top of page

O ESPECTRO E O ÍCONE

  • Carlos A. Buckmann
  • há 1 hora
  • 6 min de leitura

O ESPECTRO E O ÍCONE

(Da série RETORNO AO CAFÉ ENTRE FLUXOS)

            O CAFÉ ENTRE FLUXOS, naquela noite, tinha a atmosfera de uma igreja que desistiu de ser sagrada e resolveu ser apenas bela. As paredes de pedra aparente suavam uma umidade que não era água, mas memória, pequenas gotículas de tempo condensado escorrendo como lágrimas de estátuas que aprenderam a chorar. Cada mesa era uma ilha de madeira escura, e as cadeiras, de couro gasto, rangiam como consciências perturbadas quando alguém se sentava.

            A música de fundo era uma sonata para violoncelo de Rachmaninoff, aquela em sol menor que parece estar sempre perguntando algo, sem nunca esperar resposta. As notas eram densas como neve na Rússia, e ao mesmo tempo leves como o gelo que se rompe no fiorde norueguês.

            Num canto, um homem de barba grisalha escrevia em uma máquina de escrever que não tinha teclas, ele apenas movia os dedos no ar, e as palavras apareciam sozinhas na folha. Em outra mesa, uma mulher de vestido preto contava moedas de ouro que nunca diminuíam, como se cada moeda fosse uma promessa que só se repetia.

            Liev Tolstói entrou como quem carrega o peso de uma montanha nos ombros. Sua barba branca e seu olhar cinzento, penetrante, varriam o ambiente como açoites. Vestia a roupa simples de um camponês russo, uma blusa de linho e botas de couro rústico. Mas sua postura era a de um general que já venceu batalhas demais e agora se pergunta se elas valeram a pena.

            “Este lugar, disse, sentando-se com a lentidão de quem tem todo o tempo do mundo e lamenta isso, cheira a mentira. A mentira que a arte conta para parecer verdade.”

            Henrik Ibsen chegou sem que se abrisse. Ele tinha a magreza de uma sombra que aprendeu a ser sólida. Os olhos escuros, a barba pontiaguda, o paletó preto que parecia ter sido costurado com fios de noite. Sentou-se na mesa oposta com a precisão de quem está acostumado a ocupar espaço em peças de teatro, onde cada gesto é um dito, cada pausa, uma revelação.

            “E no entanto, Liev, disse Ibsen, com a voz que era quase um sussurro, mas carregada de ferro, a arte não mente. Ela apenas mostra a mentira que a vida insiste em chamar de verdade. O senhor escreveu Guerra e Paz, e a chamou de romance. Eu escrevi Casa de Bonecas, e a chamaram de escândalo. Quem mentiu mais?”

            Servi a ambos: a Tolstói, uma xícara de chá preto, sem açúcar, que ele aceitou com um grunhido de aprovação; a Ibsen, um uísque que ele segurou sem beber, como quem segura uma verdade que ainda não está pronta para ser dita.

            Tolstói ergueu a xícara com as duas mãos como quem segura um cálice, mas também como quem segura um fardo.

                        “O senhor, Ibsen, escreve sobre casamentos que desmoronam, sobre mulheres que abandonam seus maridos, sobre fantasmas que se recusam a assombrar. O senhor mostra a podridão por baixo do tapete da sociedade. E eu, Henrik, passei a vida mostrando a podridão por baixo do tapete da alma. Mas a diferença é que o senhor ainda acredita que a sociedade pode ser reformada. Eu, aos 82 anos, já não acredito em nada, exceto que o homem precisa de Deus, e Deus precisa do homem.”

            Ibsen tomou um gole do uísque e fez uma pausa longa, teatral, como se estivesse esperando o público silenciar.

            “Fala em Deus, Liev. Mas o Deus que o senhor encontrou no final da vida, esse Deus que o fez renunciar à propriedade, à família, à sua própria obra, é o mesmo Deus que o senhor procurava quando escreveu Anna Karenina? Ou é um Deus que o senhor inventou para não precisar mais escrever?”

            Tolstói apertou a xícara com tanta força que a cerâmica rangeu.

            “Inventar Deus, Ibsen, é a única coisa que o homem não pode fazer. Porque se Deus é inventado, ele é uma mentira. E a mentira, Henrik, é o que mata a alma. O senhor escreve peças para mostrar que a vida é um teatro. Eu escrevi romances para mostrar que o teatro é a vida. Mas no fundo, Henrik, ambos falhamos.”

            “Falhamos? - Ibsen ergueu uma sobrancelha, e o gesto era tão preciso quanto um diálogo de suas peças. - Eu não falhei, Liev. Eu acertei o alvo. Meu alvo era a hipocrisia, e eu acertei. O senhor, que escreveu sobre a Rússia inteira, sobre Napoleão, sobre a história, acertou um alvo ainda maior. Mas o senhor se recusa a ver que o acertou. O senhor nega sua obra como quem nega um filho pródigo.”

            A mulher do vestido preto, naquele instante, deixou cair uma moeda e a moeda não fez barulho ao cair, como se o ouro tivesse esquecido seu peso.

            Tolstói baixou a cabeça, e a luz âmbar do café desenhou sombras profundas em seu rosto.

            “Não nego minha obra, Henrik. Eu a amaldiçoo. Porque minha obra foi um palácio construído sobre um pântano. Escrevi sobre a condição humana, mas não vivi a condição humana. Fui um conde russo que pregou a pobreza enquanto vivia em uma mansão. Fui um profeta que não seguiu sua própria profecia. Não somos irmãos, Ibsen. Somos a mesma ferida.”

            Ibsen riu, um riso seco, como a neve que range sob as botas.

            “Tem razão, Liev. Mas a ferida, meu caro, é o que nos torna humanos. O que seria de nós sem a ferida? Uma sociedade de anjos sem pecado, de heróis sem mancha, isso é a morte. O que o senhor chama de amaldiçoar sua obra, eu chamo de entendê-la. O senhor escreveu A Morte de Ivan Ilitch, a história de um homem que descobre que nunca viveu. O senhor descobriu o mesmo, e escreveu sobre isso. Eu escrevi O Pato Selvagem, a história de um homem que descobre que a verdade é insuportável. O senhor descobriu o mesmo, e escreveu sobre isso. Nossas obras não são nossas vidas, Liev. Nossas obras são a vida que não tivemos coragem de viver.”

            Tolstói ergueu os olhos, e neles havia uma umidade que não era choro, mas o orvalho da manhã sobre a estepe.

            Ibsen finalmente bebeu todo o uísque de uma vez, e o gesto era de quem faz um brinde a si mesmo.

            “Talvez, Liev. Mas o que importa é que escrevemos. Escrevemos apesar de nós mesmos, apesar de nossa hipocrisia, apesar de nossa incompetência para viver. Escrevemos como quem respira, porque se pararmos, morremos.

            Tolstói levantou-se, e a bengala que ele não usava estava em suas mãos, uma bengala que ele não precisava, mas que carregava como quem carrega uma memória.

            “Tem razão, Ibsen. A palavra é tudo. Mas a palavra, quando não é vivida, é vazia. Eu preguei a verdade, mas vivi a mentira. O senhor pregou a dúvida, e viveu a dúvida. Talvez o senhor seja mais honesto do que eu. Talvez sua dúvida seja mais verdadeira que minha certeza.”

            Ibsen também se levantou, e os dois ficaram frente a frente; o russo imenso e o norueguês magro, a fé e a dúvida, o ícone e o espectro.

            “Vamos, Liev, disse Ibsen, a verdade nos espera, e ela é mais cruel do que qualquer ficção.

            Vamos, Henrik, respondeu Tolstói, que a mentira, quando é bela, é mais verdadeira que a verdade.

            E saíram juntos, suas sombras se alongando como parágrafos não escritos, e a música de Rachmaninoff pareceu segui-los, como se as notas fossem os passos de um cortejo fúnebre que dança.

            Quando o café ficou vazio, peguei meu caderno de guardanapos. Aprendi, naquela noite, que a literatura não é a arte de responder, é a arte de perguntar de tal maneira que a pergunta se torna mais importante que qualquer resposta.            Tolstói perguntou sobre Deus; Ibsen perguntou sobre a sociedade. Ambos, no fundo, perguntaram sobre a mesma coisa: como viver quando a vida é insuportável. E ambos nos deixaram a lição de que a pergunta, quando é genuína, já é uma forma de resposta.

            Escrevi, com a caneta que parecia chorar tinta:

            "A verdade não é o que encontramos, mas o que procuramos com tanta intensidade que a procura se torna a única morada possível."

            E fechei o caderno, sabendo que cada encontro no CAFÉ ENTRE FLUXOS não terminava nunca, apenas se transformava em outra pergunta, em outro guardanapo, em outra noite que ainda não havia começado.

 
 
 

Comentários


CONTATO

Porto Alegre, RS 

​​

Tel: (51) 9 9259-6364

Skype: betobuckmann​

betobuckmann@yahoo.com.br

Nós recebemos a sua mensagem, aguarde contato.

  • LinkedIn - Círculo Branco
  • Facebook - Círculo Branco
  • Instagram - White Circle
  • YouTube - Círculo Branco

© 2023 por Hugin. Criado orgulhosamente com Wix.com

bottom of page