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COMPLIANCE: A ÉTICA DE TERNO E GRAVATA.

  • Carlos A. Buckmann
  • 2 de jul. de 2025
  • 2 min de leitura

COMPLIANCE: A ÉTICA DE TERNO E GRAVATA.

            Antes de chamarmos a governança de “corporativa” e a integridade de “procedimento”, havia uma senhora chamada Ética. Era discreta, elegante, de fala mansa e espírito antigo, tão antiga quanto Aristóteles, que dizia que a virtude está no meio, e tão sábia quanto Spinoza, que ensinava que a liberdade é filha da razão. Ética orientava decisões sem precisarmos de manuais, códigos de conduta ou canais de denúncia. Bastava ouvir a própria consciência, esse juiz invisível que dorme com a gente e acorda antes do despertador.

            Mas eis que o mercado cresceu, as empresas se multiplicaram e, junto com elas, também os escândalos. Foi aí que apareceu o tal do compliance. Nascido nos Estados Unidos, em meados do século XX, como resposta aos abusos de poder e aos desastres financeiros (vide o escândalo da Enron nos anos 2000), o compliance veio como um bombeiro corporativo: com capacete jurídico, mangueira de regras e um manual de primeiros socorros reputacionais. O nome é chique, a função é nobre: garantir que as empresas estejam “em conformidade” com leis, regulamentos e padrões éticos. Em outras palavras, criar um roteiro para que se faça o certo, mesmo quando ninguém está olhando.

            Mas cá entre nós, por que precisamos de um sistema para ensinar aquilo que deveríamos saber desde o berço? Por que precisamos de um departamento para monitorar valores que, se bem cultivados, floresceriam naturalmente nas práticas diárias? Simples: porque deixamos a Ética sozinha no meio do caminho. Substituímos os princípios por procedimentos. Onde antes havia consciência, passamos a ter checklist. Onde havia caráter, agora há compliance.

            Adam Smith, pai do liberalismo econômico, dizia que os negócios só prosperam onde há confiança mútua entre os indivíduos. E veja que ironia: Smith escreveu A Teoria dos Sentimentos Morais antes de A Riqueza das Nações. Para ele, o mercado só funciona se for ancorado na moral. John Locke, por sua vez, também apostava na razão como reguladora das ações humanas, acreditando que a propriedade e o trabalho estavam ligados por um contrato ético com a sociedade. Nenhum deles precisou de um "compliance officer" para nos alertar que subornar é feio, fraudar é crime e mentir destrói reputações.

            Se tivéssemos mantido Aristóteles como conselheiro de governança e Spinoza como responsável pelos indicadores de integridade, talvez evitássemos muitos escândalos e manuais. Bastaria lembrar que agir com ética é, antes de tudo, agir de acordo com a natureza racional e social do ser humano. Mas preferimos os slides de PowerPoint às aulas de filosofia.

            Hoje, compliance virou um modo elegante de dizer que estamos tentando não fazer bobagens. É importante, sim, especialmente no mundo em que vivemos. Mas seria mais fácil, mais leve, mais humano se voltássemos à origem: se, antes de cumprir regras, quiséssemos fazer o certo apenas porque é certo. Isso dispensaria muitas consultorias, planilhas e até mesmo as reuniões às segundas-feiras.

            E se você ainda está em dúvida sobre o que é ética, lembre-se: é aquilo que a gente faz quando o algoritmo não está olhando.

            Ou, como diria meu avô: “Se precisa de um manual pra saber o que é certo, é porque já começou errado.”

Beto Buckmann

Crônicas entre ideias e pólvora

 

 
 
 

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