DA SABEDORIA QUE MORA NA ESQUINA
- Carlos A. Buckmann
- 12 de mai. de 2025
- 3 min de leitura

DA SABEDORIA QUE MORA NA ESQUINA
Cora Coralina, essa doceira e poeta goiana que nos legou pérolas de sabedoria! Anna Lins dos Guimarães Peixoto Bretas, que adotou o pseudônimo que a consagrou, nasceu em 1889 e nos deixou em 1985, aos lúcidos 95 anos. Sua obra, marcada pela simplicidade e profundidade, floresceu tardiamente, com a publicação de seu primeiro livro, "Poemas dos Becos de Goiás e Estórias Mais", em 1965, prefaciado pelo mestre Carlos Drummond de Andrade. Seguiram-se outras obras que nos encantam com a sua visão peculiar do cotidiano, da natureza e da alma humana, como "Meu Livro de Cordel", "Vintém de Cobre – Meias Confissões de Aninha" e diversos outros poemas e contos que ressoam com a autenticidade de quem viveu intensamente.
Eis que nos convida a refletir sobre uma dicotomia essencial em sua singela, porém carregada de significado, sentença: “O saber a gente aprende com os mestres e os livros. A sabedoria se aprende é com a vida e com os humildes.” Uma proposição que, à primeira vista, parece óbvia, mas que encerra em si camadas profundas de entendimento sobre a aquisição do conhecimento e a conquista da sabedoria.
O saber, esse corpo estruturado de informações, teorias e técnicas, é naturalmente transmitido através da instrução formal e da leitura diligente. Os mestres, com sua expertise e didática, desvendam os mistérios das ciências, das artes e das letras, enquanto os livros, esses silenciosos depositários do conhecimento acumulado pela humanidade, abrem-nos as portas para mundos desconhecidos e perspectivas inexploradas. É no ambiente acadêmico, nos bancos escolares e na imersão nas páginas impressas que edificamos nosso intelecto, que absorvemos os alicerces sobre os quais construiremos nossa compreensão do mundo.
Contudo, a sabedoria, ah, a sabedoria! Esta se revela por um caminho bem diverso, sinuoso e, por vezes, árduo. Ela não se encontra nos compêndios nem nas cátedras, mas sim na experiência vivida, nos tropeços e nas superações, nas alegrias e nas tristezas que moldam nosso caráter e expandem nossa compreensão da natureza humana e de suas complexidades. E, notavelmente, Cora Coralina associa essa conquista da sabedoria à humildade. Os humildes, despojados de vaidades e de pretensões, carregam em suas vivências lições valiosas, desprovidas da roupagem acadêmica, mas repletas da autenticidade da vida real. Suas perspectivas, muitas vezes negligenciadas pelo olhar soberbo, oferecem insights profundos sobre a resiliência, a empatia e a verdadeira essência das relações humanas.
No cotidiano, inúmeros exemplos ilustram essa filosofia. O engenheiro recém-formado, munido de um vasto saber técnico, pode encontrar soluções inovadoras nos conselhos práticos de um mestre de obras experiente, cuja sabedoria foi forjada em anos de labuta e observação atenta dos materiais e das técnicas. O executivo brilhante, com seu conhecimento de estratégias de mercado e finanças, pode aprender lições cruciais sobre liderança e motivação com um funcionário de longa data, cuja humildade e dedicação inspiram toda a equipe.
No âmbito da gestão de empresas, a valorização apenas do saber formal pode levar a decisões desconectadas da realidade operacional e das necessidades dos colaboradores. Uma gestão verdadeiramente eficaz reconhece a importância de ouvir as vozes de todos os níveis hierárquicos, especialmente aqueles que estão na linha de frente e possuem um conhecimento prático inestimável. A sabedoria reside em integrar o conhecimento técnico com a inteligência empírica, criando um ambiente de aprendizado contínuo e colaborativo.
Na gestão de Recursos Humanos, a filosofia de Cora Coralina ecoa com particular ressonância. A seleção de talentos que se baseia unicamente em currículos e diplomas pode negligenciar candidatos com vasta experiência de vida e habilidades interpessoais desenvolvidas na prática. A promoção de um ambiente de trabalho que valoriza a humildade, a escuta ativa e o aprendizado mútuo entre os colaboradores, independentemente de seus títulos ou posições, fomenta uma cultura organizacional mais rica e resiliente. A sabedoria de um funcionário experiente pode ser tão valiosa quanto o conhecimento teórico de um recém-chegado, e a troca entre eles enriquece a todos.
Poderíamos discorrer ainda sobre a sabedoria ancestral das comunidades tradicionais, sobre a resiliência dos indivíduos que enfrentam adversidades com serenidade, sobre a capacidade dos mais simples em encontrar alegria nas pequenas coisas. A vida, em sua vastidão e complexidade, é a nossa grande mestra, e a humildade nos permite acessar as lições que ela generosamente nos oferece a cada instante.
Portanto, que possamos cultivar tanto o saber, adquirido nos livros e com os mestres, quanto a sabedoria, essa joia lapidada pelas experiências da vida e pela convivência com os humildes. Afinal, como diria minha avó, que de livros entendia pouco, mas de vida sabia um bocado: "De tanto a gente cair, aprende que o chão também ensina, viu?".




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