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COMO SAIR DO ATOLEIRO

  • Carlos A. Buckmann
  • 6 de jun. de 2025
  • 3 min de leitura

COMO SAIR DO ATOLEIRO

            E hoje voltamos ao ritmo normal de nossas crônicas.

            Numa publicação anterior em meu blog, citei o dito popular francês, "Aide-toi, le ciel t'aidera." – Então lembrei da origem desse dito, o que faz dessa crônica de hoje, um complemento do pensamento “kantiano” que analisamos naquela publicação..

            Jean de La Fontaine (1621-1695), poeta e fabulista francês, em sua perspicaz fábula "Le chartier embourbé", (O Carroceiro Atolado) narra a infortunada situação de um carroceiro cujo veículo, atolado em um lamaçal traiçoeiro, torna-se um fardo imóvel. Desesperado diante da adversidade, ao invés de lançar mão do esforço braçal e da diligência necessária para desimpedir as rodas presas, o homem se entrega a lamentos vãos e invoca os céus com fervorosas súplicas a Hércules, o semideus da força. A divindade, então, manifesta-se, não para operar um milagre indolente, mas para proferir uma reprimenda carregada de sabedoria prática: "Ajuda-te a ti mesmo, e o céu te ajudará".

            Debruço-me sobre esta singela narrativa, e a sua ressonância ecoa com uma força surpreendente nos labirintos intrincados da existência cotidiana. Quantas vezes nos encontramos, metaforicamente, atolados em pântanos de dificuldades auto infligidas ou circunstanciais, e, tal qual o carroceiro indolente, preferimos o conforto ilusório da lamentação à árdua tarefa da ação resoluta? Mergulhados em um mar de procrastinação, afogados em um oceano de queixas estéreis, clamamos por intervenções externas, por epifanias providenciais que nos arranquem da inércia paralisante.

            A filosofia subjacente à admoestação de Hércules transcende a mera exortação ao trabalho físico. Ela encerra um princípio ontológico fundamental: a primazia da agência individual na tessitura do próprio destino. O universo, em sua vasta e imperscrutável complexidade, não se dobra à vontade passiva daqueles que esperam a resolução de seus problemas como um maná celestial. Ao contrário, ele reverencia o esforço consciente, a aplicação da inteligência e da vontade na busca por soluções tangíveis.

            A lição moral da fábula se desdobra em inúmeras facetas da vida quotidiana. No âmbito profissional, o sucesso raramente sorri àqueles que aguardam passivamente por oportunidades, mas sim aos que cultivam suas habilidades com afinco, buscam ativamente o aprimoramento e enfrentam os desafios com resiliência. Nas relações interpessoais, a resolução de conflitos e a construção de laços duradouros exigem comunicação ativa, empatia genuína e a disposição de investir tempo e energia no cultivo do entendimento mútuo. Até mesmo nos domínios da busca pelo conhecimento, a iluminação intelectual não irrompe por osmose, mas é o fruto laborioso da curiosidade insaciável, da leitura diligente e da reflexão perseverante.

            Observo, com uma ponta de ironia melancólica, a propensão humana a depositar suas esperanças em loterias existenciais, em golpes de sorte que magicamente solucionarão todas as suas pendências. Esquecemos, frequentemente, que a verdadeira fortuna reside na capacidade de mobilizar nossos próprios recursos internos, de desenterrar a força motriz que reside em nosso íntimo. A fábula de La Fontaine, portanto, não é apenas um conto infantil com uma moralidade simplista; ela é um espelho que reflete nossa tendência à inação e um chamado perene à assunção da responsabilidade por nossa própria jornada.

            A vida, por vezes, nos coloca em atoleiros inesperados. A diferença entre permanecer enlameado e alcançar terreno firme reside na nossa disposição de colocar a mão na massa... literalmente, se necessário. Afinal, como diria o próprio Hércules, com um toque de sarcasmo divino: "Se a carroça não anda, meu caro, talvez seja hora de parar de rezar e começar a empurrar. A não ser que você esteja esperando que unicórnios alados venham resgatá-lo, o que, convenhamos, é uma estratégia um tanto quanto... atolada."

 

 
 
 

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