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DRÃO: A AGRONOMIA DO AMOR

  • Carlos A. Buckmann
  • 9 de jun.
  • 5 min de leitura

DRÃO: A AGRONOMIA DO AMOR (*)

(Da série A FILOSOFIA NA MPB)

            As letras de Gilberto Gil são tão profundas quanto inteligentes. Ele não compõe apenas melodias, ele planta ideias.

            Em cada verso, há uma raiz que desce até o subsolo da filosofia e um ramo que floresce em forma de canção. Poucos artistas na MPB conseguiram, como ele, falar de amor sem pieguice, de morte sem desespero, de religião sem dogma. Gil é um pensador que usa o violão como pena. E “Drão” é talvez sua obra-prima nesse cultivo lírico: uma elegia que vira celebração, uma despedida que anuncia renascimento.

            Gilberto Gil nasceu em Salvador, em 1942. Foi engenheiro desistente, exilado político, ministro da Cultura, e acima de tudo um tropicalista que nunca perdeu a ternura. “Drão” foi composta para o álbum Refavela. A inspiração foi a separação de Sandra Gadelha, sua terceira esposa e mãe de três de seus filhos: Preta Gil, Maria e Pedro. A canção foi composta logo após o fim do casamento, e transformou uma experiência dolorosa em uma reflexão poética sobre o amor, a separação e a continuidade dos laços afetivos.

            O título da música vem de um apelido dado a Sandra por Maria Bethânia. "Drão" era uma forma carinhosa derivada de "Sandrão", usada no círculo íntimo da família e dos amigos.

            Se a filosofia ocidental muitas vezes pensou o amor como falta (Platão) ou como vontade de poder (Nietzsche), Gil o pensa como grão. E um grão, para germinar, precisa morrer. Essa metáfora não é apenas poética, é ontológica. A MPB, quando filosofa, não separa o coração do campo. Ela sabe que as leis da natureza também regem os afetos.

            “Drão, o amor da gente é como um grão / Uma semente de ilusão / Tem que morrer pra germinar”

            O devir é um constante morrer e nascer. Gil radicaliza: o amor tem que morrer. Não por acaso, mas por necessidade biológica. A “ilusão” aqui não é engano, é potência. A semente ilude porque parece morta quando está apenas dormente.

            Quantas relações terminam e julgamos fracasso, quando na verdade eram apenas sementes aguardando outro solo?

            “Plantar n'algum lugar / Ressuscitar no chão, nossa semeadura”

            A ressurreição não é apenas cristã, é agrícola. Gil dessacraliza o milagre: o que ressuscita não é um corpo glorioso, mas uma planta que brota do apodrecido. Sentido do amor que se adia para o futuro da colheita. “Nossa semeadura” é uma propriedade compartilhada: o amor que morreu era dos dois; o que nascerá também será. Não há apropriação individual. A filosofia da MPB é uma filosofia do comum.

            “Quem poderá fazer aquele amor morrer / Nossa caminhadura / Dura caminhada pela estrada escura”

            Ninguém pode fazer o amor morrer, porque o amor não se mata, ele se transforma. A “caminhadura”, o trocadilho de uma caminhada dura e uma caminha dura, é o leito onde o amor resistiu, mesmo desconfortável. O amor não fracassa, apenas muda de fase. A “estrada escura” é a vida sem garantias. Mas caminhar no escuro junto com o outro, mesmo que o outro já não esteja, é ainda um ato de amor.

            “Drão, não pense na separação / Não despedace o coração / O verdadeiro amor é vão”

            “Não despedace”, verbo violento, pois o coração já está em frangalhos. E então a afirmação mais ousada: “o verdadeiro amor é vão”.

            Vão no sentido de vazio, de espaço aberto, de ausência de obstáculo. Vão como o vão da escada de Noel: lugar de moradia. Vão como o que não prende. O verdadeiro amor não aprisiona, não exige reciprocidade, não cobra.

            “estende-se infinito / Imenso monolito, nossa arquitetura”

            O infinito e o monolito: paradoxo aparente. O monolito é uma pedra única, finita, sólida. O infinito é sem bordas.

            Como pode o amor ser ambos?

            Porque o amor verdadeiro, mesmo tendo contornos (um corpo, um tempo, um lugar), se estende além deles. É como o monumento que aponta para o céu. Gil constrói uma arquitetura do sentimento que não desaba porque não tem fundação frágil. Sua fundação é o próprio movimento.

            “Quem poderá fazer aquele amor morrer / Nossa caminha dura / Cama de tatame, pela vida afora”

            A “cama de tatame” remete ao Japão, à dureza, à disciplina. O amor que sobrevive em tatame não é o amor confortável da poltrona. É o amor que acorda com o corpo dolorido, mas agradece.

            Gil diz que a cama certa é dura. Pois a maciez muitas vezes embala a indiferença. A “vida afora” é a estrada sem fim e nela, o amor que já morreu e renasceu tantas vezes que já nem se lembra de sua primeira morte.

            “Drão, os meninos são todos sãos / Os pecados são todos meus”

            Os meninos, os filhos, todos sãos. A culpa é do adulto, do eu lírico. Agostinho, nas “Confissões”, assumiu seus pecados para encontrar a graça. Gil, mais modesto, não pede perdão, apenas assume.

            “Os pecados são todos meus” é uma frase de uma lucidez rara: o outro não tem culpa. A separação não teve vilão. Houve apenas a morte necessária do grão.

            “Deus sabe a minha confissão, não há o que perdoar / Por isso mesmo é que há de haver mais compaixão”

            Se não há o que perdoar, por que compaixão?

            Porque a compaixão não é consequência do erro, mas condição da existência. Gil vê a compaixão como o solo onde o “grão amor” pode renascer. Deus sabe a confissão, mas não como juiz, como testemunha. O que há é apenas o gesto de inclinar-se sobre a fragilidade alheia. E nesse gesto, o amor que morreu vira amor que entende. Compaixão não é pena. É reconhecer que todos estamos na mesma estrada escura.

            “Se o amor é como um grão / Morre, nasce, trigo / Vive, morre, pão”

            A tríade final é uma síntese filosófica em três palavras. Grão-morrer, trigo-nascer, pão-viver.

            O pão, porém, também morre (se come, se digere, se transforma em energia). O ciclo não termina.

            Gil não oferece uma resolução, oferece um ritmo. O amor não é um estado, é um processo. Não se ama alguém para sempre; ama-se alguém em ciclos, em idas e vindas, em mortes e ressurreições. E o pão, alimento cotidiano, é a prova de que a morte do amor alimenta a vida do próximo amor. Não há desperdício no universo.

            “Drão”

            A última palavra é o nome. Não um conceito, não uma explicação, um chamado.

            O poema termina como começou: interpelando uma amizade.

            Filosofia sem amigo é erudição vazia. Gil sabia que pensar o amor é menos importante que consolar quem sofre.

            Consolar não é dar respostas, é dizer:

            “Drão, o amor morreu, mas ele era um grão. Plante-o em algum lugar. Espere a colheita.”

            As letras de Gilberto Gil são profundas e inteligentes porque não fogem da dor; a atravessam como um grão atravessa a terra.

            Baiano de terras férteis, engenheiro que desistiu das fórmulas, ministro que aprendeu com o povo, nos deixou essa lição: o amor não acaba. Ele apenas vira outra coisa.

            A separação não é o fim, é a preparação do solo. E a saudade, essa dor tão doída, é apenas a casca que protege a semente.

            Drão, seja quem for, não despedace o coração. O verdadeiro amor é vão.

            É nesse vão que ele se estende infinito. Como um grão. Como um pão.

            Como a vida.

(*) Assista o clipe no YouTube:

 
 
 

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