidas, mestres bem pagos e currículo inteligente, não há produtividade, não há coesão social, não há inovação; há apenas precariedade no presente e um futuro cancelado.
Blair promoveu reformas estruturais no sistema educacional britânico: metas nacionais de desempenho, ampliação da educação infantil, incentivos à formação continuada dos professores e valorização do ensino técnico. A Grã-Bretanha, que enfrentava décadas de estagnação e desigualdade, começou a ver sinais de renascimento social e cultural. Não por milagre, mas por método, o método da educação.
E o que nos dizem os pensadores modernos? Paulo Freire defendia que “educação não transforma o mundo. Educação muda as pessoas. Pessoas transformam o mundo.” Já Amartya Sen, Prêmio Nobel de Economia, afirma que o desenvolvimento é liberdade, e liberdade só existe quando há acesso ao conhecimento. Thomas Piketty, em O Capital no Século XXI, aponta a educação como o motor que reduz as desigualdades estruturais, reequilibra oportunidades e gera crescimento sustentável.
A educação é o ventre onde se gestam os direitos civis, as liberdades democráticas e as conquistas econômicas. Ninguém pode pagar uma dívida histórica com analfabetos funcionais. Nenhuma pátria progride na ignorância. O saber é o novo petróleo e, felizmente, não polui.
Mas, convenhamos, nem tudo são dados e doutrinas. A educação também tem seu lado tragicômico. Certa vez, ao visitar uma escola, um ministro perguntou a um aluno:
— Qual é a sua matéria favorita?
— O recreio, senhor.
Pois é... até para gostar do recreio, é preciso ir à escola.
E, se me perguntarem quais são as três prioridades para qualquer governo, qualquer empresa ou mesmo para o futuro da humanidade, eu lhes direi com a mesma ênfase de Blair e com uma piscadela filosófica:Educação, educação e... talvez um bom café para acompanhar.
Mas preciso incluir
UM APÊNDICE CRÍTICO:
AS OLIGARQUIAS CONTRA O LÁPIS
Se a educação é o instrumento maior de emancipação, não nos surpreende que haja quem a tema. A história revela, com uma constância melancólica, que as oligarquias, políticas, econômicas e até religiosas, têm preferido um povo obediente a um povo pensante, um povo resignado a um povo crítico. Afinal, ensinar a ler é oferecer não apenas palavras, mas armas simbólicas; é entregar ao oprimido a chave que destranca os grilhões da ignorância fabricada.
As oligarquias, como os antigos senhores feudais, sabem que um camponês que aprende a ler pode deixar de aceitar que sua fome é vontade de Deus. Pode começar a desconfiar que os privilégios de poucos não são designações divinas, mas construções humanas, passíveis de reforma ou revolução. E esse risco, o da consciência, elas não estão dispostas a correr.
Por isso, sabotam a educação libertária em sua raiz: sucateiam escolas, achatam salários de professores, ridicularizam intelectuais, burocratizam o ensino até torná-lo uma caricatura de si mesmo. Substituem filosofia por apostilas, pensamento por memorização, diálogo por obediência cega. Insistem que o pobre precisa apenas "aprender a trabalhar", como se o trabalho sem reflexão fosse caminho de libertação. Educam para a obediência, não para a autonomia.
Essa sabotagem, longe de ser acidental, é estratégica. O povo que lê, escreve e argumenta, começa a votar com consciência, a exigir justiça fiscal, a contestar monopólios, a desconfiar das promessas messiânicas. Começa a perceber que "mérito" muitas vezes é apenas herança disfarçada de esforço, e que a escada da ascensão social foi serrada pelas mãos daqueles que hoje discursam sobre meritocracia.
O filósofo Antonio Gramsci já advertia: toda dominação se mantém não apenas pela força, mas pelo consentimento forjado culturalmente. E esse consentimento se fabrica, ou se destrói, nas salas de aula. Rousseau, ainda no século XVIII, alertava que “o homem nasce livre, mas por toda parte encontra-se acorrentado”; o primeiro golpe nas correntes, afirmava ele, é dado pelo bom mestre.
E o que fazem, então, as oligarquias modernas? Financiam escolas privadas de elite e condenam o restante do povo ao ensino precário. Transformam universidades em produtos de luxo. Rejeitam orçamentos para educação básica, mas não hesitam em aprovar subsídios bilionários para bancos. E, como cereja do cinismo, ainda posam de defensores da liberdade, desde que não se trate da liberdade de pensar. Ora, isso não é governo, é feitoria. Não é projeto de nação, é projeto de manutenção de castas.
Mas nem tudo está perdido. Toda vez que um jovem pobre entra numa biblioteca, uma muralha treme. Toda vez que uma professora insiste em ensinar filosofia a adolescentes desmotivados, um pilar do poder cego vacila. Cada criança que descobre a leitura é uma semente de revolução plantada silenciosamente no seio da sociedade.
E se, ao fim dessa reflexão, alguém ainda perguntar por que as oligarquias temem tanto a educação, a resposta é simples e cortante como um aforismo:
Porque o saber não aceita coleira.E cão que pensa não late para o dono.
Beto Buckmann
Crônicas entre ideias e pólvora




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