CANTAR JUNTOS PARA NÃO DESAPARECER
- Carlos A. Buckmann
- 2 de nov. de 2025
- 3 min de leitura

CANTAR JUNTOS PARA NÃO DESAPARECER
Há um tipo de morte que não exige enterro: é a morte por isolamento. Não a solidão escolhida, aquela que alimenta o pensamento, mas a solidão imposta, aquela que se instala quando o mundo fecha as portas e o sujeito começa a duvidar de sua própria existência.
Quanto mais tempo passa sem ser visto, sem ser ouvido, mais o eu se desfaz.
A mente, privada do espelho do outro, começa a apagar suas próprias bordas. O pensamento se torna eco; o sentimento, ruído interno sem destinatário.
E assim, lentamente, o sujeito deixa de acreditar que sua dor importa, que sua voz tem peso, que seu corpo merece ocupar espaço. O isolamento não apenas machuca, “desrealiza”.
A psicologia já há muito reconhece o isolamento como fator de risco para depressão, ansiedade e até deterioração cognitiva.
Harry Stack Sullivan, com sua teoria das relações interpessoais, afirmava que “não existe tal coisa como um indivíduo isolado”, somos, por natureza, seres relacionais, e nossa sanidade depende do reconhecimento mútuo.
Já a psiquiatria observa como o afastamento social é tanto sintoma quanto agravante de transtornos mentais: o depressivo se isola, e o isolamento o deprime ainda mais, num círculo vicioso que só se quebra com o retorno ao laço.
Psicólogos comunitários, como Maritza Montero, vão além: propõem que a cura não reside apenas no indivíduo, mas na “reconstrução coletiva do sentido”, e que os espaços de encontro criativo são laboratórios de resistência psíquica.
A filosofia, por sua vez, entende a solidão extrema como uma falha ontológica. Aristóteles já dizia que o homem é um “zoon politikon”, um ser feito para a vida em comunidade.
Hannah Arendt alertava que o totalitarismo começa quando se destrói o espaço comum da ação e da fala; sem ele, o indivíduo se torna massa, e a massa, presa fácil da desumanização.
Levinas via no rosto do outro a condição ética da minha própria humanidade: só existo plenamente quando sou interpelado por alguém que me reconhece.
E Jean-Luc Nancy, em sua reflexão sobre a “comunidade inoperante”, nos lembra que não precisamos de fusão ou unanimidade para pertencer, basta o simples fato de “compartilhar uma voz”, mesmo que dissonante.
É nesse solo fértil, entre o cuidado clínico e a ética do encontro, que a psicofilosofia planta sua prática. Ela não vê o sofrimento como um defeito individual a ser corrigido em sigilo, mas como uma ferida relacional que pede reparação coletiva. Assim, propõe que a cura não aconteça apenas no divã ou na sala fechada, mas em espaços vivos de criação compartilhada: num coral onde vozes se entrelaçam sem precisar ser iguais; num teatro comunitário onde cada corpo conta uma história que também é de todos; numa roda de poesia onde o silêncio é respeitado, mas a palavra, celebrada. Nessas práticas, ninguém é “paciente”. Todos são “coautores da cura”.
No coral, a respiração se sincroniza, e com ela, a sensação de não estar só no mundo.
No teatro, o trauma pode ser encenado, distanciado, transformado em metáfora e, assim, desarmado.
Na roda de poesia, a dor encontra linguagem, e a linguagem, testemunhas.
E em todos eles, o milagre acontece: o sujeito isolado redescobre que sua existência ressoa.
Numa sociedade marcada pela hiper conexão digital e pela desconexão real, pela individualização extrema e pelo medo do outro, esses espaços de criação coletiva são atos revolucionários.
A psicofilosofia, nesse contexto, não oferece apenas técnicas, oferece comunhão. Ela sabe que a cura não é um destino solitário, mas um caminho trilhado em coro.
Por isso, você que se escondeu achando que nada do que sente importa: Saia.
Não sozinho, mas em direção a um “nós” possível. Não precisa ter talento. Precisa apenas estar presente.
Porque curar-se, muitas vezes, não é encontrar respostas, é descobrir que sua pergunta tem eco em outras vozes.
E é nesse eco que a vida volta a pulsar.
Cante, mesmo que desafinado. Recite, mesmo que trêmulo. Represente, mesmo que em cena pequena.
Porque o mundo não precisa de perfeição, precisa de presença.
E você, com sua voz, seu corpo, sua história ainda não dita, é parte essencial desse coro que insiste em existir, apesar de tudo.
Venha. O círculo já começou.
E há um lugar vago esperando por você.




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