COMO SER UM BOM GESTOR
- Carlos A. Buckmann
- 17 de set. de 2025
- 5 min de leitura

COMO SER UM BOM GESTOR
Uma crônica “Filopedagógica”
Bom dia, caro leitor que ousa gerir vidas, sonhos e orçamentos ao mesmo tempo, e que, por isso, merece mais do que dicas de PowerPoint e frases de efeito de LinkedIn.
Começo com uma frase que me persegue desde que me dei conta de que errar não é fracassar, mas pagar o preço da consciência:
“Nossos erros são nossos melhores professores. Cobram caro, mas ensinam muito.”
Ah, se cobram! Já paguei multas emocionais, juros de reputação, e até cargos, por equívocos de julgamento. Mas foi no chão, entre os cacos do orgulho quebrado, que aprendi: o erro só é trágico quando não vira lição. E lição, caro gestor, não vem só de MBA, nem de relatórios de performance. Vem de onde a alma ainda respira, dos livros, dos filósofos, dos poetas que ninguém cita em reunião de diretoria.
Porque ser gestor não é apenas alocar recursos. É alocar “sentido”. E sentido não se compra em curso de 8 horas. Se constrói com leitura lenta, crítica, incômoda. Com autores que nos obrigam a parar, respirar e perguntar: “E se eu estiver errado?”
Deixa-me falar sobre OS MESTRES QUE TODO GESTOR DEVERIA TER NA ESTANTE (E NO CORAÇÃO).
SÊNECA E MARCO AURÉLIO - Comece por aqui, antes mesmo do café da manhã. Porque gestão é, antes de tudo, autogestão. Se você não governa suas emoções, como governará uma equipe? Sêneca te ensina a lidar com a raiva, a pressa, a ansiedade, pragas modernas disfarçadas de “urgência estratégica”. Marco Aurélio, imperador e filósofo, mostra que liderar é manter a serenidade no caos. Leia-os como quem toma remédio preventivo: diariamente, antes que a crise chegue.
ANDRÉ COMTE-SPONVILLE - Filósofo contemporâneo que escreve como quem serve vinho tinto em taça de cristal, com elegância e profundidade. Ele nos lembra que ética não é regra de compliance, mas escolha cotidiana. Gestor sem ética é como navio sem leme: pode até avançar, mas nunca sabe para onde. Comte-Sponville ensina a virtude da humildade, da justiça, da coragem; virtudes esquecidas nos manuais de RH.
JOHN LOCKE - Não, não é só o “cara” dos direitos naturais. É o pai da ideia de que as pessoas têm propriedade sobre si mesmas. Tradução para o escritório: sua equipe não é “recurso humano”, é gente com vontade, sonhos e limites. Locke te obriga a respeitar o indivíduo, e isso muda tudo. Do feedback à demissão.
ADAM SMITH E JOHN STUART MILL - Smith não é só o “pai do capitalismo”. É o pensador que entendeu que a riqueza nasce da cooperação, não da exploração. E Mill? Ah, Mill é o defensor da liberdade individual, e do “dano mínimo”. Gestor sábio sabe: não basta ser eficiente. Tem que ser justo. E humano. Smith te ensina economia com alma. Mill, liberdade com responsabilidade. Essa dupla deve ser lida e entendida junta. Não tem como separar.
JEAN-JACQUES ROUSSEAU E PAULO FREIRE - Rousseau grita: “O homem nasce livre, e por toda parte está acorrentado!” Freire responde: “A educação é ato de amor, coragem e prática da liberdade.” Juntos, eles formam o antídoto contra a gestão autoritária, burocrática, desumanizada. Liderar não é domesticar. É libertar potências. Educar, no sentido “freireano”, é fazer o outro pensar, e isso, gestor, é revolucionário.
KARL MARX E FRIEDRICH ENGELS - Não tema. Não estou sugerindo que você vire comunista. Mas que entenda: “as relações de trabalho são relações de poder”. Ignorar isso é ingenuidade perigosa. Marx e Engels te mostram as fissuras do sistema, para que você, como gestor, não seja cúmplice delas. Consciência de classe? Não. Consciência humana. De que explorar é fácil. Dignificar, difícil e necessário.
IMMANUEL KANT E ARISTÓTELES - Kant: “Age de modo que tua ação possa se tornar lei universal.” Tradução: se todo gestor fizesse o que você faz, o mundo seria melhor ou pior? Aristóteles: “Somos o que repetidamente fazemos. Excelência, então, não é um ato, mas um hábito.” Gestão ética não é exceção. É rotina. Disciplina moral. Leitura obrigatória para quem confunde “resultado” com “fim que justifica qualquer meio”.
MICHEL FOUCAULT E JACQUES LACAN - Foucault desvenda os mecanismos invisíveis de poder, aqueles que operam sem gritos, só com olhares, silêncios e normas não escritas. Lacan te lembra: o sujeito é desejante, contraditório, inconsciente. Ou seja: sua equipe não é planilha. É drama humano. Ignorar isso é gerir fantasmas. Ler Foucault e Lacan é aprender a enxergar o que os relatórios escondem.
JACK WELCH E PETER F. DRUCKER - Sim, os “práticos”. Mas não os leia como receita. Leia como reflexão. Welch, com seu “diferenciar ou morrer”, nos obriga a ter coragem nas decisões. Drucker, o pai da administração moderna, nos ensina que “o propósito da empresa é criar cliente”, e que o gestor existe para servir, não para mandar. Pragmatismo com propósito. Eficiência com alma.
E eu acrescento, porque gestor sem poesia é burocrata com terno:
CLARICE LISPECTOR - Para lembrar que o humano é inefável, e que às vezes, um silêncio bem dado vale mais que um KPI atingido.
MACHADO DE ASSIS - Para entender ironia, ambiguidade e a tragédia das aparências. Todo escritório é um Brás Cubas em potencial.
MARTIN BUBER - “Eu-Tu” vs “Eu-Isso”. Gestor que trata gente como “isso” merece o fracasso que colhe.
COM UMA FACA NOS DENTES
Caro gestor moderno: você não precisa de mais cursos. Precisa de mais coragem, a coragem de ler, de pensar, de errar com consciência, de chorar com um funcionário, de demitir com dignidade, de dizer “não sei”, de pedir perdão.
O mundo corporativo virou um circo de egos inflados, palavras da moda, vazias e KPIs que medem tudo, menos o que importa: a alma do trabalho. Gestores viraram contadores de grãos, esquecendo que colhem vidas.
Então, pare. Respire. Leia Sêneca antes da reunião. Leia Freire antes de dar feedback. Leia Kant antes de tomar uma decisão que afetará alguém. E lembre-se: o erro só é inútil quando não nos transforma.
Se um dia você aplicar uma lição de Marco Aurélio numa reunião tensa, ou citar Freire ao dar feedback, ou até chorar lendo Clarice antes de demitir alguém com dignidade, saiba que aí, exatamente aí, estará fazendo gestão de verdade. Humana. Perigosa. Bela.
Porque ser bom gestor não é ter a resposta certa. É fazer a pergunta certa, ouvir sem pressa e ter coragem de aceitar a resposta, mesmo que ela te desmonte.
E se você acha que isso é “filosofia demais para o mundo real”, eu te respondo com um sorriso triste: “O mundo real é feito por quem lê. Os outros só executam ordens, inclusive as piores.”
Tenha um bom dia. E boa leitura. Ou melhor: boa vida, porque, como diria Lacan, gerir é, antes de tudo, viver com os outros.
E viver, como diria Clarice, “é muito perigoso. Mas é a única coisa que vale a pena.”
Assina aqui o seu cronista filopedagógico, que erra, paga, aprende e insiste.




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