APESAR DE VOCÊ
- Carlos A. Buckmann
- 19 de jun.
- 5 min de leitura

O GALO CANTA SEM PEDIR LICENÇA (*)
(Da Série A FILOSOFIA NA MPB)
Vivíamos sob o taciturno regime militar de 1964, quando o medo era uma segunda pele e a palavra, um ato de coragem.
Chico Buarque, como tantos artistas, teve suas canções submetidas ao crivo dos censores do DOI-CODI, homens de terno escuro e óculos fundo de garrafa, que riscavam versos com caneta vermelha como quem extirpa tumores.
Mas Chico aprendeu a arte da sobrevivência poética. Em “Cálice”, ele substituiu o "cale-se" pelo "cálice" bíblico, e a canção passou; os censores ouviram uma oração, o povo ouviu um grito. Em “Tanto Mar”, sobre a Revolução dos Cravos em Portugal, ele disfarçou em nostalgia de "mar" e "soldados", e a letra escapou.
Mas, “Apesar de Você” foi sua mais ousada artimanha: composta em 1970, gravada em 1977, a canção parecia, aos ouvidos obtusos da censura, uma simples desavença amorosa; "você" seria uma amante tirana. Mal sabiam eles que "você" era o regime, e o "amanhã" prometido era o dia em que a ditadura cairia.
A canção foi liberada e tornou-se um hino silencioso de resistência.
Como a esperança se insinua nas frestas do poder absoluto? Como um coro pode cantar apesar do silêncio imposto? A filosofia, com sua vocação para o universal, muitas vezes se esquece de que a resistência é concreta, cotidiana, quase anônima. Mas Chico, ao transformar a censura em matéria-prima poética, nos ensina que a opressão não é total, há sempre um verso que escapa, uma garganta que insiste.
“Hoje você é quem manda / Falou, 'tá falado / Não tem discussão, não”
A imagem do poder absoluto, aquele que não admite réplica.
Foucault, em “Vigiar e Punir”, descreveu o poder disciplinar que se exerce sobre os corpos e as vozes. Mas o poder de que Chico fala é ainda mais primitivo: é o poder da palavra definitiva, do "falou, tá falado" que encerra qualquer debate.
Hannah Arendt, em “A Condição Humana”, distinguia o poder da violência: o primeiro exige consentimento, a segunda apenas submete. O regime funde os dois: usa a violência para simular poder, e a população olha para o chão, porque erguer os olhos seria provocar.
“A minha gente hoje anda falando de lado / E olhando pro chão, viu”
Falar de lado, olhar para o chão: a coreografia do medo. São os "rituais de submissão", gestos cotidianos que reforçam a hierarquia.
Mas há um detalhe: a canção é narrada em primeira pessoa do plural, "a minha gente". Não é um eu solitário, é um nós que se reconhece no mesmo gesto de abaixar a cabeça. E nesse reconhecimento, já germina a resistência. A solidão é do opressor; a comunidade é do oprimido.
“Você que inventou esse estado / E inventou de inventar / Toda a escuridão / Você que inventou o pecado / Esqueceu-se de inventar / O perdão”
O "estado" aqui não é apenas o Estado com maiúscula, mas um estado de coisas, uma condição de escuridão que foi deliberadamente inventada. O verbo "inventar" ecoa a crítica de Nietzsche à moral como criação humana, mas com uma virada: se o opressor inventou o pecado, ele poderia ter inventado o perdão, mas não o fez.
É a má-fé do poder, que cria regras para punir e nunca para absolver. O perdão é uma ética do encontro. O regime, ao recusar o perdão, recusa a própria humanidade.
“Apesar de você / Amanhã há de ser outro dia”
A adversidade é reconhecida, mas não é obstáculo; é condição. O futuro não é dado, é construído. O "amanhã" prometido por Chico não é uma data no calendário, é um horizonte que se abre pela própria insistência em dizê-lo. A repetição da frase, três vezes no início, é um ato de linguagem que performa o que anuncia. Como na oração, a repetição cria realidade.
“Quando o galo insistir em cantar”
O galo é a natureza que não obedece ao decreto. Ele canta porque é sua essência, independentemente de quem manda. A filosofia estoica ensinava que há coisas que dependem de nós e coisas que não dependem; o canto do galo é da segunda categoria.
O regime pode silenciar os homens, mas não o galo, nem o sol, nem a água nova que brota. É a teimosia do ser, que insiste em existir mesmo quando a vontade de poder tenta anulá-lo.
“Água nova brotando / E a gente se amando sem parar”
A vida que flui apesar das barragens. Os fluxos que escapam aos territórios do poder. O amor, aqui, não é romantismo; é uma força material que desorganiza o controle. Amar sem parar é recusar a lógica da escassez, do racionamento de afetos que o regime impõe. É uma economia do excesso, onde a abundância é subversiva.
“Quando chegar o momento, esse meu sofrimento / Vou cobrar com juros, juro”
A promessa de cobrança com juros não é vingança, é justiça. A palavra "juro" é dupla: promessa e correção monetária do sofrimento. O "samba no escuro", a canção que foi cantada em silêncio nos porões, nos quintais será cobrado. O tempo do opressor não é eterno; ele tem prazo.
“Você que inventou a tristeza / Ora, tenha a fineza de desinventar”
A ironia é cortante. Se a tristeza foi inventada, pode ser desinventada, mas isso exige "fineza", uma elegância que o opressor não tem. É a argúcia do fraco, que devolve ao forte a responsabilidade pelo que criou.
Sócrates, no diálogo platônico, fazia perguntas que desmontavam as certezas do interlocutor; Chico faz o mesmo com o regime: se você é tão poderoso, desinvente o que fez. O silêncio do opressor é a resposta.
“O jardim florescer qual você não queria”
O jardim que floresce apesar da vontade do jardineiro-tirano. É a imagem mais bela da resistência: a beleza que se afirma independentemente do projeto de poder.
Chico nos mostra que, se a poesia é bárbara, mais bárbara é a tentativa de impedi-la. O jardim floresce, o galo canta, o dia raia, e tudo isso sem pedir licença. É a natureza (e a história) como agência própria.
“E eu vou morrer de rir / Que esse dia há de vir / Antes do que você pensa”
O riso não é alegria superficial; é o riso do filósofo Diógenes, que ria diante de Alexandre, o Grande. É o riso que desmonta o poder ao recusar levá-lo a sério. "Antes do que você pensa": o tempo do opressor é linear, progressivo, controlado. Mas o tempo da revolução é imprevisível, quântico, uma descontinuidade que irrompe. É o momento em que a ordem simbólica se rompe e o impossível se torna possível. Esse dia virá antes do que o regime pensa, porque o regime pensa na eternidade do seu poder, mas a história pensa em outra coisa.
“Como vai abafar / Nosso coro a cantar”
O coro é a multidão que se torna sujeito. Não é um indivíduo herói, é a coletividade que, ao cantar, se faz voz. O coro não pode ser abafado porque não tem um centro a ser silenciado; ele é uma dispersão que se une no canto. Cada voz é substituível, mas o conjunto é indestrutível.
Chico Buarque, com sua ironia e sua fé no amanhã, nos ensina que a arte não é apenas espelho da realidade; é também uma arma.
Ao escrever estas palavras décadas depois, sinto o peso da história e a leveza da certeza de que cada texto, cada canção, cada pensamento é um galo que insiste em cantar.
A ditadura caiu, o jardim floresceu, e o riso de Chico ainda ecoa.
Mas o que fica, para sempre, é a lição: apesar de qualquer "você", seja o Estado, seja o acaso, seja a morte, o amanhã há de ser outro dia.
Não porque o tempo passa, mas porque há quem cante para que ele passe.
Agora, junto minha voz ao coro.
Lá-lá-iá, lá-lá-iá.
(*) Assista o clipe no Youtube:




Comentários