A SINFONIA INACABADA DO SER E DO COLETIVO
- Carlos A. Buckmann
- 10 de dez. de 2025
- 4 min de leitura

A SINFONIA INACABADA DO SER E DO COLETIVO
Minhas memórias de consultorias, por vezes, parecem-se com os fragmentos de um sonho recorrente, onde a lógica dura do capital colide com a sensibilidade etérea do humano.
Recordo-me com particular clareza de uma experiência em uma média empresa de cujos corredores pareciam impregnados por um silêncio pesado, uma letargia que ia além do cansaço físico. Fui chamado para decifrar o enigma do seu Departamento de Recursos Humanos, ou melhor, a ausência de sua vitalidade.
O diagnóstico revelou-se menos sobre planilhas e mais sobre a arquitetura da alma corporativa. De um lado, tínhamos os proativos, almas inquietas que, por um ímpeto interno que beirava ao heroísmo, tentavam imprimir ritmo e inovação. De outro, uma vasta maioria que se contentava com a obediência protocolar, um cumprimento de tarefas que parecia apenas sustentar a inércia, como engrenagens que giravam apenas para evitar a própria corrosão. A sintonia era um mito; o ethos de colaboração, uma utopia perdida.
A cereja amarga desse bolo de desarmonia residia no topo. O sócio-diretor principal, o farol que deveria guiar a embarcação, tinha seu olhar e energia fixados em outra praia, um empreendimento paralelo, sua nova paixão individual. A empresa que me contratara era, para ele, um navio em piloto automático, mal percebendo que a falta de comando ativo era, em si, um tipo de abandono.
O espetáculo dessa dicotomia produtiva me lançou a uma meditação involuntária. Enquanto observava a dança manca entre o esforço isolado e a indiferença coletiva, uma frase poderosa, um farol aceso na neblina da história social, irrompeu em minha consciência:
“O livre desenvolvimento de cada um é a condição para o livre desenvolvimento de todos.”
Essa sentença, que carrega em si a semente de uma ética de coexistência, pertence a Friedrich Engels (1820-1895).
Engels não era apenas um pensador recluso; era um homem que conhecia a dialética material do trabalho em sua própria carne. Filho de um industrial têxtil alemão, ele testemunhou, em primeira mão, nas tecelagens de sua família e nas brumas de Manchester, o custo humano da industrialização desenfreada. Ele via o indivíduo tolhido, sua potência criativa atrofiada pela monotonia e pela exploração, e compreendia que, enquanto a maioria vivesse sob essa coerção, o progresso da humanidade seria uma falácia. A libertação do indivíduo era, para ele, um ato de libertação coletiva.
Para solucionar o problema daquela empresa, não bastava a reorganização de fluxos. O desafio era eminentemente filosófico e psicológico.
A Filosofia nos ensina sobre a subjetividade, a autonomia e o reconhecimento. O empregado que apenas cumpre o básico está, muitas vezes, em uma crise de sentido. Ele se sente um meio, não um fim.
A solução passava por redefinir o propósito da empresa, alinhando-o não apenas ao lucro (o “telos” pragmático), mas à realização humana de seus membros. A proatividade é a manifestação da liberdade interior; ela surge quando o indivíduo se sente proprietário do processo, não um mero executor.
Aqui, a Psicologia entra em campo, munindo-nos das ferramentas para entender a motivação (intrínseca versus extrínseca) e a dinâmica de grupo. É preciso criar um ambiente de segurança psicológica onde o erro não seja punido, mas se torne um motor de aprendizado, permitindo que a criatividade, antes sufocada, floresça.
O conceito “engelsiano” encontra eco em outros gigantes. Jean-Jacques Rousseau, com seu ideal de Vontade Geral, pressupõe que o cidadão, ao seguir a lei que ele próprio ajudou a criar, atinge a sua verdadeira liberdade, beneficiando o corpo social.
Na contemporaneidade, o economista Amartya Sen defende a abordagem das Capacidades, sugerindo que o desenvolvimento verdadeiro consiste em expandir as liberdades e as capacidades de escolha do indivíduo, o livre desenvolvimento de cada um como o verdadeiro indicador de progresso social.
Contudo, a realidade impõe sua brutalidade. O problema daquela empresa era sistêmico, e a falta de engajamento do líder principal funcionava como um cancro no tecido moral. Às vezes, a cirurgia é inevitável.
Minha proposta final, destilada da ética social e da fria observação da dinâmica de poder, exigia atitudes drásticas.
O ultimato ao Sócio-Diretor: O livre desenvolvimento de cada um só é possível se houver uma liderança verdadeiramente engajada no livre desenvolvimento de todos. O sócio precisaria escolher: dedicar-se integralmente ao negócio ou vendê-lo, permitindo que um novo líder, com a visão holística do capital humano, assumisse o leme. A empresa não poderia florescer enquanto fosse tratada como um ativo secundário. O isolamento do líder é o veneno mais potente.
A Autonomia Radica: Implementar núcleos autônomos de trabalho, onde a equipe proativa pudesse assumir a gestão de projetos inteiros. Isso serve a um duplo propósito: reconhece a capacidade do indivíduo e, por contágio, força a reflexão nos demais: ou se eleva o nível de contribuição ou se torna evidente a incompatibilidade.
A solução, portanto, não estava na técnica de gestão, mas na revolução da consciência.
O problema da empresa só seria resolvido quando o corpo diretivo compreendesse, em sua essência, a profunda verdade de Engels: Não se pode construir uma obra grandiosa com homens diminuídos.
Era preciso, pois, democratizar o propósito. Transformar o ambiente de trabalho em uma esfera onde o desenvolvimento pessoal (o domínio de novas habilidades, a liberdade de propor) não fosse um luxo individual, mas a responsabilidade e a premissa fundamental da sobrevivência coletiva.
Minha intervenção se resumiu a traduzir a frase de Engels para a linguagem do dia a dia corporativo: Invista na potência de João e Maria, e o corpo da empresa, por reflexo, alcançará sua própria e inédita excelência.
O destino daquela empresa, após o ultimato, tornou-se secundário. O que me interessava era a prova de que a filosofia não é um luxo acadêmico, mas a ferramenta mais poderosa para resgatar a dignidade do trabalho e, por consequência, a prosperidade do empreendimento.




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