COLUNAS, CARÁTER E COMÉRCIO
- Carlos A. Buckmann
- 13 de jul. de 2025
- 3 min de leitura

COLUNAS, CARÁTER E COMÉRCIO
Filosofia aplicada à vida, aos negócios e ao riso final
Sempre admirei a harmonia das coisas bem construídas. Não apenas das paredes que se erguem com exatidão ou dos tetos que não desabam sobre nossas cabeças. Falo da beleza que nasce quando utilidade e estética dançam juntas. E poucas civilizações fizeram essa dança com tanta graça quanto os gregos antigos.
Na Grécia clássica, arquitetura e filosofia não eram vizinhas distantes: eram irmãs gêmeas. O templo de Apolo não era apenas um edifício; era uma afirmação sobre ordem, proporção e eternidade. A engenharia grega não se limitava a pedras e cálculos, era pensamento sólido, escultura de ideias em mármore. E nisso, as colunas desempenhavam papel central. Dórica, Jônica, Coríntia: três irmãs com personalidades tão distintas quanto os três estágios da vida, ou os três degraus da virtude.
A coluna DÓRICA era a mais sóbria e austera. Sem base, sem ornamentos, erguia-se firme como um camponês de poucas palavras e muitos calos. Representava o caráter fundado na disciplina e na coragem, virtudes que, segundo Aristóteles, sustentam o ethos de uma vida boa. Se fosse um homem, a coluna Dórica seria um estoico: como Epicteto, que mesmo escravo, manteve-se ereto diante das adversidades. No mundo dos negócios, a coluna Dórica é o alicerce da ética. É o comerciante que cumpre a palavra, o gestor que não se dobra ao oportunismo. É a honestidade que não precisa florear.
A coluna JÔNICA tem outra natureza. Mais esguia, com volutas que se enrolam como ideias complexas e sentimentos contidos. Sua base é firme, mas sua cabeça é ornada com inteligência. Ela me lembra o saber de Hipátia e a lógica de Heráclito, fluída como o pensamento que se dobra, mas não quebra. A coluna Jônica, se tivesse voz, falaria com ironia e elegância. No caráter humano, ela representa o equilíbrio entre razão e sensibilidade. Nas empresas, é a inovação com bom gosto, a liderança que escuta, pondera, decide. É o saber viver, o saber vender e, sobretudo, o saber ceder sem perder a essência.
E então, há a exuberante coluna CORÍNTIA, cheia de folhas de acanto, quase barroca em comparação às irmãs. Uma ode à beleza e ao exagero bem medido. Representa o ideal de sofisticação, o desejo de se destacar, de deixar legado. Seria ela a preferida de Platão, com suas ideias grandiosas, ou de Plotino, mergulhado no Uno, onde tudo é esplendor? Na formação do caráter, a Coríntia é a busca por excelência, o apuro, o refinamento da alma e do gesto. Nos negócios, é o marketing bem-feito, a vitrine pensada, a experiência do cliente levada ao patamar de arte. Mas cuidado: sem Dórica e Jônica, a Coríntia vira puro ornamento, colapsa sob o peso da vaidade.
Foi essa tríade que inspirou pensadores modernos. René Guénon viu nelas símbolos da degeneração das formas espirituais. (*) Alberti, no Renascimento, as usou para codificar proporções humanas na arquitetura. E até Peter Drucker, ao insistir que “a cultura devora a estratégia no café da manhã”, talvez falasse da base invisível (a ética dórica), do diálogo constante (a reflexão jônica) e do valor percebido (a estética coríntia) como pilares invisíveis das organizações bem-sucedidas.
Hoje, olho para uma pequena farmácia como quem observa um templo grego: com colunas invisíveis sustentando o negócio. A Dórica está nas finanças bem-feitas e na integridade que passa de pai pra filho. A Jônica, nos conselhos à clientela e nos relatórios bem analisados. E a Coríntia... bem, essa aparece na fachada que a destaca entre outros prédios, nas promoções criativas e até nas embalagens caprichadas.
E se você, acha tudo isso pedante demais, lembre-se: até colunas precisam de alívio. Afinal, mesmo no Partenon, o peso da sabedoria é suavizado pela curvatura sutil das linhas, porque os gregos, esses danados, sabiam que até o mais rígido dos pilares precisa, de vez em quando, de um pouco de flexibilidade... e de uma boa risada ao final do expediente.
Aliás, dizem que uma vez, uma coluna Coríntia se apaixonou por uma Dórica. O casamento foi complicado: ela queria flores no capitel, ele só queria uma boa base e silêncio. Mas no fim, encontraram o equilíbrio. Tiveram uma filha... meio sensata, meio vaidosa: chamaram-na de “coluna de escritório moderno”.
E aqui estou eu, deixando de lado toda modéstia, sólido como uma Dórica, elegante como uma Jônica, e com alma de Coríntia, tentando não ser apenas mais uma coluna de escritório..., mas quem sabe, uma crônica com capitel.
Beto Buckmann
Crônicas entre ideias e pólvora
(*) Guénon via a evolução das ordens arquitetônicas (de Dórica, Jônica e Coríntia) como um processo de crescente complexidade decorativa e, simbolicamente, de decadência espiritual.




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