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CAVALO EM TERRAS ESTRANHAS

  • Carlos A. Buckmann
  • 25 de nov. de 2025
  • 2 min de leitura

CAVALO EM TERRAS ESTRANHAS

            Em 1970, quando “Um Homem Chamado Cavalo” chegou às telas, a América ainda se debatia entre ideais de progresso e as cicatrizes de um colonialismo que via o “outro” como inferior.

            O filme, protagonizado por Richard Harris, trazia uma inversão radical: um aristocrata inglês, John Morgan, é capturado por um povo Lakota e, em vez de dominar, é dominado, até que, pela dor, pelo respeito e pela entrega, renasce como um deles. Sua jornada é a do herói iniciático: descida ao abismo, morte simbólica e renascimento. Não por conquista, mas por humildade.

            Essa jornada ecoa em cada passo que damos em terras alheias, físicas ou sociais. Quantos de nós, ao entrar em um novo ambiente de trabalho, em um novo país, ou mesmo em uma nova fase da vida, não somos tratados como “cavalos”? - úteis, talvez, mas desprovidos de alma aos olhos dos que já habitam aquele mundo? Morgan só se torna humano aos olhos dos Lakota quando, voluntariamente, submete-se ao Sun Dance (a Dança do Sol), ritual de sofrimento e purificação.

            A aceitação não vem pela força, mas pela entrega consciente.

            Lembrei-me disso quando, gaúcho de coração e sotaque, fui transferido pela empresa para a Região Amazônica. Deixei os pampas, o chimarrão das manhãs frias e o compasso lento das conversas à beira do fogo, para mergulhar na umidade densa da floresta, nas vozes rápidas em português misturado com dialetos indígenas, nos silêncios que não eram silêncios, mas o zumbido da vida em cada folha.

            Por meses, fui um estrangeiro em minha própria pátria. Meus gestos pareciam pesados, minhas palavras, inúteis. Como Morgan, precisei aprender a ouvir antes de falar, a observar antes de agir.

            Na sociedade, e especialmente no mundo dos negócios, costumamos acreditar que a adaptação é fraqueza. Que manter a postura rígida, a identidade inabalável, é sinal de força.

            Mas Nietzsche já nos advertia: “Tornar-se o que se é exige que se abandone o que se pensava ser”.

            E Foucault lembraria que o sujeito não é dado, é feito, nas relações, nas provações, nos rituais cotidianos de pertencimento.

            A verdadeira força não está em impor-se, mas em permitir-se ser transformado. Morgan não voltou à Inglaterra. Escolheu ficar. Não por derrota, mas por descoberta: ele havia encontrado uma humanidade mais plena entre os que o chamavam de “cavalo”.

            Assim também é a vida: só nos tornamos plenamente humanos quando aceitamos ser desmontados pelo novo, pela cultura estranha, pela dor necessária, pela humilhação que precede a sabedoria.

            Hoje, ao ouvir o canto dos pássaros da Amazônia, tão diferente do assobio do vento nos campos do Sul, sinto que carrego em mim duas pátrias. E que ambas me ensinaram: adaptar-se não é trair-se. É expandir-se. É reconhecer que, diante do desconhecido, a resistência inicial é humana, mas a entrega consciente é divina.

            Portanto, diante das adversidades que virão, e sempre virão, não as receba como inimigas. Receba-as como rituais de passagem. Como o “Sun Dance” da sua existência.

            Porque só quando aceitamos ser chamados de “cavalo” é que descobrimos que somos, afinal, capazes de ser muito mais.

Beto Buckmann

Crônicas entre ideias e pólvora.

 
 
 

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