A SOMBRA E A LUZ
- Carlos A. Buckmann
- há 1 dia
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A SOMBRA E A LUZ
(Da série RETORNO AO CAFÉ ENTRE FLUXOS)
Naquela madrugada, o salão do Café tinha a textura de um divã que se recusava a ser apenas um móvel. As paredes de um azul desbotado pareciam respirar lentamente, como se o próprio edifício estivesse em análise. Cada mesa tinha uma pequena lâmpada de abajur verde, cuja luz caía em círculos perfeitos, como se cada conversa fosse um palco isolado, uma ilha de consciência no mar do inconsciente.
A música, uma valsa de Strauss, Danúbio Azul, mas tocada tão lentamente que as notas pareciam gotas de um soro que pinga em uma veia. Era a música do tempo que se arrasta, do desejo que se adia, da memória que volta sempre ao mesmo lugar.
Numa mesa de canto, um homem de monóculo lia um jornal cujas manchetes mudavam a cada segundo, como se o futuro estivesse sendo escrito naquele instante. Em outra mesa, uma mulher de cabelos ruivos desenhava retratos de pessoas que não estavam ali e cada retrato tinha os olhos vendados. Perto da estante, onde havia livros que respiravam filosofia, um menino montava um quebra-cabeça cujas peças se encaixavam em qualquer ordem, formando sempre a mesma imagem: um labirinto sem saída.
Sigmund Freud chegou como quem já sabe que a pontualidade é uma forma de controle. Seu paletó escuro, seu charuto apagado entre os dedos, seus olhos que pareciam dissecar cada movimento; tudo nele era um diagnóstico. A barba grisalha, o olhar penetrante, a mão que gesticulava como se estivesse desenterrando segredos.
Sentando-se com a autoridade de quem fundou uma ciência, fez um diagnóstico do Café:
“O cheiro de repressão, do que não foi dito, do que foi esquecido, do que foi enterrado vivo. Até as xícaras aqui parecem ter complexos.”
Viktor E. Frankl chegou em silêncio, como quem já aprendeu que o barulho é um luxo de quem nunca enfrentou o silêncio dos campos. Seu rosto era um mapa de sofrimento transformado em sabedoria. As rugas ao redor dos olhos não eram marcas de idade, mas de perguntas que haviam sido respondidas pelo silêncio. Vestia um terno simples, e seus olhos tinham a calma de quem já viu o abismo e descobriu que o abismo também pode ser habitado.
“Doutor Freud”, disse Frankl, sentando-se com a lentidão de quem mede cada gesto, “o senhor fala em repressão. Eu falo em sentido. Talvez o cheiro que o senhor sente não seja de repressão, mas de busca.”
Servi a Freud, um café preto, amargo como suas descobertas; a Frankl, um chá de camomila, que ele aceitou com um sorriso quase imperceptível.
Freud acendeu o charuto, a fumaça subia em espirais que se desfaziam antes de chegar ao teto.
“O sentido, Frankl? O senhor fundou uma psicologia baseada no sentido, como se o sentido fosse uma substância que pudesse ser encontrada no fundo de um poço. Eu passei a vida mostrando que o que chamamos de sentido é apenas uma racionalização, um disfarce para desejos mais profundos, mais primitivos, mais inconfessáveis. O senhor acredita que o homem busca sentido; eu acredito que o homem busca prazer e chama de sentido para não se assustar.”
Frankl tomou um gole de chá, e o gesto era tão medido quanto uma sessão de análise.
“O senhor tem razão, doutor Freud, em parte. O homem busca prazer. Mas o senhor esqueceu que o homem também busca significado. Eu estive em Auschwitz, doutor Freud. Eu vi homens e mulheres que perderam tudo: família, bens, esperança. Mas aqueles que sobreviveram, aqueles que mantiveram a sanidade, eram aqueles que ainda tinham um “porquê”. Não um prazer, não uma pulsão, um porquê. O senhor, que passou a vida analisando sonhos, jamais analisou o sonho de sobreviver ao inimaginável.”
Freud inclinou a cabeça, e o gesto era de quem reconhece um adversário à altura.
“Auschwitz, disse com a voz mais baixa, é o argumento do senhor. E é um argumento poderoso. Mas, Frankl, o senhor está cometendo o erro que todos os seus discípulos cometem. O senhor está confundindo causa com justificativa. O homem não sobrevive porque tem um porquê; ele inventa um porquê para justificar a sobrevivência. A mente humana, meu caro, é uma máquina de criar narrativas. E a narrativa do sentido é a mais poderosa de todas, mas é ainda uma narrativa.”
Frankl sorriu, um sorriso que era um eco de algo mais antigo que a psicologia.
“O senhor escreveu, doutor Freud, que a religião é uma ilusão—uma projeção do desejo humano por um pai protetor. Eu não discordo. Mas o senhor também escreveu que o amor é a única coisa que pode curar a neurose. E eu pergunto: o que é o amor, senão o sentido que encontramos no outro? O senhor, que passou a vida desconstruindo ilusões, construiu a maior ilusão de todas: a de que a verdade está na desconstrução. Mas a verdade, doutor Freud, está também na construção.”
O homem do monóculo, naquele instante, deixou cair o jornal, e as manchetes que caíam no chão eram todas sobre o mesmo evento, repetido em línguas diferentes.
Freud tirou o charuto da boca e o apagou no cinzeiro, como quem apaga uma ideia que já não serve.
“O senhor escreveu Em Busca de Sentido, Frankl. E o livro vendeu milhões. Vendeu porque as pessoas querem ouvir que o sofrimento tem um propósito. Mas eu, que passei a vida ouvindo os sofrimentos dos outros, sei que o sofrimento não tem propósito. O sofrimento é apenas sofrimento. A única escolha que temos é como responder a ele. E o senhor, Frankl, escolheu responder com esperança. Eu escolhi responder com lucidez. Qual de nós é mais honesto?”
Frankl baixou os olhos para a xícara vazia, e a luz do abajur verde desenhou sombras em seu rosto.
“A honestidade, doutor Freud, não é uma escolha entre esperança e lucidez. É a capacidade de ver as duas ao mesmo tempo. O senhor viu o inconsciente, e eu o admiro por isso. Mas o inconsciente, doutor Freud, não é o fundo do poço, é o poço que cavamos para encontrar a água. Eu cavo em busca de sentido; o senhor cava em busca de desejo. Ambos cavamos. A diferença é que o senhor acredita que o que encontramos no fundo é sempre o mesmo: o instinto. Eu acredito que o que encontramos no fundo é sempre diferente: a liberdade de escolher.”
“A liberdade, disse Freud, com um sorriso que era quase uma careta, é a maior ilusão de todas, Frankl. O homem não é livre; é determinado. Determinado por sua infância, por seus traumas, por suas pulsões. O senhor, que esteve em Auschwitz, deveria saber disso melhor do que ninguém. O senhor foi determinado pelos nazistas, pela fome, pelo medo. E ainda assim, o senhor fala em liberdade como se ela fosse uma escolha.”
Frankl ergueu a cabeça, e seus olhos encontraram os de Freud com a intensidade de quem já viu o fundo do poço e decidiu que ele não era tão fundo assim.
“O senhor está certo, doutor Freud. Fui determinado. Mas entre o estímulo e a resposta, há um espaço. Nesse espaço, está a nossa liberdade, a liberdade de escolher a resposta. Os nazistas podiam me tirar tudo, menos uma coisa: a liberdade de escolher como eu respondia ao que me faziam. Essa liberdade, doutor Freud, é a única que importa.”
A mulher dos retratos, naquele momento, terminou um desenho e o mostrou ao vazio, era o retrato de um homem sem rosto, com uma pergunta escrita no peito.
Freud levantou-se, e o movimento era o de quem encerra uma sessão.
“O senhor me convenceu, Frankl. Não de que o sentido existe, mas de que o senhor existe. E isso, talvez, seja o suficiente. O senhor e eu somos dois lados da mesma moeda; o senhor mostra a luz, eu mostro a sombra. Mas a moeda, Frankl, ainda é a mesma.”
Frankl também se levantou, e os dois se encararam: o pai da psicanálise e o pai da logoterapia, o homem do desejo e o homem do sentido.
“Vamos, doutor Freud, disse Frankl, que a análise nunca termina. Ela apenas se transforma.”
“Está certo Frankl. Vamos, doutor Frankl, que a verdade, como a neurose, sempre volta.”
E saíram juntos, suas sombras se alongando como duas interpretações do mesmo sonho, enquanto a valsa de Strauss se arrastava como um diagnóstico que nunca termina.
Aprendi, naquela noite, que o desejo e o sentido não são opostos, são dois nomes para a mesma busca: a de encontrar um lugar no mundo que faça o mundo suportável.
Freud nos ensinou a olhar para dentro; Frankl nos ensinou a olhar para frente. E a história, que é a soma de todos os olhares, nos ensina que o homem é o único animal que pergunta e que a pergunta, mesmo sem resposta, já é uma forma de cura.
No meu livro de guardanapos, escrevi com a caneta que parecia ter memória:
"O sentido não está no que encontramos, mas no que escolhemos procurar, mesmo quando sabemos que a procura é tudo e só o que temos."




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