A ÉTICA DO SUFICIENTE
- Carlos A. Buckmann
- 15 de dez. de 2025
- 4 min de leitura

A ÉTICA DO SUFICIENTE
Uma Crônica sobre a Tirania do Perfeito
Sento-me à janela, observando o artesão que molda a argila.
Ele não busca, no primeiro toque, a forma sublime que habita em sua imaginação; ele busca apenas o suficiente. O vaso, em sua fase inicial, é apenas bom: simétrico, estável, útil. A utopia do perfeito, essa imagem platônica inatingível, não é o ponto de partida, mas a névoa distante no horizonte.
A vida, percebo, opera sob a mesma lógica da aproximação. Se esperamos o momento em que todas as variáveis estejam alinhadas, o conhecimento completo, o recurso ilimitado, a inspiração divina, jamais sairemos da inércia. É preciso começar com o bom, com o aceitável, com o que é viável no aqui e agora.
O erro que vejo em tantos, e que me assombra em meus próprios projetos, é a confusão entre o ideal e o processo. A perfeição não é um ponto de chegada, mas um hábito evolutivo.
Pensemos na espiral hegeliana: a cada repetição do bom, a cada nova versão, a cada ajuste incremental, a cada crítica acolhida, a tese se aprimora, ascendendo a um novo patamar de excelência. O bom, repetido com intencionalidade, é o único caminho pragmático para o perfeito. A excelência, portanto, não é um salto de gênio, mas a consequência da disciplina do aprimoramento contínuo.
A história humana, em sua grandiosidade, é um testemunho dessa verdade. A invenção da lâmpada incandescente por Thomas Edison, por exemplo, não nasceu perfeita; foi o resultado de milhares de filamentos "bons o suficiente" que falharam. Cada falha boa levava à eliminação de uma hipótese, aproximando-o, passo a passo, do que hoje consideramos um artefato "perfeito" de iluminação.
Ou a própria democracia ateniense, que começou como uma experiência política "boa", mas cheia de exclusões, e que evoluiu ao longo de séculos, corrigida e refeita por gerações. O bom é a terra firme onde se pode construir o futuro.
E é neste ponto de minha meditação que recorro à voz aguda e irônica de um dos maiores espíritos do Iluminismo: François-Marie Arouet, ou simplesmente, Voltaire. Esse polemista, filósofo e ensaísta francês do século XVIII, cuja obra criticava o fanatismo e defendia a liberdade de expressão, era um mestre da clareza pragmática.
Ele compreendeu que o idealismo pode ser a mais insidiosa das paralisias. Por isso, cito-o com a convicção de quem já viu ruínas inteiras de projetos:
“Não deixe o perfeito ser o inimigo do bom.”
Voltaire não estava defendendo a mediocridade, mas a ação. Ele ecoa, em essência, o pensamento do estoicismo, que nos convida a agir no presente com as ferramentas disponíveis, e não a sonhar com a condição ideal.
O poeta romano Horácio já nos havia ensinado o Carpe Diem, a apreensão do dia, que se aplica à ética do trabalho: faça o que pode ser feito agora, e que é bom.
O perigo do perfeccionismo é que ele é, muitas vezes, uma procrastinação sofisticada, uma forma de medo de enfrentar a realidade imperfeita do mundo.
Recentemente, um consultor meu colega, foi chamado para auxiliar uma pequena startup de tecnologia. Eles tinham um produto funcional, mas a equipe vivia um ciclo de ansiedade destrutiva. O líder, um engenheiro brilhante, travava cada lançamento esperando a "interface perfeita", o "código sem um único bug", a "estratégia de marketing infalível". Em sua mente, o próximo passo só poderia ser dado após atingir uma perfeição utópica.
Seu produto era bom; estava gerando receita e resolvia o problema do cliente. Mas a tirania do seu Perfeito o impedia de lançar a versão 2.0.
A intervenção do consultor foi simples e, de certa forma, brutal:
"O seu concorrente," disse ao líder, "está lançando a versão 1.1, que é suficientemente melhor que a sua versão 1.0. Ele está colhendo dados reais, recebendo críticas e, com isso, está aprendendo. Você, na busca pela perfeição, está criando um produto teórico. O seu produto perfeito será lançado em um mercado que o seu concorrente já moldou com seu produto bom."
O consultor o forçou a adotarem a Filosofia do Mínimo Produto Viável Aprimorado. Não prometemos a eles a perfeição, mas o compromisso com a melhoria semanal. Lançaram a versão 1.1, depois a 1.2, corrigindo as falhas em público. Foi um processo desconfortável, mas real.
Hoje, essa empresa não é perfeita. Longe disso. Mas ela é muito melhor do que era. Seus processos são mais ágeis, seu código é mais robusto e sua equipe está mais saudável, pois substituíram a ansiedade paralisante pela energia da ação contínua.
A perfeição não é um salto de gênio, mas a consequência da disciplina contínua.
A busca pela excelência na cozinha, um hobby que tenho há tempos. como em qualquer domínio da vida, revela que o Perfeito é o inimigo da Ação. Ao invés de almejar a utopia culinária dos chefs e cair na paralisia, eu adotei a ética do Bom, concentrando-me na repetição deliberada e no aprimoramento incremental de um único prato.
Portanto, deixemos de lado a busca fantasiosa pelo Idealismo Puro. O Perfeito é o fantasma que assombra o caminho do Bom. Ele nos aprisiona no medo da crítica e na inação.
Seja na vida pessoal, na arte ou nos negócios, a verdadeira coragem reside em apresentar ao mundo algo que é bom o suficiente para existir, sabendo que a sua imperfeição atual é o terreno fértil para a perfeição futura.
Aja com o que você tem, seja bom no que pode ser, e o aprimoramento virá como consequência inevitável da sua persistência.
Não espere pelo agora ideal; comece com o agora possível.




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