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A CONSPIRAÇÃO E A REPÚBLICA

  • Carlos A. Buckmann
  • há 11 minutos
  • 4 min de leitura

A CONSPIRAÇÃO E A REPÚBLICA

(Da série RETORNO AO CAFÉ ENTRE FLUXOS)

            O CAFÉ ENTRE FLUXOS, naquela noite, tinha a atmosfera de um fórum que desaprendeu a ser romano. As colunas de mármore fingido sustentavam um teto pintado com nuvens que não se moviam, como se o céu tivesse resolvido parar para ouvir o que os homens tinham a dizer. O piso de mosaico, em padrões geométricos que se repetiam até o infinito, era uma promessa de ordem que o tempo nunca cumprira.

            A música de fundo era uma tuba romana, mas tocada tão suavemente que parecia vir de dentro das paredes, o som de legiões que marchavam em sonhos, de batalhas que nunca aconteceram, de triunfos que a história esquecera de registrar. Cada nota era uma espada que se recusava a ferir.

            Em uma mesa de canto, uma mulher de estola púrpura escrevia em tabuinhas de cera com um estilete que brilhava como uma lágrima petrificada. Em outra mesa, um homem de toga rasgada folheava um pergaminho cujas palavras se apagavam assim que lidas, como se o próprio ato de ler fosse uma forma de esquecimento.

            Marco Túlio Cícero chegou como um cônsul que ainda não soubera de sua derrota. Sua toga, de um branco impecável, era a armadura de quem acreditava que a eloquência poderia salvar a república. A mão direita, que tantas vezes se erguera no Senado, agora descansava sobre a mesa como uma arma que preferia a palavra ao golpe.

            “Estranho lugar, disse Cícero, sentando-se com a gravidade de quem profere uma sentença, aqui se respira  a traição. Não a traição dos atos, mas a traição das palavras. As palavras que prometem e não cumprem, que juram e mentem.

            Lúcio Sérgio Catilina entrou como uma sombra que se recusava a ser sombra. Seu rosto era uma máscara de nobreza cansada, os olhos escuros, a barba mal aparada, as mãos que pareciam ter empunhado todas as espadas que a república condenara. Vestia uma túnica simples, mas seu andar era o de quem já ocupou tronos em pensamento.

            “Cícero, saudou  Catilina, sentando-se com a desenvoltura de quem não tem nada a perder, o senhor fala em traição. Mas a república que o senhor defende, essa república que o senhor chama de sagrada, é ela mesma uma traição. Uma traição contra os que não têm, contra os que foram esquecidos, contra os que a história condenou ao silêncio.”

            Servi a Cícero, um vinho de “Falerno”, tão claro que parecia água; a Catilina, um vinho mais escuro, quase negro, como o sangue que ele prometera derramar.

            Cícero ergueu a taça sem beber, como quem faz um brinde a uma ideia.

            “O senhor conspirou contra Roma, Catilina. O senhor planejou incendiar a cidade, assassinar os cônsules, cancelar as dívidas, e tudo em nome da "justiça". Mas a justiça, meu caro, não se constrói sobre cinzas. Constrói-se sobre leis. Leis que eu defendi no Senado com todas as minhas palavras. O senhor chama minha república de traição; eu chamo sua rebelião de suicídio.”

            Catilina riu. Um riso que era o eco de uma batalha perdida.

            “O senhor escreveu, Cícero, que "as leis silenciam em meio às armas". E no entanto, o senhor usou as armas contra mim. Mandou executar meus aliados sem julgamento, na prisão de Túlio. Chamou aquilo de "defesa da república", mas a república, Cícero, morreu no momento em que o senhor abandonou a lei para salvá-la.”

             mulher da estola púrpura ergueu os olhos de suas tabuinhas, e seu estilete parou no ar, como se esperasse uma revelação.

            Cícero baixou a taça e apoiou os cotovelos na mesa, o gesto de quem está prestes a dar um golpe retórico.

            “O senhor fala em execuções sem julgamento, Catilina, e esquece que o senhor planejou assassinatos sem remorso. O senhor queria incendiar Roma para que os pobres pudessem se aquecer nas cinzas. Mas as cinzas, meu caro, não aquecem, apenas sujam. A república que eu defendi, que eu lutei para preservar, era uma república de palavras. E as palavras, Catilina, são o único fogo que não destrói.”

            “Palavras!” Catilina bateu com a mão na mesa, e o vinho negro tremeu em sua taça. “As palavras do senhor são as que mantêm os ricos em suas vilas e os pobres em suas favelas. Eu, Cícero, queria uma Roma diferente, onde o mérito, não o nascimento, decidisse o destino dos homens. O senhor chamou isso de ambição; eu chamei de justiça.”

            Cícero inclinou-se para trás, e o gesto era de quem recua para atacar melhor.

            Catilina ficou em silêncio por um momento, e o silêncio era o de uma espada que hesita antes de cair.

            Cícero baixou os olhos para o vinho não bebido. Ergueu a taça.

            “O senhor tem razão, Catilina. Roma caiu. E eu, que passei a vida defendendo-a, também cai. Mas o que resta de mim, o que resta de minha obra, não são as batalhas que venci ou perdi, são as palavras que deixei. "Onde há vida, há esperança." O senhor e eu, Catilina, somos dois lados de uma mesma moeda: o senhor representa a ação, eu represento a palavra. A história, que é a soma de todas as ações e todas as palavras, nos mostrou que nem a ação nem a palavra são suficientes. Apenas a memória, a memória do que foi dito, do que foi feito, do que poderia ter sido.

            Catilina também ergueu sua taça, num brinde que era também uma despedida.

            “Hora de partir, Cícero, que a república ainda nos espera, mesmo que ela nunca tenha existido.”

            “Partamos, Catilina, que a eloquência é a única arma que não mata e, no entanto, é a única que perdura.”

            “Saíram juntos, suas togas se misturando como dois argumentos que finalmente se entendem, enquanto a música da tuba se elevava como o lamento de uma cidade que já não existe.

            Quando o café ficou vazio, peguei meu caderno de guardanapos. Cícero e Catilina me mostraram que a política é sempre uma disputa entre o que é e o que poderia ser e que a verdade, nessa disputa, não está em nenhum dos lados, mas no espaço entre eles.

            Escrevi, com a caneta que tinha a ponta de um estilete:

            "A república não está nas leis nem nas armas, está no diálogo que as leis e as armas tentam silenciar."

            E guardei o guardanapo com os outros do meu livro, sabendo que cada encontro no CAFÉ ENTRE FLUXOS é um discurso, um discurso que nunca termina, porque as palavras, como as conspirações, sempre encontram um jeito de voltar.

 
 
 

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