top of page

CONTINUAR, APENAS CONTINUAR

  • Carlos A. Buckmann
  • 6 de out. de 2025
  • 3 min de leitura

CONTINUAR, APENAS CONTINUAR

            Há algo de profundamente irracional e, ao mesmo tempo, profundamente humano, na insistência de levantar-se todas as manhãs, mesmo quando o mundo parece ter perdido o rumo.

            O animal, por instinto, age: come, dorme, foge, procria. Seu cotidiano é um círculo fechado de necessidades biológicas, sem perguntas, sem angústias metafísicas. Ele não se pergunta “por que” continuar; simplesmente continua, porque a natureza assim o programou.

            Já nós, seres que pensamos demais e sentimos ainda mais, somos condenados à lucidez. Sabemos que o amanhã pode ser inútil, que o esforço pode ser vão, que o amor pode falhar. E, mesmo assim, ou talvez justamente por isso, levantamo-nos.

            Levantamo-nos não porque acreditamos cegamente na recompensa, mas porque recusar-se a levantar seria entregar-se à derrota antes mesmo da batalha. É nesse hiato entre o saber e o agir, entre o desespero e a persistência, que reside a grandeza trágica do ser humano. Enquanto o animal vive o presente com a inocência de quem não conhece o abismo, nós caminhamos sobre ele, com os olhos abertos, sabendo que, a qualquer momento, podemos cair. E ainda assim caminhamos.

            Albert Camus, filósofo franco-argelino, prêmio Nobel de Literatura em 1957, voz incansável contra o absurdo e a injustiça, em seu perturbador e magistral “A Queda” (1956), escreveu:

            - “Às vezes, continuar, apenas continuar, é a conquista sobre-humana.” 

            Camus, que passou a vida a medir o peso do silêncio dos céus diante do sofrimento humano, sabia que a verdadeira coragem não está nos gestos grandiosos, mas na quietude obstinada do dia seguinte. Não é preciso gritar para resistir; basta não desistir.

            Contudo, observe-se, com ironia amarga, que em meio a tanta sabedoria, muitos ainda buscam atalhos, querem respostas rápidas, rejeitam o esforço contínuo que a vida legítima exige. Vivemos uma era de imediatismos, onde a persistência é vista como teimosia ou obstinação tola. Esquecemos que a conquista sobre-humana de que fala Camus não é um brilho efêmero de triunfo, mas o fogo constante, às vezes invisível, da resistência diária.

            Essa ideia ecoa em muitas vozes. Viktor Frankl, sobrevivente de Auschwitz, afirmava que o que sustenta o ser humano não é o prazer, nem o poder, mas O SENTIDO, e que, mesmo sem vê-lo claramente, a simples escolha de seguir em frente já é um ato de significação.

            Nietzsche, por sua vez, via na persistência uma forma de “amor fati”: amar o destino, inclusive quando ele nos esmaga.

             E até Freud, em seus escritos mais sombrios, reconhecia que a civilização só existe porque o indivíduo renuncia ao impulso imediato em nome de algo maior, mesmo que esse algo seja apenas a possibilidade de um novo dia.

            Continuar, portanto, não é passividade. É resistência ativa contra o caos interno e externo. É a recusa em deixar que o desespero dite as regras da existência. É, paradoxalmente, a mais radical das liberdades: a liberdade de escolher seguir, mesmo sem garantias.

            Vivemos numa era que celebra o desistir como autenticidade, o desligar-se como autocuidado, o desaparecer como rebeldia. Não nego a importância do descanso, do recuo estratégico, do silêncio curativo. Mas há uma diferença abissal entre pausar e desistir. Entre recuar para respirar e entregar-se por preguiça existencial.

             A cultura do “não aguento mais” tornou-se quase um distintivo de sensibilidade, como se sofrer fosse prova de profundidade, e desistir, de honestidade.

            Engano. Sofrer é humano; persistir, apesar do sofrimento, é divino.

            Então, continue. Continue mesmo quando ninguém aplaudir. Continue mesmo quando o objetivo parecer distante ou inatingível.

            Continue porque, nesse gesto aparentemente banal, reside a mais alta forma de heroísmo moderno.

            Continue, não por teimosia, mas por dignidade. Porque, como diria Camus, “no meio do inverno, descobrimos em nós um verão invencível.” E às vezes, continuar, apenas continuar, é tudo o que nos resta, e é tudo do que precisamos.

BETO BUCKMANN

Crônicas entre ideias e pólvora

 
 
 

Comentários


CONTATO

Porto Alegre, RS 

​​

Tel: (51) 9 9259-6364

Skype: betobuckmann​

betobuckmann@yahoo.com.br

Nós recebemos a sua mensagem, aguarde contato.

  • LinkedIn - Círculo Branco
  • Facebook - Círculo Branco
  • Instagram - White Circle
  • YouTube - Círculo Branco

© 2023 por Hugin. Criado orgulhosamente com Wix.com

bottom of page