A SOBERBA DA IGNORÂNCIA
- Carlos A. Buckmann
- 23 de mai. de 2025
- 3 min de leitura

A SOBERBA DA IGNORÂNCIA
Diz-se, frequentemente, que Sócrates teria proferido a máxima: "Nada se pode ensinar a uma pessoa que acredita saber tudo." Contudo, por mais que perscrute os diálogos de Platão, nos quais o filósofo ateniense é personagem principal, não encontro tal sentença explicitamente registrada. No entanto, há, em suas palavras, o espírito desse pensamento, pois sua doutrina se fundamentava na consciente ignorância como ponto de partida para o verdadeiro saber.
O que pode ser mais insensato do que aquele que julga já possuir todas as respostas? Estes, ao fecharem-se em sua arrogância, tornam-se impermeáveis ao aprendizado, à troca, ao diálogo. É tarefa hercúlea tentar levar uma luz a quem crê já estar iluminado, pois o orgulho constrói muros onde deveria haver pontes.
Sócrates via a ignorância não como uma condição definitiva, mas como um estado inicial necessário para o verdadeiro conhecimento. Sua célebre frase, "Só sei que nada sei", não era um gesto de falsa modéstia, mas sim o reconhecimento de que a sabedoria começa quando admitimos nossas limitações.
Nos diálogos de Platão, Sócrates utiliza o método dialético, ou seja, o questionamento sistemático, para revelar as inconsistências do pensamento de seus interlocutores. Ele acreditava que muitos viviam na ilusão do saber, presos a crenças infundadas ou a verdades aceitas sem reflexão. Para ele, a maior ignorância era justamente acreditar que se sabe tudo, pois isso impede o indivíduo de aprender e evoluir.
Além disso, sua ideia de "maiêutica" - o "parto das ideias"—presumia que a verdade não deveria ser simplesmente ensinada, mas sim descoberta pelo próprio indivíduo por meio do diálogo e da reflexão. Esse processo só é possível para aqueles que reconhecem sua própria ignorância e, portanto, se abrem ao aprendizado. Assim, a ignorância, para Sócrates, não era um defeito inerente, mas sim uma oportunidade de crescimento. O perigo estava na soberba do falso saber, que fecha as portas do conhecimento e condena o indivíduo à estagnação
Muitos pensadores concordaram com essa premissa. Francis Bacon, no século XVII, advertia que a soberba é a maior inimiga do conhecimento. Descartes, ao propor seu método da dúvida, fazia um apelo ao questionamento como forma de aprendizado. Kant, ao estabelecer os limites da razão, demonstrava que o conhecimento é sempre um campo a ser expandido, nunca um território completamente conquistado. Outros luminares do pensamento corroboram essa constatação. Erasmo de Roterdã, em sua mordaz “Elogio da Loucura”, satiriza a figura do pedante que se compraz em sua própria erudição superficial, alheio à verdadeira sabedoria que reside na humildade intelectual. Montaigne, com sua filosofia do ensaio e do constante questionamento, exalta a importância da dúvida metódica como motor do conhecimento, em contraposição à rigidez dogmática daqueles que se julgam donos da verdade. Nietzsche, em Ecce Homo, descreve, ainda que por outras vias, essa arrogância intelectual como uma forma de decadência do espírito: “O homem que não muda de opinião é como a água estagnada — apodrece.” Schopenhauer, menos sutil, define esse tipo de pessoa como presa fácil da vaidade: não busca a verdade, mas a confirmação de sua própria imagem. Em um registro mais oriental, os ensinamentos do Taoísmo preconizam a vacuidade como condição para a receptividade, metaforicamente comparando a mente aberta a um vale que atrai a água.
O impacto dessa atitude na vida pessoal é deletério. O indivíduo que se fecha ao aprendizado estagna, perde a capacidade de evoluir e de se adaptar às incessantes transformações do mundo. Nos relacionamentos interpessoais, a arrogância intelectual gera atritos, ressentimentos e isolamento. Em sociedade, a proliferação de mentes inflexíveis dificulta o debate construtivo, a busca por soluções conjuntas e o progresso coletivo.
No âmbito dos negócios, a recusa em ouvir novas perspectivas e em reconhecer os próprios erros pode levar à obsolescência e ao fracasso. A dificuldade de ensinar ao “sabe-tudo” tem consequências para além do incômodo pessoal: mina a possibilidade de convivência social, engessa o debate público e arruína empreendimentos. No mundo dos negócios, quantas empresas naufragaram não por falta de capital, mas por excesso de certezas? Peter Drucker já alertava: “O maior perigo em tempos de turbulência não é a turbulência em si, mas agir com a lógica de ontem.”
Mas há esperança para aqueles aferrados à própria ignorância. Dale Carnegie, em Como Fazer Amigos e Influenciar Pessoas, sugere que a escuta ativa e a humildade podem abrir portas antes fechadas. Carol Dweck, em Mindset, apresenta a teoria da mentalidade de crescimento, demonstrando que o aprendizado contínuo é essencial para o sucesso.
A lição que tiramos é clara: o verdadeiro sábio é aquele que reconhece sua ignorância e, com isso, se mantém aberto à eterna descoberta. O que não sabe e reconhece não saber pode aprender; já o que acredita saber tudo condena-se à estagnação.
E se, por acaso, alguém lhe disser que já sabe tudo, apenas sorria e diga: “Parabéns! Agora só falta aprender o resto.”




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