top of page

A VEZ DO MORRO

  • Carlos A. Buckmann
  • 27 de mai.
  • 3 min de leitura

A VEZ DO MORRO (*)

(Da série A FILOSOFIA NA MPB)

            Tom Jobim e Vinicius de Moraes: a parceria que deu ao mundo a doçura de Ipanema e a profundidade das águas de março.

            Mas Vinicius, o poetinha, não era apenas o lírico das musas douradas. Ele também tinha o olhar mordaz, a crítica afiada. Em 1963, para a peça “Orfeu da Conceição”, nasceu “O Morro Não Tem Vez”. Não é uma canção para dançar apenas; é uma canção para pensar a exclusão. A MPB, nesse momento, mostrava que a filosofia pode vestir o couro do tamborim.

            “O morro não tem vez”

            Começa pela negativa. O morro, a favela, o lugar do pobre, do negro, do sambista, não tem vez na cidade. Não tem vez no asfalto, não tem vez na política, não tem vez na imprensa.

            Foucault, ao analisar as relações de poder, mostrou que o discurso dominante silencia as vozes marginais. O morro é o grande silenciado. Mas Vinicius não aceita o silêncio: ele o anuncia para depois subvertê-lo.

            “E o que ele fez já foi demais”

            O que ele fez? O samba, a bateria, a poesia das latas e dos tambores. A cultura que brota do barro, da madeira, do suor. O morro deu à cidade o que ela não sabia que precisava: ritmo, alegria, resistência.

            Hegel, na dialética do senhor e do escravo, mostra que é o escravo quem trabalha e produz a cultura. O morro é o escravo que já deu demais, e ainda assim continua sem vez.

            “Mas olhem bem vocês / Quando derem vez ao morro / Toda a cidade vai cantar”

            A advertência. “Olhem bem”, como quem aponta para o óbvio que a elite finge não ver. Se derem vez ao morro, se permitirem que sua voz ecoe, que sua cultura ocupe os espaços, o resultado não será caos, será festa. Toda a cidade vai cantar.

            É a utopia de uma cidade integrada, onde o asfalto e o morro se reconhecem. Ernst Bloch, o filósofo da esperança, chamaria isso de princípio esperança: a antecipação de um mundo mais justo que já se anuncia na arte.

            “Morro pede passagem / Morro quer se mostrar”

            Pedir passagem é um gesto de quem está comprimido. O morro não invade; pede licença. Mas o pedido já é um ato político. Quer se mostrar, não como problema, como folclore, como notícia de jornal policial. Quer se mostrar como potência criadora. O morro reivindica o direito de ser visto e ouvido naquilo que tem de mais próprio: sua arte, seu ritmo, sua vida.

            “Abram alas pro morro / Tamborim vai falar”

            “Abram alas”, expressão do carnaval, quando a passista anuncia a bateria. O tamborim, instrumento pequeno, de som agudo, é a voz que fura o silêncio. É a microfísica da resistência: cada tamborim é um indivíduo, mas juntos eles formam uma parede sonora.

            Deleuze e Guattari falariam do “devir-menor” da música, quando o instrumento marginal se torna o centro da expressão.

            “É 1, é 2, é 3, é 100 / É 1000 a batucar”

            A contagem é a própria multidão. Começa no um, o morro, a pessoa, e se multiplica exponencialmente. Mil a batucar. Não é um grito, é uma enchente rítmica. A batucada não precisa de permissão; ela simplesmente existe. E quando existe, ela transforma o espaço.

            Bachelard, em “A Poética do Espaço”, fala da “felicidade do espaço íntimo”. A batucada cria um espaço íntimo coletivo, o morro inteiro torna-se uma casa que pulsa.

            “O morro não tem vez / Mas se derem vez ao morro / Toda a cidade vai cantar”

            O refrão, a repetição, é um encantamento. É a afirmação de que a exclusão não é natural, é política.

            “Se derem vez”, condicional. A cidade ainda precisa escolher: continuar com o morro às margens, ou abrir as alas e cantar junto. Benjamin, no “Anjo da História”, descreve a catástrofe acumulada sob os pés do anjo. O morro é essa catástrofe. Mas a canção de Tom e Vinicius é um convite para que o anjo pare de olhar para trás e finalmente escute o tamborim.

            Tom e Vinicius, dois homens do asfalto, da zona sul, olharam para o morro e não tiveram medo. Não idealizaram a pobreza; denunciaram a injustiça.

             “O Morro Não Tem Vez” é uma filosofia em compasso binário: o samba denuncia, o samba anuncia. O morro não tem vez, mas se um dia tiver, a cidade inteira vai reconhecer que a beleza que ela tentou calar era a única que poderia salvá-la. E enquanto esse dia não chega, o tamborim continua falando.

             É 1, 2, 3, 100, 1000 a batucar.

            Eu, cronista, só peço: abram alas.

(*) Assista o clip no YouTube

 

 
 
 

Comentários


CONTATO

Porto Alegre, RS 

​​

Tel: (51) 9 9259-6364

Skype: betobuckmann​

betobuckmann@yahoo.com.br

Nós recebemos a sua mensagem, aguarde contato.

  • LinkedIn - Círculo Branco
  • Facebook - Círculo Branco
  • Instagram - White Circle
  • YouTube - Círculo Branco

© 2023 por Hugin. Criado orgulhosamente com Wix.com

bottom of page