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E DECLAROU NIETZSCHE: “DEUS ESTÁ MORTO”

  • Carlos A. Buckmann
  • 29 de jul. de 2025
  • 2 min de leitura

E DECLAROU NIETZSCHE: “DEUS ESTÁ MORTO”

            Ao despertar, carrego no peito o eco daquela sentença tão forte quanto um trovão calado: “Deus está morto”. Sento-me à beira da minha própria alma e tento sentir o que resta quando o maior dos valores despenca no solo seco do mundo real. Não busco resposta imediata, mas permito que o abismo que abre dentro de mim faça do silêncio o seu primeiro discurso.

            Quando Nietzsche pronunciou a morte de Deus, não celebrou vitória nem clamou anarquia. Ele mostrou que a crença num ente transcendente era, ao mesmo tempo, sustentáculo e grilhão para o homem. Eu percebo, em cada passo que dou fora do templo da fé, a liberdade e o medo caminhando lado a lado: liberdade para inventar meus próprios valores, medo, não de “um castigo divino”, mas de não encontrar sentido algum.

            Encontro, então, duas paisagens: o mundo real, feito de pedra e suor, onde a vida pulsa com urgência e dor; e o mundo “superior”, forjado pela tradição religiosa, onde a promessa de imortalidade e justiça infinita paira como nuvem ao longe. Anelei ao sublime, àquela esfera acima das nuvens, porque ela oferecia refúgio ao caos terreno. Mas a mesma esfera se revelou prisão de ideias alheias, corroendo o poder que eu tinha de criar meu próprio horizonte.

            O passo seguinte foi descobrir o niilismo, essa angústia de ver todo valor ruir, de encarar o vazio que surge após o colapso do divino. Não é, contudo, um fim dramático, mas um convite à transmutação. Nietzsche, em sua coragem tremenda, abraçou o niilismo como um estágio de purificação: primeiro negamos tudo, depois aprendemos a dizer “sim” à vida que resta, com todos os seus abismos e clarões.

            O niilismo contemporâneo não se apresenta como uma filosofia erudita restrita aos livros: ele pulsa no cotidiano, nas relações sociais, na cultura e até na vida interior de cada indivíduo.

            A crise de sentido está no cerne dessa manifestação. Vivemos num ambiente de hiperconectividade e excesso de informação, em que a busca por propósito se esbarra num vazio inexplicável. Milhões de pessoas relatam sensação de superficialidade, apatia e falta de um norte existencial, mesmo rodeadas de estímulos e “possibilidades infinitas” de escolha.

            Sigo, portanto, na senda do espírito livre, consciente de que não existe mais uma moral dada de cima para baixo. O homem já não espera leis inscritas no Éden (os neopentecostais à parte); hoje, ele precisa gravar seus valores na pedra viva do cotidiano. É um desafio vertiginoso: ser juiz e réu de si mesmo, erigir castelos de sentido sobre o chão escorregadio do acaso.

            E, nesse ato criador, encontro a grandeza de Nietzsche. Ele não apenas constatou a morte de Deus, mas nos legou a tarefa suprema: tornar-nos Übermensch (o Super Homem), ultrapassar-nos incessantemente, erguendo uma obra de vida que celebre o mundo real em toda a sua brutal beleza. Se o divino se extinguiu, resta a arte do existir, e, com ela, a promessa de um futuro em que nossas vontades mais profundas se façam novas estrelas no céu que acreditávamos vazio.

Beto Buckmann

Crônicas entre ideias e pólvora

 

 

 

 
 
 

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