CULTIVANDO O ESSENCIAL ANTES DA TEMPESTADE.
- Carlos A. Buckmann
- 14 de abr. de 2025
- 5 min de leitura

CULTIVANDO O ESSENCIAL ANTES DA TEMPESTADE.
Platão, um dos pilares da filosofia ocidental, nasceu em Atenas por volta de 428/427 a.C. Discípulo fiel de Sócrates, testemunhou a injusta condenação de seu mestre, um evento que marcou profundamente sua trajetória intelectual. Fundou a Academia, a primeira instituição de ensino superior do mundo ocidental, onde por décadas ensinou filosofia, ética, política e metafísica. Sua vasta obra, permeada por diálogos ricos e alegorias profundas, legou-nos conceitos fundamentais como o Mundo das Ideias e a busca pela verdade e pelo bem.
É na "Apologia de Sócrates", o relato do discurso de defesa de seu mestre perante o tribunal ateniense, que encontramos a inspiradora frase: “Não espere por uma crise para descobrir o que é importante em sua vida.” Em meio a um julgamento que lhe custaria a vida, Sócrates, através da pena de Platão, nos oferece uma profunda reflexão sobre a priorização de valores e a urgência de reconhecer o essencial antes que a adversidade nos force a fazê-lo. A força desta sentença reside na sua atemporalidade, ecoando através dos séculos com uma pertinência assustadora para a nossa existência individual e coletiva.
A filosofia subjacente a essa máxima é um convite à introspecção e à autoconsciência. Ela nos incita a um exame diligente de nossos valores, paixões e relacionamentos. Em vez de navegarmos pela vida de forma reativa, esperando que o sofrimento nos revele o que realmente importa, somos chamados a uma postura proativa. A sabedoria reside em discernir o núcleo de nossa existência em tempos de calmaria, cultivando-o e fortalecendo-o para que possa nos amparar quando as ondas da crise se levantarem. Ignorar este chamado é viver sob a égide da ilusão, acreditando que a bonança será eterna e que a reflexão sobre o essencial pode ser adiada “sine die”. Contudo, como Heráclito já nos ensinou, "a única constante é a mudança", e a vida, em sua incessante dinâmica, invariavelmente nos confrontará com desafios.
No intrincado mundo dos negócios, a máxima platônica ressoa com uma clareza impressionante. Empresas que adotam uma postura de antecipação, que investem em inovação constante, na construção de relações sólidas com seus stakeholders e na adaptabilidade de seus modelos de negócio, demonstram uma compreensão profunda da importância de se preparar para o imprevisível. Mais uma vez, tomemos como exemplo a Netflix. Em vez de se apegar ao modelo tradicional de locação de DVDs, a empresa soube ler os sinais do mercado, antecipando a ascensão do streaming e transformando seu core business antes que a crise do declínio do formato físico a atingisse. Essa visão estratégica, essa capacidade de identificar o "importante" – a conveniência e a acessibilidade do conteúdo digital – antes que a crise a forçasse, garantiu sua liderança no mercado.
Em contrapartida, inúmeras empresas sucumbiram por negligenciar essa premissa fundamental. Gigantes que se apegaram a modelos de negócio obsoletos, que ignoraram as mudanças tecnológicas ou as novas demandas dos consumidores, foram atropeladas pelas crises que inevitavelmente surgiram. A Blockbuster, outrora líder no mercado de locação de vídeos, é um exemplo emblemático de uma empresa que não soube identificar o "importante" a tempo. Sua relutância em abraçar a era digital e sua incapacidade de inovar a levaram ao declínio e eventual falência, enquanto a Netflix florescia por ter se antecipado à mudança.
No mundo contemporâneo, caracterizado pela velocidade da informação, pela constante mudança e pela pressão por resultados imediatos, a máxima de Platão se torna ainda mais urgente. A correria do dia a dia muitas vezes nos impede de dedicar tempo à introspecção e à identificação do que realmente valorizamos. Adiar essa reflexão para um momento de crise é arriscar ser pego desprevenido, com estruturas frágeis e sem clareza sobre como agir quando os pilares da nossa vida são abalados. A crise, nesse contexto, pode ser não apenas um evento externo, mas também um esgotamento emocional, uma perda de sentido ou uma crise de valores decorrente da falta de alinhamento com o nosso "essencial".
Quero aqui abrir um parêntese e chamar a atenção para outro aspecto: A Diferença entre Valor e Preço:
A crise muitas vezes nos força a distinguir entre o que tem valor intrínseco e o que apenas possui um preço. Em tempos de abundância, podemos nos apegar a bens materiais ou a posições sociais que, sob a lente da adversidade, revelam-se vazios de significado. A frase de Platão nos convida a priorizar os valores – como a saúde, os relacionamentos autênticos, o conhecimento, a integridade – que transcendem as flutuações do mercado e as contingências da vida. Uma empresa que prioriza a ética e a sustentabilidade, por exemplo, constrói um valor de marca que se mantém resiliente mesmo em tempos de crise econômica.
E fechamos o parêntese.
A própria existência da Academia de Platão demonstra a importância da educação e da filosofia como ferramentas para desenvolver a capacidade de reflexão e o discernimento. Ao nos expormos a diferentes perspectivas, ao questionarmos nossas próprias crenças e ao exercitarmos o pensamento crítico, nos tornamos mais aptos a identificar o que é verdadeiramente importante em nossas vidas antes que a necessidade nos force a isso. A filosofia, nesse sentido, não é apenas um exercício teórico, mas um guia prático para viver uma vida mais consciente e alinhada com nossos valores mais profundos.
Embora a frase de Platão nos alerte contra a espera pela crise, é inegável que momentos de dificuldade podem, paradoxalmente, nos proporcionar clareza sobre o que realmente importa. A perda de um ente querido, uma doença grave ou uma falência podem nos forçar a reavaliar nossas prioridades e a reconhecer o valor de coisas que antes passavam despercebidas. No entanto, depender da crise para essa revelação é um caminho doloroso e arriscado. A sabedoria reside em aprender essa lição sem ter que vivenciar o sofrimento extremo.
A máxima de Platão não se aplica apenas à vida individual e ao mundo dos negócios, mas também a outras esferas, como a política e a sociedade. Um governo que não se antecipa a crises sociais, ambientais ou de saúde pública, negligenciando investimentos em áreas essenciais e ignorando os sinais de alerta, inevitavelmente colherá os frutos da sua omissão. Da mesma forma, uma sociedade que não cultiva valores como a solidariedade, a empatia e o respeito mútuo estará mais vulnerável quando confrontada por desafios coletivos.
Isso posto, a lição que ecoa da filosofia de Platão é, portanto, um chamado à vigilância e à proatividade. Seja na esfera pessoal, cultivando os laços afetivos e os valores que nos sustentam, seja no mundo dos negócios, antecipando as transformações do mercado e investindo em resiliência. A sabedoria reside em não esperar que a crise nos revele, a golpes duros, o que sempre foi essencial. É na serenidade do presente que devemos discernir o que verdadeiramente importa, para que, quando a tempestade chegar, tenhamos raízes profundas e estruturas sólidas para resistir e florescer. Afinal, como nos lembra a dialética platônica, a verdadeira busca pelo conhecimento e pela virtude é um exercício constante de autoconhecimento e de antecipação do bem, antes que a privação nos ensine, dolorosamente, o seu valor.




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