A SÍNTESE DO INFINITO
- Carlos A. Buckmann
- 29 de mai.
- 3 min de leitura

A SÍNTESE DO INFINITO (*)
(Da série A FILOSOFIA NA MPB)
Admiro, de verdade, a capacidade de síntese dos nossos poetas populares. Nelson Cavaquinho, em poucos versos, nos entrega uma filosofia inteira, cosmogonia, ética e esperança, tudo num samba de menos de dois minutos.
Enquanto certos filósofos escrevem mil páginas para dizer que o ser é o que é, Nelson resolve a questão com o sol e o amor. Não é pouca coisa.
Ele não teve academia, é verdade. Mas a sabedoria não mora nas bibliotecas. Mora no quintal, na varanda, no morro, no suor da noite. Nelson escutava a vida. E a vida, quando bem escutada, fala em versos. A MPB está cheia desses filósofos sem diploma: Cartola, Noel, Adoniran, Chico Buarque. Todos eles, com suas dores e sambas, nos ensinam o que Hegel tentou nos dizer em três volumes.
“O sol há de brilhar mais uma vez / A luz há de chegar aos corações”
Comecemos por aí. O sol, aqui, não é apenas o astro. É a imagem da repetição necessária.
Heráclito já sabia: o sol é novo cada manhã, mas também é sempre o mesmo. A esperança de Nelson está nesse “mais uma vez”. Não importa a noite que passou, e ele conhecia noites. A luz não é castigo, não é juízo no sentido de condenação. É revelação. Chegar aos corações significa que o conhecimento do bem, finalmente, não será apenas externo, mas íntimo. Como Espinosa diria: a alegria é a passagem para uma perfeição maior. E a luz é essa passagem.
“Do mal será queimada a semente”
Nelson toca num tema caro a todos que pensam o sofrimento: a origem do mal. Ele não fala em podar os frutos, nem em cortar os galhos. Fala em queimar a semente. É radical. É agostiniano: o mal não tem substância, é privação do bem. E privação pode ser extirpada na raiz.
Mas Nelson vai além: a queimada é purificação, não vingança. O fogo que destrói a semente do mal é o mesmo fogo que aquece o amor. Ele nos lembra que não adianta lutar contra os efeitos; é preciso transmutar a origem.
“O amor será eterno novamente”
Essa palavra, “novamente”, é a chave. O amor não surge agora como novidade. Ele retorna.
Platão, no “Banquete”, disse que o amor é o desejo de posse eterna do bem. Nelson, com sua sabedoria de sambista, diz o mesmo: o amor já foi eterno um dia, antes do desamor, antes da maldade. E será outra vez. A eternidade, para ele, não é um tempo sem fim. É a qualidade de um instante que não passa. É o que os místicos chamam de nunc aeternitatis, o agora eterno.
“É o juízo final / A história do bem e do mal”
Mas que juízo final é esse, Nelson? Não é o dos anjos com trombetas, não é o de um Deus vingador. É o juízo que acontece dentro de cada coração quando a luz finalmente chega.
Kant falava em tribunal da razão prática. O sambista fala em samba. O juízo final, aqui, é o momento em que a história, toda ela, se revela como aprendizado. O bem e o mal já não serão duas forças opostas; o mal terá sido apenas o estágio anterior à queima da semente. É a “aufhebung” hegeliana, a superação que conserva. O amor guarda o que valeu a pena.
“Quero ter olhos pra ver / A maldade desaparecer”
Que declaração bela e terrível. O poeta não quer lutar, não quer vencer, não quer se vingar. Ele quer ver. Ver a maldade desaparecer. Isso é sabedoria pura: o desejo de ser testemunha, não carrasco.
Simone Weil escreveu que a atenção é a forma mais rara e pura da generosidade. Nelson Cavaquinho, sem nunca ter lido Weil, teve olhos de atento. Quem vê a maldade sumir já está, nesse mesmo ato, fora dela. Os olhos limpos são a primeira vitória.
Num punhado de versos, Nelson nos dá mais lição do que muitos compêndios.
O sol voltará a brilhar, não apesar das sombras, mas porque as sombras são o seu contraste. A luz chegará aos corações, não como castigo, mas como memória antiga. O amor será eterno novamente, não pela força, mas pela queima da semente do mal.
Como é possível tamanha filosofia em tão poucas palavras?
Só quem escutou o silêncio entre as notas, só quem viveu a noite na espera da claridade, só quem carregou o samba como quem carrega um evangelho.
Nelson Cavaquinho, analfabeto em letras, doutor em existência. Deixou-nos o juízo final não como fim, mas como começo: o sol que brilha mais uma vez, o amor que recomeça.
Eu apenas desejo ter olhos para ver.
E você?
(*) Assista o clipe no YouTube




Comentários