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A ÁGUA ESTÁ SUJA

  • Carlos A. Buckmann
  • 10 de ago. de 2025
  • 3 min de leitura

A ÁGUA ESTÁ SUJA

            Há um desencanto no ar, denso como névoa de outono. Caminho pelas ruas da cidade e sinto o peso de um tempo em que a política se tornou um teatro de sombras, onde os atores mudam, mas a encenação permanece a mesma. Os políticos que hoje dominam o cenário nacional não parecem governar, mas sobreviver, sobreviver do poder, da retórica vazia, do consenso fácil. E o povo? O povo aplaude. O povo grita. O povo escolhe. E depois, como um coro desafinado, reclama da farsa que ajudou a montar.

            Penso nisso enquanto leio, novamente, Um Inimigo do Povo, de Henrik Ibsen. Não é apenas uma peça do século XIX. É um espelho. Um espelho que nos mostra não apenas os políticos, mas a nós mesmos, o povo, a maioria, a massa que se agita com o vento da conveniência. O dr. Stockmann, aquele homem de consciência aguda, descobre que a água do balneário, fonte de riqueza e orgulho da cidade, está contaminada. Ele, o cientista, o homem da verdade, acredita que basta revelar o fato para que todos se unam em nome do bem comum. Como é ingênuo o idealismo frente à máquina do interesse!

            Mas a verdade, descubro com o tempo, raramente é bem-vinda. Ela incomoda. Ela desorganiza. Ela exige coragem, e coragem é um luxo que poucos podem pagar. O irmão do dr. Stockmann, o prefeito, representa o poder institucional: não quer a verdade, quer a ordem. O jornal, antes defensor da liberdade de expressão, recua quando percebe que a verdade pode arruinar a economia local. A população, então, que antes o saudava como herói, o lincha moralmente. Na assembleia pública, o médico é silenciado não por argumentos, mas por vozes, vozes em coro, vozes de indignação falsa, vozes que não querem saber, apenas querem continuar acreditando na ilusão.

            E não é exatamente isso o que vejo hoje? Políticos que mentem com sorrisos de convicção, prometendo salvação em troca de silêncio; jornais que chamam de “notícia” aquilo que é apenas eco do poder; e um povo que, diante da verdade incômoda, prefere o conforto da mentira. Porque a verdade tem um preço: exige mudança. Exige responsabilidade. Exige que olhemos para dentro, e não apenas para fora.

            O dr. Stockmann é chamado de inimigo do povo. Mas quem é o verdadeiro inimigo? Aquele que revela a podridão sob o asfalto ou aqueles que a mantêm escondida para não perder o prestígio, o emprego, o voto? A peça de Ibsen nos mostra que a maioria não é sinônimo de justiça. A maioria é, muitas vezes, apenas o rebanho que segue o pastor mais barulhento, mesmo que ele o conduza ao abismo.

 

            No mundo todo (inclui-se o Brasil), hoje, a desconexão com a realidade é total. Vivemos em bolhas de indignação seletiva, onde a verdade é negociável, onde o fato é submetido ao sentimento, onde o debate é substituído pelo grito. E assim, como na cidade de Ibsen, quem ousa falar o que é óbvio, que a água está suja, que o sistema está podre, que a corrupção é estrutural, é apedrejado, excluído, cancelado. Não porque está errado, mas porque incomoda.

            Eis o paradoxo: os políticos não são o problema. Eles são o espelho. São a materialização do nosso medo, da nossa complacência, da nossa incapacidade de suportar a verdade nua e crua. Quando elegemos o pior, não é por ignorância, é por conveniência. Preferimos o líder que nos diz o que queremos ouvir ao que precisamos ouvir. Preferimos o espetáculo à substância, o vilão ao profeta.

            O dr. Stockmann termina a peça cercado por sua família e por uma pequena minoria. Rejeitado, sim. Mas íntegro. Convicto. Sozinho, talvez. Mas não vencido. Porque a verdade não precisa da maioria para existir. Ela basta a si mesma. Eu me basto a mim mesmo.

            Caminhando por esta cidade que insiste em beber água turva, pergunto: onde estão os poucos que ainda ousam dizer que a água está contaminada? E mais: terei coragem de escutá-los, se um dia baterem à minha porta?

            Talvez o maior inimigo do povo não seja quem fala demais, mas quem cala em nome da paz. E talvez, só talvez, a salvação comece não com um herói, mas com um único homem que, diante da multidão, tem a coragem de dizer: a água está suja.

Beto Buckmann

Crônicas entre ideias e pólvora.

 
 
 

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