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DAS ESTRELAS QUE NÃO EXPLICO.

  • Carlos A. Buckmann
  • 19 de ago. de 2025
  • 3 min de leitura

DAS ESTRELAS QUE NÃO EXPLICO

            Jorge Amado, filho do cacau, do axé, do sabor picante da vida brasileira, tu que soube viver com os pés na areia e a alma nas nuvens, tu que colocaste o suor dos trabalhadores, o cheiro da jurema, o riso das lavadeiras e o desejo dos amantes em páginas que respiram. Poucos, como tu, souberam traduzir o Brasil em romance, não um Brasil de cartão-postal, mas o Brasil real, sujo, fértil, contraditório, sagrado. E é por isso que teus livros não envelhecem: porque neles não há tempo, há eternidade. Gabriela, Cravo e Canela não é um romance do século XX, é um espelho do que sempre fomos e, talvez, do que ainda não aprendemos a ser.

            Hoje, sentado à beira do Guaíba, onde o sol se afoga como se cansado da humanidade, penso em uma frase escrita em Gabriela:

            “O fato de não se compreender ou explicar uma coisa não acaba com ela. Nada sei das estrelas, mas as vejo no céu, são a beleza da noite.

            Quantas verdades morrem por falta de entendimento? Quantas almas apagam o brilho do outro por não saberem decifrar sua luz? Vivemos num tempo em que tudo precisa ser explicado, categorizado, reduzido a algoritmo. A ciência, sim, avança, mas a sabedoria recua. A tecnologia nos conecta, mas nos isola. Temos acesso a todo o conhecimento humano em um aparelho do tamanho da palma da mão, e ainda assim escolhemos acreditar em sombras, em dogmas que negam o óbvio, em verdades fabricadas por quem tem interesse em nos manter cegos.

            A frase de Amado é um soco no estômago da ignorância. Dizer “nada sei das estrelas” não é fraqueza, é humildade. É reconhecer que o mundo é maior do que nossa cabeça. Mas hoje, no Brasil, essa humildade é vista como derrota. A cegueira cultural se veste de certeza. O fanático religioso, que nunca leu um verso de Drummond nem ouviu um canto de orixá, acha que entende Deus. O político que mente com sorriso de santo acha que entende o povo. O “influencer” que repete frases feitas acha que entende a vida.

            Assim, sem cultura, sem leitura, sem arte, o povo caminha como sonâmbulo. A educação é desmontada, a ciência é atacada, a literatura é vista como luxo de elite. E o que sobra? Um vazio. Um vácuo que é preenchido por fundamentalismos, por ódio, por medo. As pessoas não sabem quem são, de onde vêm, para onde vão e, pior, não sabem que podem saber. Vivem como se a existência fosse apenas sobrevivência, como se a beleza não fosse necessária.

            Mas as estrelas continuam lá. Mesmo que ninguém as entenda. Mesmo que os telescópios se quebrem, mesmo que as luzes das cidades as apaguem, elas estão lá. Assim como estão lá as mães que criam filhos com amor em favelas, os artistas que pintam com tinta de retalho, os velhos que contam histórias sob o pé de manga, os jovens que dançam frevo no meio do caos. São estrelas. Não explicadas, não compreendidas, mas reais. Belas.

            É nisso que penso quando vejo o Brasil de hoje: um país onde a verdade é negociável, onde o absurdo é normalizado, onde a ignorância é celebrada como virtude. Um país onde se queima livro, onde se persegue pensamento, onde se criminaliza o diferente. E tudo isso porque, como diz Amado, não se aceita que algo possa existir sem que se saiba explicar. Querem domar o mistério. Querem prender a alma em uma doutrina. Querem apagar a noite para não ver as estrelas. Mas as estrelas resistem.

            Nós, os que ainda olhamos para o céu, que ainda lemos Amado, que ainda acreditamos que a vida tem mais sentido do que lucro e poder — nós somos os guardiões do que não se explica. Não precisamos entender tudo para respeitar. Não precisamos controlar tudo para amar. Há beleza no mistério. Há sabedoria na dúvida.

            O problema não é a fé. O problema é a fé cega. Não é a tradição. O problema é a tradição usada como arma. Não é a religião. O problema é quando a religião se torna política, e a política se torna religião, e ambos se alimentam da ignorância do povo.

            Precisamos voltar a olhar para o céu. Não com telescópios, mas com olhos de criança. Precisamos voltar a ler. A ouvir. A duvidar. A amar o que não entendemos, porque é nisso que está a vida, não no controle, mas na entrega.

            Enquanto houver alguém que, mesmo sem saber das estrelas, ainda as veja no céu, ainda haverá esperança. Mas se continuarmos a apagar as luzes da cultura, a perseguir o pensamento livre, a elevar a ignorância ao altar, então não será só a beleza da noite que perderemos. - Será a alma de um povo que poderia ser feliz.

Beto Buckmann

Crônicas entre ideias e pólvora.

 
 
 

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