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DESAPRENDER PARA SOBREVIVER

  • Carlos A. Buckmann
  • 12 de out. de 2025
  • 4 min de leitura

DESAPRENDER PARA SOBREVIVER

            Há dias, um empresário, gestor  de uma associação que já foi promissora, recusou, pela terceira vez, uma conversa: “Não preciso de ajuda”, disse, com o peito estufado e os olhos desviando dos meus.

            Não era orgulho apenas. Era medo. Medo de admitir que o chão, sob seus pés bem calçados, já rangia. Medo de descobrir que o império que ajudou a construir com as mãos trêmulas da juventude agora se sustenta em areia movediça, e que ele, o arquiteto, não sabe mais desenhar.

            Essa recusa em pedir ajuda não é fraqueza moral, como muitos julgam. É, antes, um sintoma de uma prisão mais sutil: a prisão das ideias antigas.

            Vivemos cercados por certezas que um dia foram úteis, mas que hoje são grilhões. E nada aprisiona mais do que a ilusão de que o passado nos garante o futuro.

            No mundo dos negócios, essa cegueira é epidêmica.

            Empresas em situação de relativo conforto, lucro estável, equipe “leal”, mercado conhecido, fecham as janelas ao vento das mudanças. Preferem o calor abafado da rotina à brisa incômoda da inovação. Confundem “inchaço” com crescimento: mais funcionários, mais escritórios, mais reuniões…, mas menos propósito, menos agilidade, menos alma. Crescem como balões, até que um espinho de realidade os estoure.

            Foi John Maynard Keynes, o economista britânico que revolucionou a compreensão do Estado e da economia no século XX, quem disse, com precisão cirúrgica: 

            “A verdadeira dificuldade não está em aceitar ideias novas, mas escapar das antigas.”

            Keynes não era apenas um teórico dos ciclos econômicos; era um pensador da mudança mental. Formado em Cambridge, influenciado por filósofos como G.E. Moore, ele soube, em plena Grande Depressão, desafiar o dogma liberal clássico que pregava a não intervenção do Estado. Enquanto outros se agarravam às velhas fórmulas como náufragos a destroços, ele propôs algo herético: que o governo deveria gastar para reativar a economia. Foi ridicularizado. Depois, imitado. Hoje, suas ideias estão nos manuais, mas o espírito keynesiano, raramente.

            Esse apego às ideias antigas já foi diagnosticado por muitos. Platão, na “Alegoria da Caverna”, mostrou que os prisioneiros preferem as sombras familiares à luz cegante da verdade. David Hume observou que o hábito é o grande regulador da vida humana, e que dele nascem tanto a estabilidade quanto a estagnação. Thomas Kuhn, no século XX, chamou de “paradigmas” essas estruturas mentais que guiam a ciência e que só cedem diante de crises tão graves que tornam o velho insustentável.

            Mas por que esperar o colapso para mudar?

            Vejo empresários que se apegam a um diploma obtido há trinta anos como se fosse amuleto contra a obsolescência. “Formei-me na melhor escola”, dizem, como se o conhecimento fosse estático, como se o mundo não tivesse acelerado sua rota. Negam-se a ouvir jovens, a testar modelos ágeis, a admitir que o cliente de hoje não é o de ontem. Confundem autoridade com autoritarismo, tradição com verdade, e volume com valor.

            O erro não está em ter ideias antigas, todos as temos.

            O erro está em não saber soltá-las. Em tratar a experiência como dogma, não como ponto de partida. Em acreditar que o sucesso passado é garantia, e não lição.

            Então, como escapar? 

            Peter Drucker diria: “A única coisa que sabemos sobre o futuro é que será diferente.” E por isso, devemos praticar a “destruição criativa”, termo que Joseph Schumpeter cunhou para descrever o motor do capitalismo: inovar até tornar o antigo obsoleto.

            Mas a destruição começa dentro da mente.

            Nassim Nicholas Taleb, em “Antifrágil” (que já citei em outra crônica), propõe algo mais radical: “não basta resistir às mudanças; devemos ganhar com ela”. Isso exige humildade intelectual, a coragem de dizer: “Meus modelos podem estar errados.”

            Edgar Schein especialista em cultura organizacional, ensina que a verdadeira liderança começa com a “curiosidade humilde”: perguntar, escutar, aprender; especialmente com quem está na linha de frente, com quem vê o mundo sem os óculos do cargo.

            E Søren Kierkegaard, o filósofo existencialista, nos lembra que a verdade é subjetiva, mas só se torna viva quando nos transforma. Não basta saber que o mundo muda. É preciso deixar que ele nos mude.

            Vivemos numa era em que a inovação é celebrada nos palcos, mas perseguida nos corredores.

            Empresários pagam fortunas por palestras sobre transformação digital, mas demitem quem ousa sugerir que o processo interno está obsoleto.

            É a tragédia moderna: adoramos a ideia de mudança, desde que ela não nos toque.

            Mas o abismo não avisa. Ele apenas espera, paciente, silencioso, até que a última desculpa se esgote.

            O caminho, então, é este: desaprender para reaprender. Criar espaços onde o erro não é punido, mas investigado. Onde o novo não é ameaça, mas convite. Onde pedir ajuda não é fraqueza, mas ato de coragem estratégica.

            Escapar das ideias antigas não é trair o passado. É honrá-lo, tornando-o vivo, não mumificado.

            Como diria Keynes, com um sorriso irônico e um charuto na mão: 

            “Quando os fatos mudam, eu mudo de ideia. E você?”

            Pense nisso, antes que o mercado pense por você.

 
 
 

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