AS CARTAS QUE AINDA RECEBO
- Carlos A. Buckmann
- 10 de nov. de 2025
- 3 min de leitura

AS CARTAS QUE AINDA RECEBO
Li, esta manhã, sob o silêncio raro de um domingo sem notificações, uma frase de Sêneca que me pareceu escrita não há dois mil anos, mas ontem, para mim:
“A verdadeira felicidade se encontra na prática da virtude, como a coragem, a justiça e a temperança.”
Não é um conselho ingênuo, nem uma moralidade rígida. É um diagnóstico existencial.
Sêneca, romano, dramaturgo, político, e, acima de tudo, filósofo estoico, sabia que a felicidade não é um estado que se alcança ao final de uma corrida por prazeres, mas um modo de caminhar. E caminhar com virtude, para ele, era viver em harmonia com a razão, com a natureza e consigo mesmo.
Vivemos em tempos que parecem negar essa harmonia. Somos bombardeados por promessas de felicidade instantânea: likes, compras, viagens, relacionamentos perfeitos editados em filtros. E, no entanto, quanto mais buscamos a felicidade como produto, mais ela se esvai, como água entre os dedos. É aí que o estoicismo de Sêneca ressurge, não como doutrina antiga, mas como antídoto contemporâneo.
A psicologia moderna, em sua busca por bem-estar além dos sintomas, tem redescoberto Sêneca.
Viktor Frankl, ao afirmar que o ser humano não busca o prazer, mas o “sentido”, (aconselho que leiam seu livro “EM BUSCA DE SENTIDO”), ecoa a ideia de que a virtude, isto é, o compromisso com valores superiores, é fonte de plenitude.
Já a Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC), em suas raízes filosóficas, dialoga diretamente com o estoicismo: ambos ensinam que não são os eventos que nos perturbam, mas as crenças que temos sobre eles, uma ideia central em Sêneca, Epicteto e Marco Aurélio.
Até mesmo a psiquiatria, em vozes como a de Irvin Yalom, reconhece que a ausência de valores vividos é um terreno fértil para a angústia existencial. A virtude, nesse sentido, não é moralismo, mas ancoragem.
A filosofia moderna, por sua vez, não abandonou essa trilha.
Foucault, em seus últimos cursos, resgatou as “práticas de si” da Antiguidade, entre elas, a escrita de si, a meditação sobre a morte, o exame diário da consciência, como tecnologias éticas para a formação de uma vida bela e verdadeira.
Pierre Hadot via a filosofia antiga não como teoria, mas como “exercício espiritual”: um modo de transformar a maneira de viver. E, nesse contexto, Sêneca brilha como mestre da interioridade, alguém que escrevia cartas não para ensinar, mas para cuidar: de si, de seus amigos, da alma humana em geral.
É nesse encontro entre antigo e atual que a psicofilosofia encontra seu lugar. Ela não repete Sêneca como dogma, mas o atualiza como prática viva.
Usa suas cartas como espelho para nossas ansiedades modernas: o medo do futuro, a escravidão do desejo, a ilusão do controle.
A psicofilosofia propõe exercícios inspirados no estoicismo, como a “premeditatio malorum” (imaginar o pior para se libertar do medo) ou a "dichotomy of control” (distinguir o que depende de nós do que não depende), não como técnicas frias, mas como gestos de cuidado consigo mesmo. Ela une a escuta empática da psicologia à exigência ética da filosofia, ajudando o indivíduo não apenas a “sentir-se melhor”, mas a “viver melhor”.
Nessa era de hiper conexão e desorientação, em que muitos se perdem entre o que querem e o que realmente valorizam, a psicofilosofia oferece um caminho de retorno: ao corpo, à razão, à responsabilidade, à serenidade.
Ela nos lembra que a coragem não é ausência de medo, mas escolha ética diante dele; que a justiça começa no modo como tratamos quem está ao nosso lado; que a temperança não é repressão, mas liberdade em relação ao excesso.
Não leia Sêneca como relíquia, mas como companheiro. Escreva sua própria carta, para si mesmo, para um amigo, para o mundo.
Pergunte-se, como ele fazia: “Estou vivendo de acordo com meus valores? Estou usando bem o tempo que me resta?”
Porque a verdadeira felicidade, como Sêneca sabia e como a psicofilosofia hoje reafirma, não está no que possuímos, mas no que somos quando ninguém está olhando.
Neste mundo barulhento, talvez a maior coragem seja escolher viver com virtude, não para ser admirado, mas para poder, ao fim do dia, olhar-se no espelho e dizer, em silêncio: “hoje, fui fiel ao que importa.”




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