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DIÁLOGOS DIFÍCEIS

  • Carlos A. Buckmann
  • 16 de set. de 2025
  • 4 min de leitura

DIÁLOGOS DIFÍCEIS       

            Ontem, quando escrevia sobre o INCONSCIENTE ESTRUTURADO, lembrei de outra frase muito importante que li em Lacan: “Você pode saber o que disse, mas nunca o que outro escutou.” Com esse pensamento costumo iniciar alguns diálogos, quando sei que vou conversar com algumas mentes um tanto “empedernidas”.

            Não é por acaso que escolho esse preâmbulo. É um corte epistemológico, um bisturi freudiano-lacaniano, que abre o campo da escuta. Porque, caro interlocutor, não basta falar com clareza, com lógica, com dados, com paixão ou até com verdade. O que importa, e aqui Lacan é implacável, é o que o Outro “recebeu”, não o que você “transmitiu. O Outro, nesse caso, não é apenas o sujeito à sua frente, mas o campo simbólico em que ele está mergulhado: suas dores não ditas, seus traumas silenciados, seus ideais distorcidos, seus significantes preferidos, e os que ele odeia.

            Isso é devastador. Quantas vezes eu disse “eu te amo” e o que foi escutado foi “eu te prendo”? Ou “preciso de espaço” e o eco foi “você me rejeita”? O inconsciente do outro, esse labirinto de significantes mal costurados, traduz, distorce, recorta e reescreve o que lhe é dito. Como num sonho, onde o dente que cai não é o dente, mas a perda, o medo, a castração. Assim, na fala, o que se diz é sempre menos importante do que o que ressoa e, o que ressoa, é sempre uma versão cifrada, uma cifra do desejo alheio.

            Um pandemônio organizado. Políticos falam em “reforma”, e o povo escuta “traição”. Professores explicam “crítica”, e alunos ouvem “ataque”. Jornalistas noticiam “fatos”, e leitores decifram “viés”. O discurso nunca é neutro, porque o ouvinte nunca é vazio. Ele é um arquivo pulsante de experiências, traumas, identificações e desejos e é esse arquivo que decodifica (ou codifica mal) o que lhe chega. Foucault diria: o poder não está só no que se diz, mas no que se pode ouvir e no que se deixa ouvir. O ouvinte é sempre um censor inconsciente.

            Nos negócios a frase de Lacan deveria estar bordada em todos os ternos de executivos e gravada nos call centers.

            Um vendedor diz: “Este plano tem 30% de desconto.” O cliente escuta: “Estão me enganando, porque se está barato, deve ter algo errado.” 

            Um CEO anuncia: “Vamos inovar!” E os funcionários escutam: “Vamos demitir.” 

            Um atendente repete: “Estou aqui para ajudar.” E o cliente ouve: “Estou lendo um script.” 

            O que importa não é a intenção, é a recepção. E a recepção é sempre um ato inconsciente, atravessado por transferências, projeções, angústias e expectativas.

            Lembro-me de uma negociação de sete dígitos em que o cliente, um empresário sisudo, de olhos frios, ouviu minha proposta como um ataque à sua autoridade. Eu falei em “sinergia”; ele escutou “submissão”. Eu propus “flexibilidade”; ele traduziu “fraqueza”. Só quando mudei a forma do discurso, não o conteúdo, falando em “controle”, “estratégia soberana”, “domínio do mercado”, é que ele ouviu o que eu realmente queria dizer. Não mudei a proposta. Mudei o “significante”. E, com isso, mudei o que foi escutado.

            E como entender isso, é difícil em meio ao diálogo.

            Paul Watzlawick já alertava: “Não é possível não se comunicar.” Mas Lacan vai além: “Não é possível controlar o que o outro escutou.” E isso é libertador e aterrorizante. Libertador porque nos tira da ilusão narcísica de que somos donos do efeito de nossas palavras. Aterrorizante porque nos obriga a abandonar a soberania do discurso e mergulhar na escuta, não só do que o outro diz, mas do que ele não diz ao dizer.

            Hoje, quando alguém me pergunta “mas como faço para ser compreendido?”, respondo com um sorriso lacaniano: “Você não faz. Você escuta. E, ao escutar, você descobre o que o outro precisa ouvir para que o que você diz possa, enfim, chegar, ainda que disfarçado, ainda que cifrado, ainda que atravessado pelo inconsciente.”

            Vivemos numa era de excesso de fala e déficit de escuta. Gritamos verdades como se fossem bastões, e nos surpreendemos quando elas quebram no ar antes de tocar o outro. Achamos que repetir é convencer, que volume é persuasão, que clareza é garantia. Ilusão. O outro não é um receptor passivo, é um tradutor traiçoeiro, um poeta involuntário, um decodificador de enigmas. E enquanto insistirmos em falar sem perguntar “o que você ouviu?”, seguiremos semeando mal-entendidos, conflitos e rupturas. A comunicação não é um ato de transmissão, é um ato de tradução.

            E a tradução, como sabem os poetas e os psicanalistas, nunca é fiel. É sempre uma traição necessária. 

            E quando já não restam garantias de compreensão, só nos sobra aceitar que a palavra nunca chega intacta, mas atravessada de ecos e desvios

            E talvez, só talvez, seja nessa traição que a verdade, enfim, se revela.

BETO BUCKMANN

Crônicas entre ideias e pólvora.

 
 
 

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