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A VERTIGEM DA DECISÃO

  • Carlos A. Buckmann
  • 15 de dez. de 2025
  • 4 min de leitura

A VERTIGEM DA DECISÃO

Entre a Escolha e o Peso

            Acordei.

            O relógio biológico, esse tirano silencioso, me traiu meia hora antes da hora combinada. Instintivamente, o braço buscou o pequeno emissor de luz azul sobre a mesinha de cabeceira: 3h30. O corpo estava desperto, mas a mente ainda flutuava no limbo da indecisão primordial. Levanto-me agora e ganho o silêncio da madrugada, ou me submeto à tortura de tentar rearrumar o sono, arriscando acordar atrasado, já vencido pela pressa?

            Uma pequena, mas já existencial, escolha. Levantei-me.

            Direto ao banho. Um rito que adquiri nos tempos de faculdade: a água fria como um corte, um batismo matinal que “tira a cama do corpo” e, ironicamente, me joga no abismo da vigília.

            Estou esperto ou desperto? A sutileza da linguagem esconde a urgência do ser. A roupa do dia, selecionada na noite anterior, aguardava no banheiro, mais uma escolha preordenada, um alívio momentâneo da necessidade de decidir.

            Em seguida, a peregrinação à cozinha para o chimarrão da madrugada, esse hábito ancestral. O rito da escolha se manifestou na seleção da cuia: grande, média ou pequena? Olhei o pote de reserva de erva-mate, quase vazio. Se eu escolhesse a grande, teria que ir ao mercado mais tarde. Escolha: o prazer imediato do mate abundante versus o incômodo futuro da compra. "Azar!", decidi. Acordei mais cedo, mereço a cuia maior. A pequena transgressão do planejamento em nome de um prazer efêmero.

            Mate feito, vamos ao PC. Começa a verdadeira jornada. O tempo se alonga em um ciclo de matear, pensar, escrever. Pensar, escrever e matear. O tema para a crônica, a tela em branco, o vazio a ser preenchido. Em meio a esse turbilhão de possibilidades, uma voz ressoou, trazendo o tema do dia para a ponta dos meus dedos: Jean-Paul Sartre.

            “Viver é isto: ficar se equilibrando o tempo todo entre escolhas e consequências.”

            Essa frase carrega o cerne da Filosofia Existencialista, da qual Sartre (1905–1980) foi um dos maiores arautos. Para o filósofo francês, o ser humano é, antes de tudo, liberdade. A existência precede a essência. Não nascemos com um manual de instruções; somos jogados no mundo e, a partir desse abandono, somos compelidos a inventar a nós mesmos a cada instante através de nossas escolhas. Não há Deus, nem destino que nos absolva dessa responsabilidade. Estamos condenados a ser livres. A cada escolha, não escolhemos apenas para nós, mas projetamos o tipo de humanidade que acreditamos ser válida.    

            Essa vertigem da decisão não é reservada aos grandes dramas históricos; ela se infiltra em tudo. Desde a cuia de chimarrão até o compromisso ético.

            Na sociedade moderna, o impacto é avassalador. O desenvolvimento da humanidade não é uma linha reta; é a soma caótica de bilhões de escolhas individuais. A ciência avança porque um pesquisador escolhe a hipótese mais arriscada. A ética social evolui quando o indivíduo escolhe a solidariedade em detrimento do conforto egoísta.

            A ideia de que somos definidos pelo que fazemos, e não pelo que somos supostamente, ecoa em outros pensadores. Aristóteles, em sua ética, já apontava que a virtude é um hábito, uma escolha constante pelo meio-termo, sendo o nosso caráter forjado pelo acúmulo de nossas ações.

            Mais tarde, Fiódor Dostoiévski exploraria o peso moral dessa liberdade, mostrando em seus romances que, se tudo é permitido, a carga sobre a consciência humana se torna insuportável

            Lembro-me de uma negociação recente, um exemplo cristalino de como a inação é, ela própria, uma decisão com consequências amargas. Meu cliente, um diretor de uma média empresa, hesitava em contratar um treinamento crucial para sua equipe de vendas, que demonstrava sinais claros de desmotivação.

            Eu lhe apresentava a proposta, as métricas de retorno, o custo da incompetência emocional no atendimento ao cliente. Ele ouvia, ponderava, acenava com a cabeça e concluía, sempre com um suspiro:

            "Está excelente, mas vamos deixar para o próximo trimestre. Agora, o caixa está apertado. Não é o momento de fazer essa escolha."

            A não-escolha dele foi a decisão de manter o “status quo”. A consequência foi imediata, mas silenciosa: a perda de “momentum” da equipe, a continuação do desinteresse, e meses depois, a debandada de dois de seus melhores vendedores para um concorrente que, ironicamente, investia pesadamente em desenvolvimento humano. A inação, o ato de adiar a liberdade, resultou no fardo da perda.

            A história é o palco de consequências monumentais advindas de escolhas agudas:

            A escolha de César ao cruzar o Rubicão, um ato de desobediência que selou a passagem da República para o Império Romano.

            A escolha de Martin Luther King Jr. em confrontar a violência com a resistência não-violenta, redefinindo o caminho da justiça civil.

            A escolha de líderes em 1945 de liberar o poder nuclear, abrindo a "era atômica" e nos legando a sombra da autodestruição.

            Em cada caso, o indivíduo, ou o coletivo, confrontou a contingência do mundo e, pela afirmação da vontade, reescreveu o futuro. O ato de não escolher, de se refugiar na desculpa da "falta de tempo" ou do "caixa apertado", é a escolha de ser arrastado pelas circunstâncias, de negar a própria humanidade. É a má-fé sartreana, fugir da liberdade que nos define.

            Ergo a cuia para o último gole, um ato final de contemplação. A cuia está leve. O mate, quase findo. O vapor se dissipa, mas o pensamento permanece denso.

            A vida é, de fato, essa corda bamba onde cada passo é uma decisão, e o vento, a consequência. Não há repouso. O otimismo, no fim, não reside na promessa de um futuro fácil, mas na aceitação corajosa da nossa liberdade radical.

            A crônica está pronta. É o resultado de ter escolhido levantar-me às 3h30, de ter escolhido a cuia grande, de ter escolhido Sartre. São essas escolhas pequenas e grandes, a cada gole, a cada palavra digitada, que tecem a trama da vida.

            O desafio, e a beleza, é seguir se equilibrando.

            E amanhã, inevitavelmente, às 3h30, haverá uma nova escolha.

 

 
 
 

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