DIZER OU NÃO DIZER?
- Carlos A. Buckmann
- 15 de out. de 2025
- 4 min de leitura

DIZER OU NÃO DIZER?
Confesso: tirei do contexto uma frase de Umberto Eco. Não por desrespeito, mas por necessidade. Ela me escapou do livro como um segredo sussurrado entre páginas e se alojou na minha vida cotidiana. A frase é esta: “Nem todas as verdades são para todos os ouvidos.”
No romance O Nome da Rosa, Eco a coloca na boca de um monge medieval, em meio a uma trama de heresias, censura e labirintos simbólicos. Mas eu a desprendi do claustro, do século XIV, do manuscrito envenenado, e a trouxe para o escritório, para a sala de reuniões, para o jantar de família, para o silêncio incômodo antes de uma demissão. Porque, embora Eco tenha escrito uma alegoria sobre o poder do conhecimento e os perigos da verdade absoluta, essa pequena sentença ecoa muito além da ficção: é um princípio ético disfarçado de prudência.
Umberto Eco (1932–2016) foi muito mais que um romancista. Foi semiólogo, filósofo, medievalista, ensaísta incansável, um homem que via o mundo como uma teia de signos, onde o sentido nunca é fixo, mas negociado.
“O Nome da Rosa”, seu romance mais célebre, publicado em 1980, é ao mesmo tempo um thriller monástico e uma meditação sobre os limites da linguagem, a violência da ortodoxia e a sedução do segredo. Nele, a verdade não é um tesouro a ser exibido, mas um fogo que, mal manejado, queima quem o carrega e quem o ouve. E é justamente isso que me interessa: a verdade não é apenas o que é, mas como, quando e a quem se diz.
Quantas vezes calamos uma verdade para proteger alguém? Não por hipocrisia, mas por amor.
Dizer a um amigo que sua paixão é correspondida por interesse, ou revelar a um filho que seu ídolo tem pés de barro, essas verdades, por mais factuais, podem destruir sem construir.
Aristóteles, na “Ética a Nicômaco”, já ensinava que a virtude está no meio-termo e que a franqueza, sem prudência, vira crueldade.
Blaise Pascal foi ainda mais incisivo:
“A verdade é tão delicada que quase sempre é mais conveniente não dizer toda ela.”
Na sociedade, o dilema se agrava.
Vivemos numa era que idolatra a “transparência total”, como se a verdade fosse sempre libertadora. Mas basta lembrar dos vazamentos de dados, das redes sociais transformadas em tribunais de intenções, para ver que a exposição irrestrita gera mais caos que clareza.
Michel Foucault mostrou, em “A Ordem do Discurso”, que todo discurso é poder, e que, revelar certas verdades em certos contextos, é exercer violência simbólica. A verdade, longe de ser neutra, é sempre situada, política e perigosa.
No universo dos negócios, então, a máxima ganha contornos dramáticos.
Um CEO que anuncia, sem filtro, que a empresa está à beira da falência, pode provocar pânico, fuga de talentos, colapso de confiança, mesmo que esteja dizendo a verdade. Já vi líderes sábios optarem por uma “verdade gradual”: compartilharam os riscos com o conselho, depois com a liderança, e só então com a equipe, sempre aliando diagnóstico à proposta de ação. Isso não é mentira. É ética da responsabilidade, como diria Max Weber: “agir não apenas com convicção, mas com consciência das consequências.”
E o mercado está cheio de exemplos que confirmam o mestre Weber.
Em 2009, durante a crise financeira, o CEO da Ford, Alan Mulally, enfrentou uma verdade brutal: a empresa queimava US$ 20 bilhões por ano. Em vez de anunciar o desastre em tom apocalíptico, ele reuniu executivos, expôs os números com clareza, mas também com um plano. Disse a verdade, sim, mas a moldou como convite à ação, não como sentença de morte. Resultado? A Ford foi a única montadora americana a não pedir socorro ao governo.
Isso não é manipulação. É sabedoria prática. É entender que a verdade não é um martelo, mas uma semente, e sementes precisam do solo certo, do tempo certo, da mão certa para germinar.
Vivemos num tempo em que se confunde brutalidade com honestidade, e silêncio com covardia. Mas a verdadeira coragem não está em dizer tudo, está em discernir o que dizer, a quem, e por quê.
A verdade sem compaixão é ruído. A verdade sem estratégia é autodestruição.
Não se trata de esconder, mas de cuidar. Cuidar da verdade, sim, mas também de quem a receberá. Porque, como bem sabia Eco, o conhecimento não é um direito absoluto; é uma responsabilidade.
Portanto, antes de soltar sua verdade no mundo, pergunte-se: Ela ilumina ou cega? Constrói ou destrói? Liberta ou aprisiona?
Se a resposta for ambígua, e quase sempre será, talvez o melhor não seja calar, mas esperar o momento em que a verdade possa ser ouvida, não apenas ouvida, mas compreendida.
E nisso reside a verdadeira sabedoria: não dizer tudo que se sabe, mas tudo o que o outro pode suportar, para que, um dia, possa saber mais.




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