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ALVORADA FILOSÓFICA

  • Carlos A. Buckmann
  • 1 de jun.
  • 3 min de leitura

ALVORADA FILOSÓFICA (*)

(Da série A FILOSOFIA NA MPB)

            Há um lirismo profundo na MPB que poucos percebem. Não é apenas melodia, é pensamento em estado de encantamento.

            Cartola, mestre do morro, conseguiu algo raro: aglutinar em poucos versos dois amores que a filosofia costuma separar, o amor à natureza, esse sentimento cósmico e sereno, e o amor “eros”, a chama que nos queima e nos guia. Um é como o sol que tinge o horizonte; o outro, como o mesmo sol que invade o quarto e desperta o corpo. Ambos são alvorada.

            “Alvorada lá no morro, que beleza / Ninguém chora, não há tristeza / Ninguém sente dissabor”

            Espinosa me ensinou que a alegria é o aumento da potência de agir. Nessa alvorada, a tristeza simplesmente não existe, não por negação, mas por plenitude. O morro, antes palco de dores, se transfigura. A beleza suspende o julgamento do mundo. É o que Nietzsche chamaria de estado dionisíaco: a natureza inteira vibra sem mágoa, sem ressentimento.

            Eu, cronista de mim mesmo, olho da janela e sinto que por um instante o dissabor é uma palavra esquecida.

            “O sol colorindo, é tão lindo, é tão lindo / E a natureza sorrindo, tingindo, tingindo”

            A repetição não é vício de poeta, é liturgia. O sol não apenas ilumina, ele tinge.

            Merleau-Ponty diria que o olhar já é participação: a cor não está lá fora, nasce no encontro entre o mundo e minha retina. E a natureza sorrindo, antropomorfismo?

            Talvez.

            Mas se o universo pode ser indiferente, também pode, em certas manhãs, parecer que sorri para mim. O “tingindo” se repete como um pincel que insiste na tela. Que filosofia maior que essa percepção pura, anterior a qualquer conceito?

            “Você também me lembra a alvorada / Quando chega iluminando / Meus caminhos tão sem vida”

            E o amor aparece. Não como metáfora forçada, mas como transbordamento: a mesma luz que doura o morro agora doura o rosto da musa.

             Platão, no “Banquete”, descreve a escada do amor: começa-se pelo belo de um corpo, depois de todos os corpos, depois das almas, das leis, das ciências, até o Belo em si.

            Cartola encurta o caminho: o Belo em si chegou de manhã e iluminou minha estrada morta. A alvorada e a amada são a mesma epifania.

            “E o que me resta é bem pouco / Quase nada, de que ir assim / Vagando numa estrada perdida”

            Heidegger diria que sou um ser-para-a-morte, lançado num mundo que não escolhi. Resta-me pouco: anos, fôlego, esperanças. E ainda assim vou “vagando numa estrada perdida”, expressão que dói de tão exata.

            Quantas manhãs acordei sem direção, apenas repetindo gestos? O quase nada é o fundo sobre o qual a alvorada precisa aparecer.

            “Alvorada.”

            A última palavra é a primeira. A canção se dobra sobre si mesma como um círculo. O lirismo de Cartola não é fuga, é coragem de olhar para o morro e para o rosto amado e ver a mesma potência.

            A MPB, quando filosofa, não cita Kant nem Hegel, ela mostra o sol nascendo, o amor chegando, e o quase nada se tingindo de tudo.

            Nessa alvorada, os dois amores se reconciliam: o cósmico e o erótico, o impessoal da natureza e o íntimo do beijo.

            Eu, que comecei falando de aglutinar, termino dissolvido.

            Porque quando o sol e a musa me iluminam, já não sei mais onde acaba a montanha e começa o peito.

            Sou apenas um homem que, por alguns minutos, ouviu Cartola e entendeu que a beleza não explica o mundo, ela o redime.

(*) Assista o clipe no Youtube:

 
 
 

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