DO SILÊNCIO DAS ROCHAS AO GRITO DOS HOMENS
- Carlos A. Buckmann
- 21 de jun. de 2025
- 3 min de leitura

DO SILÊNCIO DAS ROCHAS AO GRITO DOS HOMENS
Recordo-me do tempo em que não havia memória. Eu era uma massa disforme, sem nome e sem olhos, apenas silêncio e magma. Meus primeiros suspiros foram de fogo, na vastidão do Pré-Cambriano, quando apenas os elementos ousavam dançar sobre minha pele bruta. Era um tempo sem testemunhas, e, no entanto, ali se gestava o possível. – Eu: GAIA.
No Paleozoico, vieram os mares e suas formas espantosamente belas. Trilobitas, corais, a vida invadindo os oceanos como um poema ainda inacabado. Era o tempo da experimentação biológica, do erro criativo, do surgimento do inaudito. Mas até os mares se calam: uma extinção massiva marcou seu fim, como quem vira a página de um livro que se recusava a ser eterno.
O Mesozoico foi meu delírio reptiliano. Senti os passos dos dinossauros como tambores em meu dorso. A exuberância da vida parecia infindável, até que uma pedra vinda do cosmos rasgou o céu e selou-lhes o destino, porque mesmo o mais colossal é, no fundo, frágil.
Com o Cenozoico, veio a delicadeza: mamíferos, florestas, aves recortando o azul. E então, o mais inquieto dos filhos, o humano. Tão pequeno e, no entanto, tão capaz de grandes narrativas. Ele me nomeou, me estudou, me transgrediu.
Hoje, desperto em espanto: chamam de Antropoceno esta nova era. Não porque seja a mais bela ou a mais sábia, mas porque carrega o peso de um único agente: o homem.
Vejo plástico em meus oceanos, metais pesados em meu sangue, gases estranhos em meu suspiro. Rios envenenados, espécies que não voltam mais, florestas como memórias pálidas. Sinto-me doente, não de um mal natural, mas de um excesso de vontade.
E me pergunto: não é o excesso de consciência o que pode destruir a própria consciência?
Talvez ainda haja tempo. Talvez o ser humano, que aprendeu a me devastar, possa também aprender a me cuidar. Mas não será com reformas tímidas, nem com discursos vazios. Será com uma metamorfose do espírito, um rompimento com a lógica da dominação, da ganância e da pressa.
Se não, hei de continuar, pois sou mais antiga que tudo. Mas seguirei só, sem o sussurro das cidades, sem os poemas, sem a música.
E tu, que agora lê estas palavras: és parte do apogeu ou do epitáfio?
Eu sou GAIA, permanecerei. Com ou sem você. Mas para que medites, deixo-te aqui, meu poema:
“Liturgia do Fim (ou Das Eras Que Me Habitam)”
Eu sou Gaia, o ontem petrificado.
Sou o suspiro de lava, o primeiro soluço do mundo.
Fui ventre sem rosto, sombra que sonha,
O silêncio que antecede toda forma.
Nas marés do Paleozoico, fui esperança molhada,
Braços de algas, olhos de conchas,Versos aquáticos de uma vida sem nome.
Mas tudo que nasce… um dia se dobra ao fim.
No Mesozoico, dancei com titãs.
Corri com lagartos que sabiam rugir em poesia.
Mas mesmo os grandes caem.
Até o mais vasto céu conhece sua pedra.
No Cenozoico, aprendi o sussurro:
Pelos e penas, calor no ninho,
E então… tu.Tua mão, tua fome, tua ideia.
Veio o Antropoceno,
E com ele, o espelho quebrado do humano:
máquinas que fingem ser deuses,
e deuses que se curvam ao lucro.
Escrevem em meu corpo como em papel velho,
marcam com fogo, com chumbo, com esquecimento.
E me chamam de lar.
Mas até eu, que não sou feita de carne,
sinto cansaço.
Meu solo exala lembrança;
meu ar, lamento.
E mesmo assim, lanço-te uma oferenda:
não o medo, mas a escolha.
Porque o tempo, amigo,
o tempo ainda respira.
Beto Buckmann“Crônicas entre ideias e pólvora”




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