AS MIL VIDAS QUE VIVI
- Carlos A. Buckmann
- 2 de mai. de 2021
- 3 min de leitura
Atualizado: 3 de mai. de 2021

Em tom de brincadeira, meu amigo Marcelo postou no grupo de WhatsApp do Dia a Dia de nossa equipe de trabalho, a foto de um velhinho com um livro nas mãos, cercado por uma montanha de revistas e livros e com a frase: “O Beto daqui cinco anos”. E complementou com o dito de Umberto Eco: - “Quem não lê, aos setenta anos terá vivido uma só vida: a própria. Quem lê, terá vivido cinco mil anos: estava lá quando Caim matou Abel, quando Renzo se Casou com Lúcia, quando Leopardi admirava o infinito... Porque a leitura é a imortalidade para trás”.
A brincadeira do Marcelo, além de boas risadas, causou em mim um sentimento de profunda gratidão, pois além do reconhecimento pelo meu hábito de leitura, que sei que ele respeita e muito, me levou numa viagem pelo túnel do tempo.
Eu já tenho setenta e cinco anos e, com certeza, baseado no que escreveu Umberto Eco, já vivi mais de mil vidas em mais de dois milhões de anos.
Muito antes de Caim matar Abel (foi o primeiro genocídio registrado na história, pois com uma paulada matou ¼ da humanidade, já que, de acordo com o livro do Gênesis, só existiam Adão e Eva e seus dois filhos: quatro humanos) eu viajei com o Australopithecus, do sul do continente africano para o norte e depois migrei para a Europa e Ásia, rompendo fronteiras e curtindo a experiência de ser um caçador coletor.
No norte da África, junto a hoje cidade do Cairo, acompanhei as construções das pirâmides, da esfinge e os rituais para o deus Anúbis e a deusa Isis. Também lá, séculos depois presenciei a paixão arrebatadora de Marco Antônio por Cleópatra.
Em Homero, naveguei com Odisseu, amei e fugi das sereias na ilha de Circe, navegando de retorno a Ítaca e, com o mesmo Homero, na Ilíada, vi a ira causada pelo ciúme de Menelau ao perder sua Helena, o duelo com Páris e o sangue que foi derramado durante os nove anos na guerra de Tróia.
Eu estava lá quando Thoreau construiu sua cabana às margens do lago Walden, onde comi do milho e do feijão por ele plantados.
Fui parceiro dos “Devaneios de um Caminhante Solitário” com Jean-Jacques Rousseau e “...aprendi, assim, por minha própria experiência, que a fonte da verdadeira felicidade está em nós e que não depende dos homens tornar miserável aquele que sabe querer ser feliz”.
Com Camus estive na cidade de Orã, acompanhando a luta do Dr. Bernard Rieux contra a peste e a desinformação, como citado: -“...O que de resto, se tornava comum a todas as profecias era o fato de elas serem, finalmente tranquilizadoras. Só a peste não era.” - E a história se repete com a atual pandemia.
Com Kafka, aquele que o ex-ministro da (des.)educação confundiu com o prato árabe Kafta (carne moída em espetinho) acompanhei a Metamorfose de Gregor Samsa e o Processo injusto de Josef K., fruto de um governo autoritário.
Mas, um dia, tropecei, porque - “no meio do caminho tinha uma pedra; tinha uma pedra no meio do caminho..” , que ali foi deixada por Drummond e então me mandei prá Pasárgada com Bandeira, porque – “...lá sou amigo do rei – terei a mulher que eu quero, na cama que escolherei...” - E no barco da poesia, com Fernando Pessoa, descobri que –“O poeta é um fingidor. Finge tão completamente que chega fingir que é dor, a dor que veras sente.” Com os Lusíadas em suas caravelas andei “...por mares nunca dantes navegados...” e aportei na Ilha da Páscoa, com o povo Rapa Nui e Pablo Neruda: “...Não temas, esperamos que caia a chuva, nus, a mesma que cai sobre Manu Tara. Mas assim como a água endurece seus rasgos na pedra, sobre nós cai lavando-nos suavemente...” Foi a poesia que suavizou o coração.
Com Cícero, aprendi o sarcasmo através de suas “Catilinárias” e com Drucker e Welsh me inteirei do mundo dos negócios em uma democracia sustentada pelo capital.
Essas e outras mil vidas me trouxeram até aos dias de hoje, na busca de encontrar o melhor de mim, fazendo a minha parte na tentativa de criar um mundo melhor. Pois como diz a frase atribuída a Tolstoi: -“Todo mundo pensa em mudar o mundo, mas ninguém pensa em mudar a si mesmo”.
Obrigado Marcelo, por me propiciar todas essas lembranças e renovar minha certeza de que se cada um fizer o seu melhor, o mundo poderá se tornar um bom lugar para se viver.
Pense nisso
e bons negócios prá nós.
(No dia do Trabalho, em meio a pandemia)




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