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A VIDA COMO CONSULTÓRIO DIÁRIO

  • Carlos A. Buckmann
  • 1 de nov. de 2025
  • 3 min de leitura

A VIDA COMO CONSULTÓRIO DIÁRIO

            Há algo profundamente desumanizador, ainda que involuntário, em cruzar a soleira de uma sala de consultório psicológico.

            Não é o profissional que me intimida, mas o próprio espaço: as paredes neutras que parecem absorver toda cor da alma, à meia-luz que esconde mais do que acolhe, a poltrona “para o paciente” posicionada como quem deve confessar, enquanto a do terapeuta ergue-se em silêncio de autoridade.

            O relógio marca o tempo como mercadoria; o diploma na parede, o saber como poder. E ali, naquele ambiente fechado, esterilizado de vida, sou convidado a falar da minha dor mais viva, como se o sofrimento coubesse entre quatro paredes que jamais ouviram o vento, o riso de uma criança ou o barulho da chuva.

            A psicologia tradicional, por décadas, naturalizou esse cenário como “neutro” e “profissional”. Mas será neutro um espaço que reproduz hierarquias? Será acolhedor um lugar que isola o sujeito do mundo justamente quando ele mais precisa se sentir parte dele?

            Psiquiatras como Franco Basaglia, na Itália, já denunciavam nos anos 1970 como os ambientes clínicos, manicômios, consultórios, hospitais, funcionavam como dispositivos de exclusão, não de cura.

            Já psicólogos comunitários e críticos, como Ignacio Martín-Baró, insistiam que o sofrimento psíquico não pode ser tratado fora do contexto social que o produz. E mesmo Winnicott, com sua sensibilidade única, sabia que o “ambiente facilitador” não é um espaço fechado, mas um espaço de encontro com a realidade, onde o sujeito possa experimentar a si mesmo sem medo de desmoronar.

            A filosofia, por sua vez, sempre desconfiou dos templos do saber que se fecham ao mundo.

            Foucault mostrou como o consultório psiquiátrico é herdeiro da confissão religiosa: um lugar onde se exige a verdade do sujeito, mas sob as regras de um saber que o julga.

            Heidegger diria que, ao isolar o ser humano de seu “mundo-vivido” (Lebenswelt), a sala de consultas o arranca de sua própria existência, justamente o oposto do cuidado.

            E Nietzsche, com sua irreverência lúcida, zombaria da ideia de que a verdade da alma possa florescer num quarto sem janelas. Para ele, a saúde da alma exige luz, ar, movimento, espaço para respirar.

            É aí que a psicofilosofia rompe com o ritual opressor da clínica fechada. Ela não rejeita o consultório por capricho, mas por ética: sabe que o trauma muitas vezes é uma prisão simbólica, e que trancar o sujeito num cômodo silencioso pode reforçar essa prisão, em vez de libertá-lo.

            Por isso, a psicofilosofia propõe outra geografia do cuidado: a conversa transformadora pode acontecer num banco de praça, sob a sombra de uma árvore que testemunha gerações; numa mesa de café, onde o barulho do cotidiano lembra que a vida continua; numa caminhada lenta por um parque, onde o corpo se move enquanto a alma fala. Nesses espaços, o sujeito não é “paciente”, mas coautor da cura. O terapeuta não está “acima”, mas ao lado, caminhando, olhando o mesmo horizonte, compartilhando o mesmo mundo.

            Tratar fora da sala de consultório não é informalidade, é reconexão ontológica. É devolver ao traumatizado a sensação de que ele pertence à vida, não apenas à sua dor. É lembrá-lo, com cada passo, com cada gole de café, com o canto de um pássaro ao fundo, de que o mundo ainda é habitável, e que ele tem lugar nele. A rua, o parque, o café, o rio, todos se tornam coterapeutas, porque todos falam a linguagem da existência comum.

            Numa época em que o sofrimento psíquico é massificado, medicalizado e privatizado, a psicofilosofia resgata o cuidado como ato comunitário, aberto, político. Ela recusa a ideia de que a cura deva ser cara, rara, escondida. Propõe, em vez disso, que a sabedoria curativa está na vida, e que basta, às vezes, sentar-se com alguém que escute, num lugar onde o céu ainda é visível.

Por isso, você que já entrou em consultórios e saiu mais só do que entrou: Não é você que falhou.  Foi o espaço que não soube acolher sua humanidade inteira. 

            E digo a todos os que cuidam: Não tenham medo de sair das salas.

            E se os doutores me perguntarem: - Como fazer isso? – Respondo: Se todos esses anos de estudos que você teve e praticou, não te derem a resposta, então você não aprendeu nada.

            Levem suas perguntas para o mundo. 

            Porque a cura não habita no silêncio estéril, habita no encontro real, 

na luz do dia, na imperfeição viva do cotidiano. 

            A vida não é o oposto do sofrimento, é o seu único lugar possível de transformação. 

            Então, fechemos menos portas.  Abramos mais janelas. 

            E, sobretudo, caminhemos juntos, não para dentro de uma sala, mas para dentro do mundo. Porque o verdadeiro consultório já estava aqui: na rua, no olhar, no silêncio compartilhado sob um céu que não julga, apenas acolhe.

 
 
 

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