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AS ROSAS E O SILÊNCIO

  • Carlos A. Buckmann
  • 2 de jun.
  • 3 min de leitura

AS ROSAS E O SILÊNCIO (*)

(Da série A FILOSOFIA NA MPB)

            Entre tantas e tão belas composições de Cartola, não posso deixar de fora sua canção de maior sucesso: “As Rosas Não Falam”.

            E por que ela toca tão fundo? Porque, ao contrário do que parece, não é uma canção sobre flores, é sobre o limite da linguagem. Sobre como o mundo natural nos responde sem palavras, e como nós, humanos, insistimos em perguntar.

            A filosofia da MPB está aí: na dor que se cala, no perfume que substitui a voz.

            “Bate outra vez / Com esperanças o meu coração / Pois já vai terminando o verão / Enfim / Volto ao jardim”

            Kierkegaard sabia que a esperança é uma paixão do possível. O coração bate “outra vez” e nesse “outra vez” há algo de absurdo, quase religioso.

            O verão termina, a estação do amor se esvai, e mesmo assim volto ao jardim. Não por racionalidade, mas por fidelidade a um afeto que insiste. Voltar ao jardim é repetir o gesto de quem, contra todas as evidências, ainda espera uma resposta. A filosofia existencial chama isso de fé no absurdo. Cartola chama de volta ao jardim.

            “Com a certeza que devo chorar / Pois bem sei que não queres voltar / Para mim”

            A paradoxal sabedoria da tristeza. Tenho certeza de que devo chorar, não uma certeza científica, mas uma certeza do corpo, do destino.

            Schopenhauer, o filósofo do azedume, diria que a vida oscila entre a dor e o tédio, e que o amor é a armadilha da vontade.

            Aqui, porém, não há revolta. Há aceitação lúcida: sei que não queres voltar. O choro não é surpresa, é rito. A filosofia estoica chamaria isso de “amor fati”, amar o que é inevitável. Cartola simplesmente chora. E está certo.

            “Queixo-me às rosas / Que bobagem as rosas não falam / Simplesmente as rosas exalam / O perfume que roubam de ti”

            Mesmo que você não perceba, este é o centro filosófico da canção. Queixar-se às rosas é um ato de pura projeção humana.

            Espinosa nos lembrou que a natureza não age por finalidades nem por compaixão: as rosas simplesmente “são”. E ao exalar perfume, não respondem à minha queixa, apenas cumprem sua essência. O perfume que “roubam de ti” é o detalhe genial: o objeto amado já não está presente, mas sua ausência deixou vestígios.

            O mundo material guarda a memória do que se foi. Merleau-Ponty falaria da percepção como encontro com um mundo que já traz a marca do outro. As rosas não falam porque não precisam. Elas exalam. E isso é mais verdadeiro que qualquer palavra.

            “Devias vir / Para ver os meus olhos tristonhos / E, quem sabe, sonhavas meus sonhos / Por fim”

            O desejo final não é de posse, é de reconhecimento. “Devias vir”, um imperativo frágil, quase um pedido.

            Levinas diria que o rosto do outro é o que me chama à responsabilidade. Aqui, o eu tristonho quer que o outro veja seus olhos. Não para comover, mas para compartilhar um mesmo sonho. A filosofia da alteridade se resume a isso: o sonho só se completa quando é sonhado por dois. “Por fim”: palavra que encerra a esperança de uma última vez. Ou de um recomeço disfarçado de despedida.

            Entre tantas e tão belas composições de Cartola, esta é a de maior sucesso porque, sem saber, ele fez filosofia de botânica.

            As rosas não falam e é exatamente por isso que eu, cronista das horas miúdas, continuo voltando ao jardim.

            Porque no silêncio das flores encontro algo que nenhum discurso alcança: a verdade de que o amor não precisa de resposta. Precisa apenas de um perfume que lembre, de um olhar tristonho que insista, de uma certeza que devo chorar.

            Entre roseiras mudas e esperanças absurdas, descubro que a MPB não é só música: é um tratado sobre a coragem de falar com quem não pode ouvir.

            E ouvir, no silêncio, tudo.

(*) Assista o clipe no YouTube

 
 
 

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