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COM O QUE TEM E ONDE ESTIVER

  • Carlos A. Buckmann
  • 18 de jun. de 2025
  • 3 min de leitura

COM O QUE TEM E ONDE ESTIVER.

            Há uma espécie de ilusão que habita certas almas: a de que, para começar algo, é preciso que tudo esteja perfeitamente alinhado. Que os ventos sejam favoráveis, que os recursos estejam disponíveis, que o tempo sobre e que o local seja adequado, de preferência com iluminação natural, ar-condicionado e uma xícara de café gourmet. Conheci muitos assim. Gente boa, de boas ideias, mas de execução tardia ou nenhuma. Engavetaram planos por “não ser a hora certa”. Nunca foi. Talvez nunca seja.

            Recordo-me de algumas pequenas empresas que acompanhei ao longo da vida, projetos promissores, negócios com espírito empreendedor, mas que naufragaram não por falta de talento ou mercado, mas por esse velho e disfarçado sabotador: a desculpa. “Vamos esperar melhorar a economia”, diziam. “Quando tivermos capital para investir em marketing...” ou “Falta um sócio certo, um ponto ideal, uma equipe perfeita.” Enquanto isso, o tempo, esse gerente impiedoso, seguia cortando metas e oportunidades.

            Uma dessas empresas, que vendia produtos sustentáveis antes mesmo da pauta ecológica virar moda, tinha tudo para ser referência. Mas seus fundadores paralisaram diante da ausência de um “investidor anjo”. Resultado: ficaram no purgatório das ideias brilhantes que nunca viram a luz do dia.

            Foi então, certa vez, relendo anotações antigas, que me deparei com a frase do presidente norte-americano Theodore Roosevelt:

            “Faça o que você pode, com o que você tem, onde você estiver.”

Simples. Rude. E devastadoramente verdadeira.

            Roosevelt, nascido em 1858, foi muito mais do que um político. Antes de ser presidente dos Estados Unidos, foi um naturalista, escritor, caçador, explorador, e até mesmo um reformador social. Sofreu de asma severa na infância e perdeu a mãe e a esposa no mesmo dia. Mas, ao invés de sucumbir, ergueu-se, literalmente, selando um cavalo e cruzando os vastos campos do Oeste americano. Ele encarnava sua própria frase: agia com o que tinha, no lugar onde estava.

            Essa filosofia, ao contrário do que possa parecer, não se trata de resignação. Trata-se de potência. Potência real. Daquela que emerge quando não nos rendemos ao lamento da escassez, mas à criatividade da ação. É nesse espírito que também leio o estoicismo de Epicteto, que dizia:

            “Não são as coisas que nos perturbam, mas a visão que temos delas.” 

            Ou ainda Viktor Frankl, que, mesmo dentro de um campo de concentração, nos lembrava da liberdade última do homem: escolher sua atitude diante das circunstâncias.

            No campo dos negócios, Peter Drucker, pai da administração moderna, ecoava o mesmo princípio ao afirmar que o planejamento eficaz começa com o que se tem agora, não com o ideal inatingível. Jim Collins, em “Empresas Feitas para Vencer”, observou que as grandes corporações não começaram grandes,  elas começaram bem pequenas, porém com disciplina e perseverança. E talvez a melhor analogia venha de Leonardo da Vinci, que, ao esculpir, dizia:

            “Cada bloco de pedra tem uma estátua dentro, cabe ao escultor revelá-la.”

            Essa ideia, de agir com os recursos disponíveis, também nos interpela em nossa vida pessoal. Quantos adiam uma conversa importante, um pedido de desculpas, um abraço, por esperarem “o momento certo”? Quantos guardam seus sonhos em potes herméticos, esperando que a vida lhes entregue uma condição perfeita que nunca virá? A vida não é uma linha de montagem previsível. É uma oficina improvisada. E os que mais realizam são, frequentemente, os que sabem usar martelo como colher e a esperança como alavanca.

            E cá entre nós, se fosse depender das condições ideais, esta crônica sequer teria sido escrita. Comecei com um bloco de notas amassado, entre o som de um liquidificador no vizinho e o latido de um cachorro no pátio. Meu café esfriou, minha coluna doeu, e a inspiração me escapava feito sabão molhado. Mas me lembrei de Roosevelt. Me lembrei de mim mesmo. E fui.

            Finalizo, com um alerta: se você está esperando a conjunção de Marte com Júpiter, o ponto comercial dos sonhos, ou o milagre do décimo terceiro caindo antes do mês… esqueça. A chance é que você morra de velhice abraçado à desculpa.

            Levante-se. Use o que tem. Aja onde estiver. E, por favor, se não for pedir muito, aproveite para me trazer um café, quente, se possível.

 

 

 
 
 

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