DESPEJO NA FAVELA
- Carlos A. Buckmann
- 18 de mai.
- 4 min de leitura

DESPEJO NA FAVELA (*)
(Da série A FILOSOFIA NA MPB)
A força da lei, quando se abate sobre os mais desprotegidos, não precisa rugir como um leão.
Ela sussurra em papel selado. É um mandado, um aviso, uma assinatura que vale mais do que os tijolos e a alma de quem os ergueu. E assim, pretos e pobres aprendem, desde sempre, que a ordem superior nunca foi feita para lhes proteger.
Adoniran, poeta do cotidiano, sabia disso. Não cantava revoltas épicas, mas os pequenos grandes dramas da cidade que se verticaliza sobre os barracos. Ele apenas ouvia e compunha. Ao ouvir "Despejo na Favela", percebo que o mundo gira, mas a roda do trator esmaga.
"Quando o oficial de justiça chegou / Lá na favela e, contra seu desejo / Entregou pra seu Narciso / Um aviso, uma ordem de despejo"
O cerne da tragédia burocrática. O oficial, note-se, vem "contra seu desejo". Até ele sente o absurdo, mas a máquina segue.
Foucault me vem à mente: o poder não precisa de violência explícita quando o papel timbrado já carrega a força do Estado. Seu Narciso não é um número. É um nome. Mas a petição o reduz a um obstáculo. A filosofia pergunta: onde está a justiça, se o desejo humano é atropelado por um carimbo?
A resposta é silêncio. Apenas o prazo fatal: dez dias.
"É uma ordem superior / Oh, oh, oh, oh, meu senhor / É uma ordem superior"
A repetição do verso é uma prece ao avesso. "Meu senhor", será Deus? Será o doutor?
No fundo, tanto faz. A ordem superior é anônima e inapelável, como o destino dos antigos.
Espinosa diria que os homens se iludem ao chamar de "vontade divina" o que é pura contingência do poder. A favela inteira se curva ao ronco que ainda não se ouve, mas que já ecoa na sentença.
Eu, cronista, vejo a eterna repetição: hoje é seu Narciso; ontem foi a comunidade do Pinheirinho; amanhã será outra. A ordem superior nunca dorme.
"Não tem nada, não, seu doutor, não tem nada, não / Amanhã mesmo vou deixar meu barracão / Não tem nada, não, seu doutor / Vou sair daqui pra não ouvir o ronco do trator"
A filosofia encontra o estoicismo involuntário dos pobres. Sêneca escreveu que "a pobreza não é pouca coisa, mas a falta de desejo é grande". Seu Narciso não filosofa: ele vive. Diz "não tem nada" para não chorar. A mudança cabe no bolso de trás, como a alma de quem já perdeu tudo antes.
Mas há dignidade nesta abdicação: ele não pede esmola, não apela. Apenas se retira para não ouvir o monstro de metal. É uma sabedoria trágica, dessas que nascem quando se tem pouco a perder. Quem muito acumula, muito teme; quem nada tem, nada o prende. Até que a corda arrebente.
"Pra mim não tem problema / Em qualquer canto me arrumo / De qualquer jeito me ajeito / Depois o que eu tenho é tão pouco / Minha mudança é tão pequena / Que cabe no bolso de trás"
Ora, eis a ilusão da resiliência vendida como virtude. O cronista da cidade vê ali não uma escolha, mas uma sobrevivência.
O filósofo Byung-Chul Han falaria do "sujeito do desempenho" que internaliza a exploração como liberdade. Seu Narciso diz que "se ajeita", mas a pergunta que Adoniran guarda para o fim é a faca. Porque ele se vira, sim. E os outros? A multidão de barracos, de famílias, de crianças que não cabem no bolso de trás?
"Mas essa gente aí, hein, como é que faz? / Mas essa gente aí, hein, como é que faz? / Oh, oh, oh, oh, meu senhor / Essa gente aí como é que faz?"
A música vira filosofia pura. Não é uma resposta, é um espanto. É a pergunta que Hannah Arendt faria sobre a pluralidade humana: o que acontece com aqueles que não têm o privilégio do desapego individual?
O trator não distingue entre o barraco de seu Narciso e o de dona Maria com cinco filhos. A ordem superior é cega, mas a pergunta de Adoniran enxerga.
E repete-se no tempo: nos despejos do centro de São Paulo, nas remoções para as periferias, nos incêndios de ocupações. "Essa gente aí" continua sem resposta. Apenas ecoa o refrão mudo: como é que faz?
E o mundo não aprende. A força da lei, a mesma do início, segue contra os pretos e pobres.
O papel assinado ainda vale mais que a vida. Os doutores continuam a emitir ordens superiores, e os oficiais de justiça, contra seu desejo, entregam avisos.
Adoniran não resolveu. Apenas deixou a pergunta no ar, como uma lanterna acesa na favela prestes a ser derrubada.
A mesma lua que ilumina o arranha-céu banhado a ouro banha também a poeira do barraco condenado.
Mas a lei é feita pelos homens, não pelos astros.
Enquanto houver um "seu Narciso" recebendo um aviso, haverá um poeta para cantar.
Adoniran já se foi, mas sua pergunta permanece de pé, mais resistente do que qualquer parede de tijolo.
Porque a favela, mesmo no chão, vira canção.
E canção, mesmo com trator, não se despeja.
(*) Assista o clip no YouTube




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