top of page

A ÉTICA DO CUIDADO COMO RESPOSTA AO SOFRIMENTO HUMANO

  • Carlos A. Buckmann
  • 19 de out. de 2025
  • 3 min de leitura

A ÉTICA DO CUIDADO COMO RESPOSTA AO SOFRIMENTO HUMANO

            Há algo profundamente humano no gesto de inclinar-se diante da dor alheia. Não se trata apenas de compaixão, mas de uma postura ética: o cuidado.

            Enquanto o mundo acelera, fragmenta e instrumentaliza as relações, o sofrimento humano persiste, silencioso, às vezes invisível, mas sempre presente. Ele não pede apenas alívio; pede testemunho. E é nesse testemunho que o cuidado se revela não como piedade, mas como responsabilidade.

            A psicologia, ciência do psiquismo, enxerga o sofrimento como sintoma de um desequilíbrio interno ou relacional.

            Para Freud, o sofrimento é o preço que pagamos por viver em sociedade; renúncias pulsionais que geram mal-estar.

            Já Carl Rogers, com sua abordagem humanista, via no sofrimento um sinal de desconexão entre o eu real e o eu ideal, e propunha a empatia, a aceitação incondicional e a autenticidade como caminhos de cura.

            A psiquiatria, muitas vezes o traduz em categorias diagnósticas: depressão, ansiedade, transtorno de estresse pós-traumático. Seus remédios são precisos, seus protocolos salvadores, mas, por vezes, reduzem a complexidade existencial do sofrimento a um desvio bioquímico.

            Ambas, em seus méritos, correm o risco de tratar o sofrimento como um problema a ser resolvido, e não como uma dimensão constitutiva da condição humana.

            A filosofia, desde seus alvores, nunca se esquivou da dor. Epicuro via o sofrimento como inimigo da ataraxia, a serenidade da alma, e propunha uma vida simples, guiada pela amizade e pela moderação.

            Mas foi com os estoicos que o sofrimento ganhou estatura ética: não se trata de eliminá-lo, mas de transformá-lo em matéria para a virtude. “Não são os acontecimentos que nos perturbam”, dizia Epicteto, “mas as opiniões que temos sobre eles.” 

            Já Schopenhauer, pessimista lírico, via no sofrimento a essência da vontade cega que nos impulsiona, e na compaixão, a única redenção possível.

            Mais recentemente, Emmanuel Levinas elevou o sofrimento do outro à categoria de imperativo ético: o rosto do outro me interpela, me exige responsabilidade antes mesmo de eu escolher. Não posso fechar os olhos à sua dor sem trair minha própria humanidade. Para Levinas, a ética nasce justamente nesse encontro com a vulnerabilidade alheia.

            Nesse entrelaçamento entre compreensão clínica e exigência ética a psicofilosofia se insurge como resposta contemporânea ao sofrimento. Ela não se contenta em diagnosticar nem em apenas interpretar; busca acompanhar. A psicofilosofia entende o sofrimento como linguagem, uma forma de expressão do que ainda não encontrou palavras, conceitos ou acolhimento. Inspirada na fenomenologia de Husserl e na ética de cuidado de Carol Gilligan, ela propõe uma escuta que não julga, que não apressa a cura, mas que permanece, presente, atenta, humana. 

            Na prática, isso significa tratar o sujeito não como um caso clínico, mas como um narrador de si mesmo.

            Significa integrar os insights da psicologia (os mecanismos de defesa, os traumas, os afetos) com as perguntas filosóficas fundamentais: Por que sofro? O que esse sofrimento revela sobre meus valores, meus laços, meu lugar no mundo? A psicofilosofia não oferece respostas prontas, mas ajuda a formular as perguntas certas, aquelas que libertam, em vez de aprisionar.

            Numa sociedade marcada pela indiferença estrutural, pela medicalização acelerada da dor e pela solidão digital, a psicofilosofia surge como um antídoto ético.

            Ela nos lembra que cuidar não é consertar, mas reconhecer. Que o sofrimento, quando testemunhado com dignidade, pode se transfigurar em sentido. E que, mais do que técnicas ou teorias, o que cura é a presença, essa coragem de estar com o outro em sua fragilidade, sem desviar o olhar.

            Diante do sofrimento, seja o seu, seja o do outro, não busque apenas soluções. Busque presença. Escute. Permaneça. Porque, no fim, não somos salvos por remédios ou racionalizações, mas por aqueles que ousam dizer, com o silêncio e com o olhar: Estou aqui. Você não está sozinho.

            Nesse gesto mínimo, repetido milhões de vezes ao redor do mundo, reside a mais alta forma de ética.

            Talvez, também, a única esperança verdadeira.

 
 
 

Comentários


CONTATO

Porto Alegre, RS 

​​

Tel: (51) 9 9259-6364

Skype: betobuckmann​

betobuckmann@yahoo.com.br

Nós recebemos a sua mensagem, aguarde contato.

  • LinkedIn - Círculo Branco
  • Facebook - Círculo Branco
  • Instagram - White Circle
  • YouTube - Círculo Branco

© 2023 por Hugin. Criado orgulhosamente com Wix.com

bottom of page