E O QUE É A VIDA?
- Carlos A. Buckmann
- 20 de mai.
- 4 min de leitura

E O QUE É A VIDA? (*)
(Da série A FILOSOFIA NA MPB)
Escolher uma única canção de Gonzaguinha para extrair filosofia é como tentar apanhar o mar com uma peneira. Cada verso é um afluente, cada estribilho, uma cachoeira.
Ele foi poeta, sim, mas poeta no sentido grego: o que faz, o que cria, o que dá forma ao espanto. E como todo filósofo de fato, Gonzaguinha não respondeu às perguntas, ele as cantou para que dançássemos sobre o abismo.
Então, deixo a indecisão de lado. Fico com "O que é o que é". Não a mais famosa, mas a mais pergunta.
"Viver / E não ter a vergonha / De ser feliz"
Comecemos pelo escândalo. A vergonha de ser feliz.
Quantos, ao longo do dia, sentem exatamente isso? O operário que ri no almoço e logo se cala, lembrando da dívida. A mãe que sorri com o filho e depois se culpa porque o mundo está em guerra.
A felicidade, na modernidade, tornou-se suspeita.
Nietzsche já denunciava o cristianismo da culpa, mas nós inventamos outras culpas: a culpa social, a culpa da consciência política, a culpa de estar bem quando outro está mal. Gonzaguinha, com a coragem dos que não têm vergonha, declara: viver é isso. Não a alegria ingênua, mas a alegria assumida, sem pedir licença.
"Cantar e cantar e cantar / A beleza de ser / Um eterno aprendiz"
A repetição, "cantar e cantar e cantar", não é ruído. É rito. É a insistência do aprendiz que não se forma nunca.
Sócrates sabia: a sabedoria está em saber que nada se sabe. Gonzaguinha musicou a maiêutica. Ser eterno aprendiz é aceitar que a verdade não se conquista, se persegue.
Olho para os meus próprios erros, para as lições que julgava aprendidas e que precisam ser revisitadas. A vida é uma escola sem fim, e o sino toca toda manhã. Cantar, então, não é performance; é método. É o modo de dizer: estou aqui, ainda não sei, mas já canto.
"Eu sei, eu sei / Que a vida devia ser / Bem melhor e será / Mas isso não impede / Que eu repita / É bonita, é bonita / E é bonita"
Albert Camus, diante do absurdo, propôs a revolta que não elimina a dor, mas a transmuta em dignidade. Gonzaguinha faz o mesmo: a vida devia ser melhor, constatação lúcida da crueldade. E será, aposta quase profética. Mas o presente, esse presente imperfeito, já contém a beleza.
Eu testemunho todos os dias, a crueldade: o despejo, a fila do osso, o jovem baleado por engano. E testemunho também a beleza: o abraço na fila, o pagode na laje, a criança que oferece o brinquedo quebrado. Gonzaguinha não nega a primeira para afirmar a segunda. Ele as abraça juntas. E repete: é bonita. Não apesar, mas com.
"E a vida / E a vida o que é? / Diga lá, meu irmão / Ela é a batida de um coração / Ela é uma doce ilusão"
A pergunta central, que ecoa desde Eclesiastes até Heidegger. O que é a vida?
Gonzaguinha não responde com conceitos, mas com imagens: batida de coração (ritmo, repetição, risco da parada), doce ilusão (o que engana, mas também o que embala).
O filósofo Merleau-Ponty diria que a vida não é um objeto diante de nós, mas o próprio ato de perceber. Ela é o que acontece enquanto perguntamos o que é. Ao andar pela rua, vejo as respostas encarnadas: o casal que briga e se beija, o velho que alimenta pombos, a menina que chora por um doce. Cada um dando sua definição com o corpo.
"Há quem fale / Que a vida da gente / É um nada no mundo / É uma gota, é um tempo / Que nem dá um segundo"
O niilismo, sempre à espreita. O discurso do "nada" é velho conhecido. Da vaidade bíblica ao pessimismo schopenhaueriano, há sempre quem reduza a vida a insignificância cósmica.
Gonzaguinha ouve, respeita, e então contrapõe. Ele não nega a pequenez. Uma gota, um segundo, sim, talvez. Mas uma gota que molha, um segundo que faz diferença. Penso nas vidas que a história não registra, nas mortes que não viram notícia. São gotas. Mas a sede do mundo é feita de gotas.
"Somos nós que fazemos a vida / Como der, ou puder, ou quiser / Sempre desejada / Por mais que esteja errada"
Sartre: o homem está condenado a ser livre. Nós fazemos a vida, não os astros, não o destino, não o governo. Como der (a contingência), ou puder (os limites), ou quiser (o desejo). Vejo, na continuidade dos dias, a mesma encruzilhada: o desempregado que começa um negócio com o que tem; a mulher que recomeça após uma violência; o estudante que insiste na escola apesar da fome.
Eles fazem a vida. Erram, acertam, desejam. Por mais que esteja errada, e muitas vezes está, a vida é desejada. Ninguém, no fundo, quer a morte. Só saúde e sorte. A pergunta roda, a cabeça agita.
"Eu fico com a pureza / Da resposta das crianças / É a vida, é bonita / E é bonita
A pureza não é ignorância; é anterioridade ao cinismo. A criança não teoriza sobre a vida: ela a vive e, quando perguntada, responde com os olhos.
Gonzaguinha, filósofo da MPB, escolhe esse lugar. Não o saber acumulado, não a erudição amarga. A resposta das crianças: é bonita.
Recordo da dificuldade inicial, como escolher uma música de Gonzaguinha? Agora entendo: qualquer uma levaria ao mesmo ponto.
Todas perguntam, todas sangram, todas apontam para a ferida e para a rosa que cresce nela.
Gonzaguinha não está no panteão dos filósofos de academia, mas sua obra é uma aula andante sobre o que importa. A beleza e a crueldade da vida não são opostas; são a tesoura que corta o tecido dos dias.
Este cronista, que já viu despejos e tratores, que já ouviu sangramentos e entregas, agora ouve esta pergunta giratória: o que é a vida?
Com a voz embargada, como a criança: é bonita.
E repete, como Gonzaguinha: é bonita.
E caminha para a rua, onde a vida, suja, linda, cruel, pura, continua a ser feita.
Como der.
Como puder.
Como quiser.
(*) Assista o clip no YouTube:




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